segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

a carta da paixão


Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.


Herberto Helder

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Vêm de muito longe e chegam incompletamente


Vêm de muito longe e chegam 

incompletamente 

ao pequeno vulnerável sítio entre o meu coração e a minha vontade

coração ateu (nessas coisas dos amores em part-time), vontade 

dividida, que quase acreditou

em amigos.

Inconstantes nas cores como no percurso

Adoro como passas por mim 

e sorris.

Adoro como passas por mim

e não sorris.

Adoro como passas por mim.

Incompletamente.

Não se perseguem borboletas!

Fossem outros, de outras pessoas, outras pessoas, de outros 
modos, outras coisas?
Passam incompletamente. Passam…

Elas pousam, se quiserem…

Perfeito desacerto pensar possuir alguém se nem a própria vida 

possuímos…

E no entanto nunca me apeteceu faltar ao encontro fatal da areia

com o mar!

Sempre me serviu para visitar últimos amigos e

A solidão sempre me restou como companhia.

Sítios desertos, continuarão sempre

À nossa espera.

Maria Supertramp


Itálico correspondente ao texto de Manuel António Pina, «Farewell Happy Fields» in Poesia Reunida, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

carta a Lord Alfred Douglas

Courtfield Gardens, 20 de Maio de 1895

Minha criança,
Hoje foi pedido para que as sentenças fossem dadas em separado. Taylor será julgado neste momento, por isso pude vir até aqui. Minha doce rosa, minha flor delicada, meu lírio dos lírios, parece ser na prisão que vou testar o poder do amor. Vou ver se consigo amaciar a rudeza dos guardas com a intensidade do meu amor por ti. Houve alturas em que pensei que era melhor a separação. Ah! momentos de fraqueza e loucura! Agora vejo que teria mutilado a minha vida, arruinado a minha arte, quebrado as cordas musicais que fazem uma alma perfeita. Mesmo enlameado te louvarei, desde os abismos mais profundos chamarei por ti. Estarás comigo na minha solidão. Estou pronto a me não revoltar, aceitando qualquer ultraje por amor, deixar que o meu corpo seja desonrado enquanto a minha alma guardar a tua imagem. Desde o teu cabelo sedoso até aos teus delicados pés, para mim és a perfeição. O prazer esconde-nos do amor, mas a dor revela-o na sua essência. Ó mais adorada das criaturas, se alguém ferido pelo silêncio e solidão vier até ti, desonrado, alvo de zombaria, oh! podes sarar as suas feridas tocando-as e curar a sua alma que a infelicidade havia asfixiado. Nada te será difícil, lembra-te, é essa esperança que me faz viver, essa única esperança. O que o saber é para o filósofo, o que Deus é para o santo, tu és para mim. Manter-te no coração, tal é o meu objectivo desta dor a que os homens chamam vida. Ó meu amor, tu a quem acarinho acima de todas as coisas, narciso branco num campo de ceifar, pensa no fardo que sobre ti recai, um fardo que apenas o amor pode tornar leve. Mas não te entristeças, antes sente-te feliz por teres preenchido com um amor imortal a alma do homem que agora chora no inferno, e mesmo assim leva o céu no coração. Amo-te, amo-te, o meu coração é uma rosa que o teu amor fez desabrochar, a minha vida um deserto tocado pela deliciosa brisa do teu hálito, e cuja fresca primavera são os teus olhos. A marca dos teus pequenos pés faz vales de sombra em mim, o perfume do teu cabelo é como mirra, e onde quer que vás, exalas os odores da acácia.
Ama-me sempre, ama-me sempre. Tens sido o supremo, o perfeito amor da minha vida, não pode haver outro.
Decidi que ficar era o mais nobre e o mais belo. Não podemos estar juntos. Não quero ser apelidado de cobarde ou desertor. Um nome falso, um disfarce, uma vida a monte, tudo isso não é para mim, para quem tu foste revelado no cimo da montanha onde as coisas belas se transfiguram. 
Ó mais doce dos rapazes, mais amado de todos os amores, a minha alma une-se à tua, a minha vida é a tua, e no meio de toda a dor e prazer tu és o meu ideal de admiração e alegria.

Oscar

in Cartas de Amor de Grandes Homens, Ursula Doyle

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

a minha cidade és tu


são 23:57, precisamente, e escrevo-te à distância desta cama vazia deste outono vazio de todas as coisas que descobrimos juntos, tu e eu Porto, e sei que vamos ser felizes para sempre.

és a minha cidade. tu és a minha cidade. e és minha lista de sonhos por cumprir e a minha lista de lugares por cumprir e de livros e filmes e músicas e vinhos.

nasci para ti, para as tuas ruas de pedras e calçadas e s. bento em partidas e chegadas em abraços mais ou menos perdidos e para o piolho o setenta e sete o contagiarte às quartas e o gesto agora apagado e o pinguim o mau mau a tendinha o armazém mais as tardes do solar a tasca de santo antónio o senhor fernando o fado no boteko e para todas as pessoas que puseste no meu caminho, tantas e tantas que vão ficar,

 e para os teus velhos, que gosto quando o sol se põe nos olhos dos teus velhos, e para o teu sotaque e a tua autenticidade de cordas nas varandas e cuecas e soutiens e o peluche dos meninos e para o carago para o chega-te à minha beira e para as tuas mulheres, a Sophia a Agustina, que tens as mulheres mais bonitas do mundo e as varandas mais bonitas do mundo e a curva de rio mais bonita do mundo

e para a tua voz de nevoeiro para as manhãs de chuva e olhar breve da ribeira, para o rio a molhar os pés das casas a molhar os pés das pontes a molhar os pés do mar, e para as casas, para as tuas casas a nascer das outras casas, umas dentro das outras e em cima e ao lado pequenas escadas a nascer e pequenas ruas e pequenos vãos de escadas onde os namorados

que és a cidade mais romântica do mundo e ninguém é mais feliz do que nós que te amamos

e gosto que tenhamos horas marcadas, sítios, dias no calendário
e gosto de te deixar mensagens e de encontrar as mensagens que te deixei e saber que não mudámos, eu e tu

e gosto das viagens no teu corpo. e de te tocar, gosto tanto de te tocar. e gosto das noites de viagens no teu corpo e dos amanheceres de frio e poucas flores e alegria, só frio e uma alegria sem flores que o frio também pode ser alegre em manhãs de aconchego e mantas e poemas de muitas cores.
 
