segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Última Carta


Última Carta 
(ao marianalcoforismo português, francês ou o que for) 


   Considera, meu amor, a que ponto chegou a minha imprevidência. De te falar por este meio, ínvio porque escrito, ímpio porque público. Mas como calar o que se me espalha por este peito às paixões dado e me tolhe os braços aos teus abraços afeitos? 
   Muitas águas passaram sem que eu domasse a sede de ti que mora em mim, caprichoso hóspede, que ora me devora as vontades depondo-me nos cantos de concentração da saudade, ora me alça pelo sangue um alvoroço de cavalos desabridos em desgoverno. E que trabalhos, amor, para os amansar! Que  desassossegadas horas-dias de Junho, não um qualquer, mas como aquele em que te vi primeiro. Lembras-te? Havia tanta gente à nossa volta, faunos e sátiros me requestando, e já os meus olhos nos teus estavam postos. Ao de leve feito voo de andorinha. Certeira e subitamente como um tiro. E como voavam certeiras as primeiras palavras que me atiraste! «Gosta de poesia?». Mergulhei na luz dos teus olhos, um jorro irisado fluiu dos teus ombros ao ventre sul. Que olhos eram estes meus, assim tão sujeitos à tua chegada? Ai, amor, como tudo o que foi feito de nós, afinal estava nesse instante! É sabido quão cegos são os que crêem, mesmo vendo. Não menos verdade será que isto sabe quem não acreditou porque nunca viu e nunca cegou. Então, como ponderar no fátuo dum fogo as penas que carregam as palavras, ainda que aladas e não ceder à urgência de ir, ir, ir por um primeiro olhar, sem pear os gestos de suspeita e outras cobardias, se mal vemos para além de aparências de aparências de aparências?
  Foi mais tarde, nos silêncios com que resolvias a tua confessada incompetência para as palavras de amor, afinal tão banalmente masculina, persistente demais para poder ser voluntária e chegar à fala das mulheres, sempre prontas a emudecer o que lhes dói, o que preferem a mover as figuras das bem-amadas em seus altares assentadas. Já imaginaste, o que seria chumbar a vermelho-mênstruo o esplêndido sorriso da Dama do Arminho que não vimos em Cracóvia? E desalinhar ondados  fios de ouro reluzente e a uns olhos brandos e piedosos arregalar? Blasfémia de lesa-sacrossanta-memória da humanidade. Da homenidade. As reservas de condescendência aos artifícios da ficção são inesgotáveis, só ultrapassadas pela fêmea abulia, o outro nome da apatia. Mulher e mula, que a tenhas amansada. Imagina, tu, o desvario que seria se escoiceasse, mula e mulher, juntas ou uma-a-uma a assestar em cheio nas partes do mundo (aquelas que não sabias como traduzir para a tua língua, tão séria...). Bastaria bem menos. Que perneasse, aqui e além, contra quem, com quem e somente se lhe aprouvesse, num pernear variante,  allegro vivace, moderato... duradouro à sua maneira. Seria puro desconcerto, não admira que ninguém  queira imaginá-lo.
   Bem sei que desaprovarás estas palavras, em que sempre achaste aguerridos despropósitos. Mas ao menos para isso servem as cartas, para desafogarmos a alma, quando o corpo não pode ser mais que desafogado. Dizia-te eu que foi mais tarde que soube que aquele teu dizer-chave «Gosta de poesia?» não passou de destreza de bolso de don juan em farejo de indícios de flagrantes de leito, afiaste a vista que te pousou no título do livro que eu acabara de escolher. Que a tua afoiteza foi antes de mais um catalisador da adrenalina de que precisavas para a tua conferência, que entretanto anunciaram. E eu naquele transe de pastorinho de Fátima, donde vens tu, voz do céu, que novas me trazes? Arrebata estas mãos vazias, enche-as de ti todo, entra neste corpo desabitado, aquece-o, conhece-o, enlouquece-o, cobre-o de palavras, não das ditas ou esperadas, mas das inventadas, agora, amanhã e depois, abre-me o barco do teu corpo, leva-me àquele cais-Tudo, donde parti antes de mim, muito antes de nós, leva-me, leva-me, que navegar é preciso...
   Vês, amor, porque mais tarde os meus olhos acolhiam sombras do desapontamento que te apressavas a nomear com uma pergunta mínima: «Que tens?» E assim ias por mim fora como pelo mundo, dizendo meramente o que achavas necessário, tudo o resto rotulando de perda de tempo, coisas de poetas e de... mulheres. Ah! Não sabias que cordas desafinavas dentro de mim. E o pior, nem querias saber. Coisas de mulheres!
   Pois era então que eu ouvia os primeiros rangeres de barca a soçobrar, avisos de trama que breve se esgarçou. Se te conheço - e talvez sim, porque tentei - para ti estes não são fundamentos nem suficientes nem claros para a minha decisão. Percorrerás os nichos onde se acoitam memórias do silêncio e das frases curtas que trocámos, procederás aos seus inventários e categorizações, análises e comparações, de preferência por escrito, que é mais fiável, enfim, esgotarás preciosas energias a descodificar racionalmente aquilo que consideras coisas de mulheres... porque para ti Quod non est in actis, non est in vita. 
  Bom, sabes, amor, na verdade, terás alguma razão, porque o tempo muitos outros descaminhos traçou entre nós e o silêncio, assim segregando a decretação da sua  infalível lei de destinar tudo a quase nada. 
   É nesse quase-nada-muito que guardo o que tenho para te dizer, mesmo estatelando-me no consabido ridículo das cartas de amor, ainda para mais esta, dirigida a destinatário de paradeiro para mim incerto, que nem te sei se na vida se na morte. Que me redima o querer encontrar a parte que de mim levaste, meu cavaleiro andante.
   Adeus. Não posso separar-me deste papel que nem irá ter às tuas mãos. Quem mas dera! Mas sei bem que isso não é possível. Porque não posso fugir de mim.