e gosto de voltar a ti. gosto de voltar

e são 00:46 e continuo a escrever-te  e continuo à espera que uma janela se abra e te traga até mim, qualquer janela

e de repente só o teu cheiro e esta falta de ar

 a minha cidade és tu.

e continuo a escrever-te à espera que uma janela se abra

e de repente esta frágil sede a tua fotografia lúcida o teu mar alto encostado ao meu mar  

e de repente só a tua respiração só o teu sorriso de cidade feliz só a fotografia do teu mar alto a encostar o peito ao meu mar

e hoje sonhei contigo. estavas muito bonita.

vou ter todas as saudades do mundo

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Terra Árida

Dou às coisas uma importância que elas não têm, insisto em querer ter todas as respostas e entender todos os porquês. Às vezes finjo que me esqueço e que não faz mal todo o desconhecimento que me cerca e está ali mesmo no virar da página de um livro que nunca foi escrito. Depois lembro-me e os assuntos anões são agora gigantes. Não tenho pedras suficientes nas mãos para atirar. Eu que nunca matei um urso, nem lutei com um leão. Eu que tenho o meu cabelo castanho e não domino a arte da música. Eu que me afogo no mar do que não sei resolver. Eu que só precisava de entender, de saber um pouco mais de poucas coisas mais. Pegar nos assuntos inacabados, trancá-los em caixas de bronze, com ferrolhos de ferro e perdê-los. Em mim não há força. Quero esquecer que antes de hoje houve outros dias e semanas e meses e anos, num passado que se adensa no calor das horas. Tenho medo de me esquecer. Tenho medo de me esquecer-me. Ainda tenho medo de me esquecer-te. Há um instante de dor aguda que se prolonga num batimento cardíaco sem fim. Saber que não pensaste em mim, que eu não pesei nas tuas contas. As decisões e não-decisões arrasaram-me. Sou um campo de batalha que cheira a morte, carregada de mortos nas mãos. Tombaste. Tiveste mais do que um corpo, mais do que um nome, ainda assim tombaste. Vez após vez, tombaste. Somaste-te ao número das perdas que não recupero e levaste-me contigo. Pedaço após pedaço.  Se ao menos pudesses olhar para mim e ver aquilo em que me tornaste. Um lugar triste, um jardim seco, uma terra árida.

Uma Rapariga Simples

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A vida das mulheres


O que me aconteceu que não me apetece fazer amor com o meu marido? As minhas amigas garantem que ao fim de cinco anos de casada é inevitável, a ideia vai deixando de exaltar-nos, até se continua a ter prazer mas não é a mesma coisa, se em vez do meu marido fosse outro qualquer era igual, o tempo mata o entusiasmo e o desejo mas, em compensação, aparecem outras alegrias, sobretudo o facto de ter uma família, uma certa paz, uma rotina no fim de contas agradável, um sentimento de estar protegida, de segurança, de estabilidade embora com os homens nunca se saiba, tão infantis, tão à mercê de entusiasmos, caprichos, qualquer par de pernas os transtorna, as raparigas mais novas põem-nos a ferver mas a segurança e a estabilidade, ainda que precárias às vezes, existem de facto, claro que há separações, divórcios, etc., porém a estabilidade e a segurança, uma certa estabilidade e uma certa segurança existem de facto e depois, uma vez a meio da semana e outra ao fim de semana, lá vem a mãozinha, a perna, o corpo todo, é agradável sem ser muito bom, aquela paz do depois sossega a gente e, para além do sossego, o alívio de saber que por uns dias teremos descanso, jantares com amigos, a televisão, o jornal, a vida é isto, quanto ao fazer amor umas ocasiões é agradável, outras nem tanto, a partir de um certo tempo em comum as coisas tendem a passar-se mais ou menos da mesma maneira, não há grandes variações, não há acrobacias, acabam e levantam-se logo com a desculpa do chichi, do copo de água, das crianças que podem ouvir

(ouvir o quê se acabou?)

parecem aborrecidos connosco, parecem fartos, não respondem, resmungam, não conversam, ficam calados no sofá ou telefonam a um colega do emprego para combinar um jantar a quatro, há quantos meses não jantamos sozinhos, há quantos meses não me beija sem segundas intenções, só por beijar, não me diz nada terno, não me pega na mão, na semana passada perguntei-lhe

- Gostas de mim?

respondeu

- Estou aqui não estou?

parecia que admirado com a pergunta, se ponho um vestido novo anima-se um bocado porque me tornei outra e é a outra que lhe interessa, não eu, a mesma reacção com brincos grandes, mais maquilhagem, saltos altos, a quem é que apetece fazer amor afinal, a mim, a ele, é evidente que não me interessam outros, nem olho, o actor de uma série de televisão mas isso um entusiasmo vago, um

- Como seria se

que conforme aparece se esfuma, quando vamos no carro já me aconteceu pensar no actor, uma espécie de pergunta, porque não chega a pergunta

- Como se seria se

e passa, o meu marido não gosta de conversar enquanto conduz ele que ao princípio conversava imenso

- Não me desconcentres que só temos seguro contra terceiros pergunto-me se o actor me daria atenção ou ao cabo de cinco anos o mesmo, suponho que o mesmo ou antes tenho a certeza que o mesmo, pelo que oiço não há-de haver muitas diferenças entre eles, porque razão nós as mulheres não somos felizes, quer dizer até podemos ser felizes mas não somos felizes felizes e muito menos felizes felizes felizes, também não somos infelizes, é um estado de alma assim assim que o facto de termos uma família vai compondo, uma família, a casa paga, os electrodomésticos pagos, tudo pago, chegarmos juntos para comer nos meus pais que nem sonham que não me apetece fazer amor com o meu marido, até continuo a ter prazer mas não é a mesma coisa, nem pensam nisso em relação a mim, detestam pensar nisso em relação a mim porque continuo a ser menina para eles, se a minha mãe

- Está tudo bem entre vocês? respondo logo que está tudo bem, não se preocupe, nunca esteve tão bem e depois os miúdos graças a Deus são óptimos, tive imensa sorte, sabia, não trocava o que tenho nem por uma mina de ouro, a minha mãe, desconfiada

(aquele instinto das mulheres que ela, apesar dos setenta e três anos, ainda não perdeu)

- Palavra de honra?

enquanto o meu pai e o meu marido jogam às damas e nós na cozinha, em voz baixa, vejo-os daqui debruçados para o tabuleiro, no caso de perguntar à minha mãe e não pergunto, é evidente

- Está tudo bem entre vocês?

ela de súbito quieta, da minha idade e quieta, idêntica a mim

- Está tudo bem, não te preocupes

e não está tudo bem pois não, diga lá, nunca esteve tudo bem e agora é tarde para recomeçar a vida, filha, repara no meu corpo, no meu cabelo, nas minhas pernas, na minha cara, na minha pele, repara como envelheci, nem acredito quando me vejo ao espelho, ao nasceres pensei

- Acabou-se

e desisti, percebes, desisti, mas aparte ter desistido tudo bem, viste o actor daquela série da televisão, filha, talvez não acredites mas já me aconteceu que, não ligues, era uma conversa parva, o que é que me deu hoje, há alturas em que me torno uma adolescente tonta, que ridículo, uma adolescente de setenta e tal anos, que palermice, há alturas, lá ia eu continuar com a conversa, o que me preocupa é que tu estejas bem, a única coisa na vida que me preocupa é que tu estejas bem, o resto não tem importância, que tu estejas bem por mim que não espero seja o que for, passou muito tempo, entendes, demasiado tempo e não há tempo para mim hoje em dia, chega acontecer, vê só a estupidez, chega a acontecer imaginar-me morta e não é inteiramente desagradável, calcula, porque, pensando um bocadinho nisso, desde que me tornei mulher quando é que foi bom viver?

António Lobo Antunes


@http://visao.sapo.pt/a-vida-das-mulheres=f682420

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Sessão de gramártica


Uma pomba vem pousar sobre a porta deste texto.
Desce pelas frases, alisa as penas nas palavras, salta de linha em linha e voa para a tua mão,
enfeitiçada pelos teus olhos. 

Parece-me que ela é o teu coração. 

Resolvo preparar o ninho:
alinho almofadas com desejos, 
dispo o teu corpo de adjectivos, livro-o de advérbios até o sentir nu.
Junto-me a ti, imóvel. 
No silêncio do texto liso, os olhos da pomba sintonizam a nossa respiração. 
Cubro-nos com a sintaxe macia dos lençóis frescos 
e o texto banha-se em luz.
Ficamos assim, longamente repousando 
a substantividade do pronome «Nós».

Acordamos com uma cadência de asas
e sorrimos ao ver a pomba sair pelas janelas do texto. 
Conjugamos verbos reflexos, copulativos, plenos, 
ultrapassando condições e imperativos, 
fundindo todos os tempos do pretérito e do futuro, 
infinitivamente, 
até fundarmos a forma activa do presente significativo.

É então que a pomba volta 
e com uma flor no bico sublinha todo o texto.

Maria Ripichi



quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Imo


Conheço uma palavra que traiu todos os efeitos dos exercícios de repetição: amizade.

Essa felicidade que não se encontra nem se conquista, merece-se.

Ter amigos é reconhecer a nossa imperfeição, é ser inteiro, não possuir, cultivar, é sermos mais porque gostamos não porque é necessário, é ser completo de uma maneira que por vezes nos faz desejar não conhecer mais ninguém. Círculo. Perfeição. Esperança. Escolha. Maravilhosos mundos novos. Milagres onde o coração encontra vida.

Como me fazeis feliz…

Consideremos então a amizade: universo de pequenas coisas, espaço de renovação da luz.

A amizade não é um lugar onde possamos ir sozinhos.

E os amigos: abro janelas para todos os sítios do mundo quando vos quero ver e não estais comigo – que a paz é uma aparência de lugar que poucos conhecerão enquanto não compreenderem a Natureza, ou os Amigos, ou a natureza dos amigos. Algumas janelas abrem para dentro de mim. Na natureza, desde essas janelas, visitam-me os amigos. Abraço-os quando toco as árvores, conversamos quando cantam os pássaros e as folhagens, viajamos juntos quando percorro a braço as ondas e a brisa das falésias me eleva e a visita do entardecer é morna e ‎acalma as fúrias que arrasto comigo. Mas só porque me acompanhais. E assim, estamos sempre juntos.

Concluo sempre que o que me contenta na vida é quanto ainda espero dela e desejo partilhar convosco: amigos são pintores de ilusões, motores de esperança, brisa morna que me aconchega na contrariedade, obra inacabada!

Os dias que nos pertencem, e os que nos pertenceram, mais do que memórias da minha vida são desejos de as continuar a construir convosco. 

Desejo-me a boa-sorte de nunca vos ver partir.

Estranha forma de amar!

Abraços intermináveis, risos longos, saudades terríveis: dos tempos – de todos os tempos, dos amigos – só dos amigos.

Já se detiveram no pensamento das consequências do desaparecimento desses amigos na vossa vida?

Como seria com o vazio da vossa ausência, com o não poder ver mais nem tocar nem falar? Não poder mais!

Não quero.

Como me fazeis falta…

Não sabeis a falta que me fazeis…

Para sempre, convosco, é já ali!

Maria Supertramp

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

carta a Sandra


Sandra. Hoje a obsessão foi mais forte. Escrever-te. A nossa história que contei parecia-me intocável. Princípio e fim de nós nela, a tua morte selara-a para sempre. E todavia é nessa eternidade que a tua memória me perturba e a imagem terna do teu encantamento. Deves talvez lembrar-te de que nunca me escreveste. Mas eu escrevi-te algumas vezes quando vinha a férias e a emoção era demais. E um dia perguntei-te se tinhas guardado essas cartas. Tu olhaste-me com o teu sorriso breve e repreensivo. Rasguei-as, naturalmente, disseste, e porque havia de guardá-las? Gostava de as reler, de as ter, disse eu. Para recuperar o que fui nelas e o que houve nelas de ti. Que tolice, disseste ainda, a adolescência passou.
E, no entanto, nesta casa vazia e enorme, no silêncio da Terra que me aturde, é essa adolescência que regressa, e com ela a tua fala séria e  doce. Escrever-te. Possivelmente irei fazê-lo mais vezes até ver se no escrever se me esgota a tua fascinação. Tenho algumas fotografias tuas, mas o que procuro nelas não está lá. E é decerto por isso que raramente volto a vê-las. Porque tu nunca foste real para eu te poder amar. E é essa irrealidade amada que estremece na minha comoção e no êxtase leve de te imaginar. Podia no entanto lembrar-te em tanta situação da vida que nos coube. No dia em que a Xana nasceu. Numa praia iluminada do Sul. na noite em que conheci a ternura do teu corpo. Na tarde em que me disseste sim, podemos experimentar. Nos intervalos da nossa monotonia que também houve. No difícil da vida para ela se cumprir toda. Na tua morte. Escrever-te. Escrever-te. Talvez te  conte do muito que não contei e tu me não digas que tolice. Mas por sobre tudo o que poderia lembrar, há uma imagem obsessiva de ti e é a que sempre se me levanta ao incerto da evocação. Na realidade nunca te esqueço no dia a dia que te esquece. Mas ficas um pouco ao lado, à espera de que eu volte de novo a olhar-te. É uma imagem fluída e intensa, essa que se me ergue sempre, e eu penso que possivelmente é a de quando te vi pela primeira vez. Mesmo que não fosse a primeira e que estivesse então distraído do meu amor que passava em ti. Eu estava sentado com outros colegas num murete do jardim da Faculdade.. E a certa altura tu irrompeste de algures, do impossível, talvez afinal da tua casa que eu soube mais tarde que ficava ao pé. E o que se fixou na lembrança e imediatamente me aparece ao vaguear da evocação foi o movimento em filigrana da tua anca subtil, o aéreo do teu passar no teu equilíbrio frágil, a tua face doce e triste. E então imobilizo-te antes de a aragem te levar, para te ver bem. E assim te fixo a coxa fina, suavemente modelada pelo teu vestido, o pé à frente, firme e delicado. Verdadeiramente não sei bem o que o tempo me filtrou. É Outono, está sol, e há ainda no ar uma memória de Verão. É assim possível que tragas um vestido leve, provavelmente com o teu casaco solto de xadrez que te descia um pouco abaixo do joelho. Mas não e dá jeito lembrar-te assim.  Talvez porque o teu vestuário flutuante não deixe traçar a modulação do teu corpo. E eu sinto-a ainda no lineamento do teu passar. Trarás por isso talvez um casaco justo, escuro e comprido, para existir sob ele o teu ondeado gentil. Mas quero dizer-te que ao lembrar-te não és só tu a existires. Há a cidade solar que te envolve e eu vejo sem a ver quando vens à minha lembrança. E mais alto, como um esplendor, o eco de uma balada. E tudo isso és tu, minha querida. A tua intocável beleza, e o espaço e a melodia em que ela se inscreve.

Em tanto lugar eu poderia lembrar-te. Mas volto sempre ao começo da irradiação de ti. Há assim um pacto obscuro entre tudo o que foste até à morte e a eternidade da tua juventude. Porque é lá que tu moras, no incorruptível, no intocável do teu ser, na perfeição que um deus achou enfim perfeita quando te entregou à vida para existires por ti. Mas como seres jovem e eu conhecer-te, fora da cidade do Sol? da colina desdobrada à sua luz? do espaço de um acorde de guitarra a toda a volta no ar? É bom poder dizer-te quanto te lembro aí. E te quero. É bom não poderes dizer-me que tolice. Ou fitares-me apenas com o teu olhar severo e vivacíssimo. Ou repetires-me que eu não cresci desde a adolescência e isso ser o bom sabor de uma oculta verdade em mim, para não ser um adulto regrado e quotidiano. É bom poder dizer-te tudo e tu agora não poderes dizer nada, para esse meu tudo ser tudo. Às vezes eu pensava que tu não fazias ideia do incrível e maravilhoso de ti. Estavas dentro e o teu esplendor estava fora. Nesta casa deserta, como é bom estares aqui comigo. E falar-te. E escrever-te. E ver-te.  Voltarei ainda a amar-te? Voltará o impossível de ti quando eu o evocar? Escrever-te. E dizer-te tudo o que nunca deixaste que te dissesse e devia ser a insensatez que tu dizias. É Inverno, há já neve na serra, mas o céu está cheio de azul. Devias gostar de ver, mesmo sendo da cidade, onde o céu não existe. Devias gostar de ver, mesmo que olhasses distraída e apenas sorrisses em tolerância leve. O frio veio com a neve e a Deolinda acendeu-me a braseira logo de manhã. É um frio que nunca conheceste e eu te não sei explicar. Límpido, todo em arestas finas, qualquer coisa assim. Aqueço os pés e penso em ti. Mas é tão difícil dizer-te quanto penso nas palavras que escrevo.

No vazio da casa, ouço às vezes a tia Luísa lá para dentro. Ou a tia Joana. São vozes soltas no ar e que no ar se desvanecem. Mas um dia ouvi-te a ti perfeitamente e vim mesmo ao corredor em alvoroço. Disseste o meu nome claro e eu disse-te estou aqui. Mas não disseste mais nada e eu fiquei tenso à espera e quase sufoquei. Mas eras tu, conheço bem a tua voz, poderia reconhecê-la no vozear de uma praça pública. É uma voz breve, com um leve timbre de corda fina de guitarra e uma cor branda de lume. É uma voz serena e de uma longa melancolia que devia vir de muito antes de teres nascido. Quantas vezes a ouço, tento ouvi-la na memória apaziguada do que passou. Mas não sou capaz de ta ouvir nos momentos mais difíceis da vida, quando o que dizias suportava um peso enorme do que não dizias, como na tarde em que a Xana se foi. Ou mesmo quando me deste o aviso seguro da tua morte. Lembro-me é de quando na nossa primeira noite eu te disse que te amava e tu disseste também te amo. Hei-de lembrar-me decerto ainda de quantas outras palavras me disseste. Mas agora quero ouvir apenas essa tua palavra ardente em que toda a vida se me consumiu. E do sim gentil no pátio da Universidade e em que tudo começou. Também te amo. Sim. E é estranho como uma vida inteira se me resuma a uma palavra. Possivelmente por ser a única a dizer tudo o que valeu a pena saber. E se resuma também à tua imagem, no instantâneo do teu passar. E agora que tudo findou, penso que a perfeição do teu destino no meu seria ouvir-te ainda uma vez, de passagem, também te amo. Uma vez ainda. Ainda. Assim eu te escrevo para te demorares um pouco. Talvez voltes a dizer-mo. E eu a ti.

Voltarei a escrever-te? Para voltares a existir no que escrevo em ti. Demora-te hoje ao menos ainda um momento. Para olharmos a neve na montanha, os campos desertos, ouvirmos em nós o silêncio do mundo. Xana disse-me há tempos – qualquer dia dou aí um salto. Mas não deu. Montei um telefone para ir a algum lado sem ir e ela agora aproveita para vir também sem vir. Estás bom? estás fino? é o que importa. E desliga. Escreveu uma vez mas não adiantou mais nada. Um dia dou aí um salto, disse. E eu tenho estado à espera. E que é que ela poderia dizer-me? Os jovens dizem tudo tão cedo, querida, e ficam em silêncio tão cedo. Não é maravilhoso estar ainda contigo? E escrever-te ainda, escrever-te. Talvez. Recriar-te no imaginário a figura gentil que não mais voltarei a ver. Sandra. A tua juventude que mora na eternidade, onde para sempre me ficou. Mesmo quando já envelhecíamos e a filha cresceu e se foi. Porque eu olhava-te e o que via à transparência dos anos acumulados era essa juventude que ficara em ti e era o eterno do teu ser. Aí está agora definitivamente – como poderia eu reconhecer-te no tempo que ainda houve? É-se eterno dentro de nós. Mas a tua eternidade mora também na tua imagem, na frágil harmonia do teu corpo que conheci.

A tarde apaga-se lenta, a Deolinda deve estar a vir aquecer-me o jantar. E eu suspendo a obsessão de te dizer todo o maravilhoso de ti, antes de te imaginar a breve ruga na face e ouvir-te dizer que tolice. Não digas. Se te sentasses aqui à braseira. E se te demorasses comigo um pouco e olhássemos em silêncio a grande noite que desce. Em silêncio. Não te dizer mais nada. E tomar-te apenas a tua mão franzina na minha. E sorrires.

Paulo
in cartas a Sandra, Vergílio Ferreira

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Tão perto e tão distante


Tão perto e tão distante... 
Sinto no sol o calor do teu abraço...
Um abraço leve, solto mas apertado... que prende… que magoa... que desperta... que segura e larga no mesmo instante. 
Um olhar que atraiçoa e me faz acreditar de novo... me faz renascer das cinzas e do pó e no mesmo instante me derruba... me faz cair na lama e reabre as feridas de ontem...
Um coração que faz acreditar... que faz sonhar... que faz amar... que faz odiar... que faz chorar... 
Maldição...
Sentimentos que me sufocam... que provocam pânico... medo... alegria… tristeza... dor... amor...
Maldição...
Olho por momentos para dentro de mim... revejo todos estes sentimentos... Olho de novo e... 
Voltei a amar...

Xaninha Silva



sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Os nossos lábios já se tocaram antes


Gosto de tudo em ti. Dos teus defeitos. Das rugas de expressão com que os anos te marcaram. Das entradas, do cabelo já grisalho. Da barriga que escondes debaixo da camisa. Das olheiras que dizem do cansaço dos dias. Gosto da tua voz, meu Deus, a tua voz. A tua voz é serena, é grave, é séria, envolve-me, preenche-me, bebo de ti. Da autoridade máscula com que me repreendes. E o teu olhar, o teu olhar é tão distante. Não és transparente, és estranho e escondes tanto que não te percebo, tudo baço. Não te percebo, tudo baço. Gosto dos teus ombros, dos teus braços e das tuas mãos. Gosto da tua mímica, cada gesto. Gosto do teu nariz, das tuas sobrancelhas definidas, do teu perfil. Gosto do desenho perfeito dos teus lábios quase femininos. Gosto dos teus tiques, já os decorei. Gosto da tua dicção, das nuances de regionalismo nas tuas palavras, dessa postura de quem está sempre de partida. Gosto que sejas mais velho, homem, firme. Gosto que fales comigo, de ver o teu nome no ecrã do telemóvel, diz-me que queres falar comigo. Gosto de tudo em ti. De cada fracção de segundo. De cada instante em que existes no meu mundo. Das portas que me abres para o teu. Gosto de como me fazes sentir quando se cruzam os olhares que evitamos. Arde tudo cá dentro, o peito cheio de tantos desejos, um baque tão forte. Eu viva, tu a precisar de vida.

Convida-me para jantar. Eu vou. Falamos, rimos, bebemos, confessamos pecados. Contamos histórias que tragam à superfície o pior de cada um. Os olhares cruzam-se, intensificam-se. Não me resistes, eu não te resisto. Achas-me o máximo, eu admiro-te. A cumplicidade aumenta, pegas na minha mão. Puxas-me para ti, num abraço em que te digo que te quero. Queres-me. E quando eu olhar para cima e vir o teu rosto tão perto do meu, tão próximas as expressões, tão diminuto o espaço que separa os nossos corpos, as nossas bocas, os nossos lábios já se tocaram antes que a razão me travasse. E eu vou querer que não acabe o momento. Porque gosto de tudo em ti.

Menina Lamparina

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

o mar é um planeta inconfessável


eu chorei primeiro. chorei um corpo inteiro.

depois o teu abraço o teu soluço o teu medo inteiro. depois a despedida. não sei se dissemos alguma coisa. não sei se disse: o céu não é dos pássaros, o teu corpo desafia a voar, sinto o sol sempre que o teu olhar ousa riscar o meu olhar. não sei se sorriste.

eu chorei primeiro.  eu chorei primeiro cada dia sem ti.

é sempre mais difícil do que parece, é sempre mais difícil do que quando treinamos e só vemos as lágrimas longínquas do espelho   não molham   as mãos tremem menos

é sempre mais difícil porque os finais têm a tua cara e não têm música e alguém se esqueceu de fazer um filme sobre nós em que eu à chuva atiro versos e flores comovidas  à tua varanda comovida e tu corres descalça pele colada ao vestido e os meus braços. alguém se esqueceu e nem músicas nem poetas tristes amanhecerão, só esta carta, que não há finais felizes que os finais são territórios para a distância para súplicas tardias para suicídios de improviso em olhares cheios de nada lugares onde não se deve regressar

e ainda que quisesse não saberia regressar à tua carne vidro na memória

e ainda que quisesse não saberia regressar ao azul às estações de framboesa aos barcos despidos de língua  às noites que não precisam de tradução


o mar é um planeta inconfessável que se deixa despir e tocar


tu és um planeta inconfessável que se deixa despir e tocar  
e enquanto o Porto me olha amadurecem tempestades nas esquinas o silêncio despede-se de plutão os cinzeiros ficam misteriosamente vazios

e nos hospitais de cinza de Eugénio as primeiras luzes das colinas amam pequenos poemas pequenas cartas como esta pequenos nadas

e neste momento a claridade toca todos os espanta-espíritos do mundo

e neste momento o meu telemóvel toca e a solidão é apenas  uma promessa que se apaga na promessa de outros corpos de outros incêndios de outros naufrágios de luz projectada noutras camas

e estou deitado e o cigarro estende-me passadeiras de fumo. finalmente sinto que tenho idade suficiente para fugir do mundo. e ainda assim não fujo. velo-te.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Saudades: já chorei em aeroportos ao deixar quem não queria ver partir


Estou no autocarro a caminho de casa dos meus pais. Até aqui apanhei um taxi, um metro, um comboio, um avião, outro taxi e agora este autocarro. Numa das paragens vejo um filho ser recebido com gritos pela família, o pai a esfregar-lhe a barriga, o irmão a gargalhar e a mãe com os braços muito abertos. Sei imediatamente que ele vem de longe, como eu, de uma distância que não se pode atravessar sempre que se quer, uma distância que nos impede de pertencer à rotina.

Lembro a minha primeira grande despedida, há quase 4 anos. No aeroporto, entre família e amigos, aguentei com um nó na garganta as lágrimas alheias e percebi que a felicidade está directamente ligada ao amor destas pessoas que a vida fez o favor de colocar ao meu lado, pessoas que me amam e ao mesmo tempo compreendem que tenho de ir.

Desde então já vivi muitos reencontros e muitas despedidas, já chorei em aeroportos ao deixar quem não queria ver partir, já fui só abraços e alegria, e já vivi a solidão de chegar a sítios onde ninguém me espera. Enquanto eu transito, estas pessoas aguardam na repetição dos dias que a minha chegada os torne um bocadinho mais cheios.

A caminho, penso no conforto estrutural e inabalável do quotidiano, que a minha ausência não faz colapsar. Um sítio-amor a que posso voltar sempre, e onde sinto que nunca fui embora. Estou constantemente em dívida, de arma em riste contra a ausência, e ainda assim falho, porque não consigo melhor.

Chego pelo mesmo caminho de sempre, de que conheço todas as curvas e cruzamentos. Adivinho o sorriso e o abraço apertado, abraço por todos os abraços que ficaram por dar hoje, esta semana, este mês. Antecipo o cheiro a jantar, o ruído da televisão na sala, os desenhos da toalha na mesa. Sei de cor como será a minha chegada, de tantas vezes que a vivi. Sei-a tão bem que me parece sempre a mesma, uma eterna chegada a uns braços abertos.

A saudade, que só se tem em ausência, é ainda assim um saco que nunca se esvazia, mesmo quando estamos juntos todos os dias, porque são dias contados. Nunca poderei devolver a quem amo os dias que lhes retirei. Posso só tentar que os que partilhamos sejam grandes. Posso só ser mais amor, tentar ser menos falha, e pedir com a humildade da minha pequenez que a vida me permita dar-lhes muito mais.


Sónia Balacó

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Retrato de M


– eu escrevo poemas que se podem fumar

– não és o que eu procuro

– sou o alto mar

e vejo o tempo começar na sombra de uma janela que se abre na fotografia em que estás tu o Borges o Cortázar  Rua Florida Richmond ao fundo e em que te estou a dizer sou o alto mar e

– posso não ser o que tu procuras

– eu nunca soube chorar, por isso espero a chuva

– a chuva não é deste planeta, não me deves esperar

 que não regresso ao quarto feito de regressos a que regresso sempre, sexto andar,  livros com poemas a fazer de cabeceira, poemas no chão a fazer de chão e a anunciar a chuva que  sempre se demora por vir de longe, e nós bem longe também da Rua Florida onde nunca chovia e se chovia não era chuva e se era chuva não nos podia tocar

– tu existes ainda que eu precise de te inventar

– tu já me inventaste agora não existo

e não durmo embora continue a comer e não durmo e sobretudo bebo até as noites mais inteiras e vejo-te mesmo quando não te vejo e bebo para que me fales ao ouvido coisas que eu não consigo perceber e não foste a única porque houve outras mas foste a única que ainda te vejo até em certas palavras que são partes do teu corpo que eu não consigo tirar de mim

– estou aqui

e estás aqui mas já não sei pronunciar o teu nome
só a primeira inicial que se repete uns passos mais à frente como se a terra fosse toda mar e o mar fosse todo eu

e sinto frio e espero que o frio se esqueça de mim e abro de novo a janela da fotografia que não me reconhece e toco a chuva que veio de longe e não é deste planeta com a ponta dos dedos desço por ela e abro totalmente esta janela que não me reconhece e a chuva traz-me à cama onde ainda dormes entre os meus papéis confusos e não isto não são lágrimas embora o sal

– nos teus olhos vejo coisas que só existem nos teus olhos

– demoraste ou quiseste fazer-me esperar

– eu não sou quem se deva esperar

– provavelmente vou esperar-te até depois da morte

– a morte é só um outro tempo, um outro modo de dizer as coisas

e eu não sou quem se deva esperar, que me acabo antes à porta de um prostíbulo, Paris ou Buenos Aires, como um poeta deve acabar

– nunca te disse mas acho que não te posso deixar, detesto demasiado a tua poesia

– tu detestas toda a poesia

– na verdade não detesto toda a poesia, só tenho medo

– na verdade eu não faço bem poesia, só quando te escrevo ou te ponho nua

– já não fumo, escreve-me poemas que me possam matar

segunda-feira, 11 de junho de 2012

morreste-me

As paredes voltaram a separar o inverno nocturno, permanente da casa e o ciclo alternado dos dias e do mundo, alheio a nós, para lá de nós. Comigo, a casa estava mais vazia. O frio entrava e, dentro de mim, solidificava. As várias sombras da sombra de mim, imóveis, passeavam-se de corpo para corpo, porque todos eles, todos meus, eram igualmente negros e frios. E abri a janela. Muito longe do luto do meu sentir, do meu ser, ser mesmo, o sol-pôr a estender-se na aurora breve solene da nossa casa fechada, pai. E pensei não poderiam os homens morrer como morrem os dias? assim, com pássaros a cantar sem sobressaltos e a claridade líquida vítrea em tudo e o fresco suave fresco, a brisa leve a tremer as folhas pequenas das árvores, o mundo inerte ou a mover-se calmo e o silêncio a crescer natural natural, o silêncio esperado, finalmente justo, finalmente digno. Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.


José Luís Peixoto
in morreste-me

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Agora estou dentro de ti, agora também sou tu


Contigo tenho amores havaianos em que danças para mim o ukelele nas noites de lua cheia, com soalhas nos quadris e nos tornozelos, imitando Dorothy Lamour.
E amores astecas, em que te sacrifico a deuses acobreados e ávidos, serpentinos e emplumados, no cimo de uma pirâmide de pedras ferruginosas, em torno da qual pulula a selva impenetrável.
Amores esquimós, em frios iglôs iluminados com archotes de gordura de baleia, e noruegueses, em que nos amamos enganchados sobre o esqui, despenhando-nos a cem quilómetros por hora pelas faldas de uma montanha branca erupcionada de tótemes com inscrições rúnicas.
A minha presunção desta noite, amada, é modernista, carniceira, africana.
Despir-te-ás diante do espelho, conservando as meias pretas e as ligas vermelhas, e esconderás a tua formosa cabeça debaixo da máscara de fera feroz, de preferência o tigre no cio de Ruben Darío de Azul..., ou uma leoa sudanesa.
Requebrarás a anca direita, flectirás a perna esquerda, apoiarás a mão na anca oposta, na pose mais selvagem e provocante.
Sentadinho na minha cadeira, amarrado ao espaldar, eu ficarei a olhar-te e a admirar-te, com o meu costumado servilismo.
Sem mexer nem uma pestana, sem gritar me ficarei, enquanto me cravas as tuas garras nos olhos e os teus brancos colmilhos me estraçalham a garganta e devoras a minha carne e sacias a tua sede com o meu sangue apaixonado.

Agora estou dentro de ti, agora também sou tu, amada recheada de mim.


Mario Vargas Llosa
 in Os Cadernos de Dom Rigoberto, pp. 207-208

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Quero-te


Ouço a chuva a bater na minha janela, mas nem consigo levantar os olhos para a ver... Tenho frio, mas não tenho como me aquecer... Tenho sede, mas não me apetece beber... Cubro-me com as lembranças de um passado que pesou... Sacio a minha sede com a esperança de que tudo passe...

Tenho vontade de ir em frente... seguir o teu caminho... subir a tua montanha... dobrar cada esquina da tua rua... e no fim encontrar-te... Correr de braços abertos para ti e no fim... abraçar-te como se o amanhã não existisse, como se só existíssemos nós dois... como se nada me separasse de ti...

Perder-me no teu olhar e nunca mais de lá sair... abraçar-te e nunca mais te largar...

Mas não é assim tão simples... muitas barreiras fortes e inquebráveis nos separam...  


Xaninha Silva

quarta-feira, 9 de maio de 2012

o mar quebrou-se


há portas que tens que abrir para eu saber entrar

perguntas-me: onde estão as estações?

dizes que o verão pôs o chapéu e vestiu o fato do inverno, que a primavera se escreve com minúscula porque inexistentes a cerejas desaparecidas as andorinhas, que precisas dos raios de sol que por vezes te envio por entre os lagos que se formam no ar entre as gotas de chuva que insistem em se despedir do céu

onde estão as estações, perguntas-me?

não sei se este é o raio de sol que precisas, mas estou a escrever esta carta para ti e esta carta não tem medo e não foge de ansiedade e diz que há um caminho para ti, um caminho feito de eternidades, séculos de incêndios, fios invisíveis por tecer

o teu sorriso acende estrelas, sabias?

e hoje senti falta do teu sorriso que acende estrelas e do teu olhar e de certas palavras inventadas e gostava tanto de sentir a tua respiração embaciar o vidro da janela quebrar o mar para poder dizer-te:

o mar quebrou-se na janela mais impossível do mundo, o mar quebrou-se

e dizer-te:
alimento-me das palavras que me inspiras de cometas delicados de flores despenhadas onde tudo é potência céu alto

e:
adoro os lugares fantásticos que descubro no teu sorriso mais o exacto instante que antecede o teu sorriso, aquele em que ele começa a nascer e se deixa adivinhar mais a tua clavícula despida

não acreditas?

conheço a geografia do teu riso a transparência do teu grito interior nos dias imperfeitos e não tenho medo, nem da roupa a queimar a pele  turbulência que precede a felicidade

existes. existes. existes. não há maior excesso.

atravessei séculos de incêndios e hoje sonho contigo e não tenho medo

atravessei séculos de incêndios e hoje sonho contigo e não tenho medo de te ver chegar.

encontramo-nos em Paris. um só segundo de perfeição. um adeus eterno à chuva.a cura.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Pele


Todo o corpo em estado de alerta quando sente o toque dele. Como uma emergência. Como se a chamasse. Inevitável.

Tudo vibra quando o som que sai daquela boca é captado pela audição dela, que parece mais apurada. Como se o ruído à sua volta desaparecesse. Como se o mundo parasse. Asfixiante.
Na vida que vivem, não se podem conhecer. Não se podem tocar nem sentir o cheiro um do outro. Porque a vida nem sempre é como queremos, não é? Dizem que sim. O que eles não sabem é que eu sei que há lugares secretos, recantos escondidos, espaços invisíveis. Há sítios de que mais ninguém sabe e que podem descobrir juntos. E quando cederem, quando viverem para lá da vida que vivem, quando se deixarem conduzir pelos sentidos e se perderem na pele um do outro, quando ela sentir o cheiro dele, quando ele acariciar os cabelos dela, quando entrelaçarem os dedos e se conseguirem olhar nos olhos, quando se despirem do que são lá fora, quando sorrirem juntos, quando se abraçarem, quando se beijarem, quando ela adormecer com a cabeça no peito dele, quando doer a partida, então viveram.

Menina Lamparina

quarta-feira, 2 de maio de 2012

One last cigarette, and I'm gone*


Dizias-me, sempre que te escrevia, que as coisas que desejamos tarde ou nunca as conseguimos.

Dizias-me, sempre que te escrevia, que não sabias se a minha alma te pertencia mais do que te pertenciam as minhas palavras, que teimava em te escrever num pedaço de folha qualquer, num talão de supermercado, num ticket para aguardar a vez, a minha vez, num bilhete de teatro.

E dizias, sempre que te escrevia, que o amor não se devia servir das palavras, que morrem jovens, quando são ditas da boca para fora ou escritas num pedaço de papel qualquer.

Que ridículo! Dizia-te eu quando nunca me escrevias.

Os amores são ultimatos, preces vitais para a urgência de viver, para o sentido de morrer. Mas nunca será: o amor ou a vida!

Por isso devíamos poder escrever Amo-te na pele como no papel. Dizia-te eu. Quando nunca me escrevias.

Gostava de poder dizer que te dei ouvidos. Mas insisto que também se pode amar quando se escreve. E amei-te melhor quando escrevi. E tu, tu tiveste-me melhor, quando escrevia!

Ouve: só por palavras se pode ser em tudo quanto se amou. Dizia-te eu quando não te escrevi. Nunca mais.

Ali reconstruímos vezes sem conta essa dança primitiva entre o sim e o não.

Agora já não há o arrepio por não ter corpo que os dedos irresponsáveis pudessem descobrir, e que foi solidão por já não haver!

Que já não é.

Aqui. Agora.

Há ausências que são felicidades!

Agora já só tenho memórias ridículas de coisas que pelos vistos foram feitas para ser ridículas. Ou muito ridículas. Como as palavras com que se prostitui o papel que se gasta em cartas. Qualquer pedaço de papel.

Esqueci a tua voz: segredo asilado em fendas que me esqueci de fechar.

O segredo já não é nada. Agora.

As palavras não eram nada? Ignoro o que isso seja, ser nada. Palavras que são nada. Palavras que não devem?

 Só as que nunca te consegui dizer podiam ter sido tudo. Agora. E que nunca mais te escrevi.

Se te encontrasse hoje não me lembraria da tua face. E já tinha esquecido a tua voz. Apercebi-me por fim que o esquecimento não é nenhuma ferida.

Só lamento ter-me apaixonado por caminhos por onde não fui. Mas agora sou outras coisas. Também sou outras coisas.

E foi assim a brincar que partimos o coração, que perdeu peças e agora não quer funcionar. E à força de não funcionar, se não se consertam pessoas, não podíamos ser pequeninos para sempre? Que loucura!

E não há sempre alguma razão na loucura?

Foram beijos aliterados as Palavras escritas num pedaço de papel qualquer. Agora.

Poema verdadeiro, que atravesse muros, de alto risco, é ser para sempre. Loucura.

Além-palavra é só e apenas um novo começo.


Outro algum.


Maria Supertramp


*anteriormente sob o título ´o amor não se devia servir das palavras`