Maria Ripichi, Julho de 2000

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Cartas Portuguesas - Primeira Carta


Considera, meu amor, até que ponto foste imprevidente! Oh!, infeliz, que foste enganado e a mim enganaste também com esperanças ilusórias. Uma paixão sobre a qual tinhas feito tantos projectos de prazeres não te causa agora mais do que um mortal desespero, só comparável à crueldade da ausência que o provoca. E esta ausência, para a qual a minha dor, por mais que se esforce, não consegue encontrar um nome assaz funesto, há-de então privar-me para sempre de fitar esses olhos onde eu via tanto amor, esses olhos que me faziam saborear emoções que me cumulavam de alegria, que eram o meu tudo, a ponto que deles só precisava de viver?
Ai de mim! Os meus encontram-se privados da única luz que os animava e só lhes restam as lágrimas; não os tenho usado senão para chorar incessantemente desde que soube que estavas decidido a um afastamento que não posso suportar e me fará morrer em pouco tempo.
Parece-me, contudo, que chego até a prezar as desgraças de que és a única causa: dediquei-te a minha vida assim que te vi e sinto algum prazer sacrificando-a a ti.
Mil vezes ao dia dirijo para ti os meus suspiros: eles procuram-te em toda a parte e, como recompensa de tantas inquietações, apenas me trazem o aviso demasiado sincero da minha triste sorte, que tem a crueldade de não suportar que eu me iluda e que a cada passo me diz: basta!, basta!, infeliz Mariana, basta de te consumires em vão e de procurares um amante que nunca mais voltarás a ver; um amante que atravessou o mar para fugir de ti, que está na França no meio dos prazeres e nem por um momento pensa nas tuas dores; um amante que te dispensa de todos esses transportes, que nem sequer te agradece.
Mas não!, não posso resignar-me a fazer-te a injúria de pensar assim e tenho demasiado interesse em te justificar. De modo nenhum quero imaginar que me tenhas esquecido. Não sou eu já suficientemente infeliz, mesmo sem me atormentar com falsas suspeitas? E por que razão havia de me esforçar por esquecer todos os desvelos que puseste em me testemunhar amor? Tão encantada fiquei com tais desvelos que bem
ingrata seria se não te amasse com o mesmo arrebatamento que a minha paixão me dava, quando me era dado gozar os testemunhos da tua.
Como podem ter-se tornado tão cruéis  as lembranças de momentos tão agradáveis? E será que, contra a sua natureza, não devam essas lembranças servir senão para tiranizar o meu coração? Ai de
mim! A tua última carta deixou-o num lamentoso estado! Tão sensíveis foram as suas palpitações que até parecia fazer esforços por se separar de mim e ir ao teu encontro! Todas estas emoções tão violentas me acabrunharam a tal ponto que, por espaço de mais de três horas, fiquei desfalecida!
Proibia a mim própria regressar a uma vida que devo perder por ti, já que para ti a não posso conservar. Finalmente, e mau grado meu, voltei a ver a luz, e comprazia-me ao sentir que morria de amor. Estava, aliás, bem contente por já não ter de ver o meu coração despedaçado pela dor da tua ausência.
Depois destes acidentes, sofri muitas e variadas indisposições. Mas poderei eu alguma vez viver sem males, enquanto não voltar a verte? Suporto-os, contudo, sem murmurar, porque me vêm de ti. Será essa a recompensa que me dás por haver-te amado tão ternamente?
Mas não importa! Estou decidida a adorar-te durante toda a vida e a não ter olhos para mais ninguém. E asseguro-te que também tu farás bem em não amar mais ninguém. Poderias, acaso, contentar-te com uma paixão menos ardente do que a minha? Encontrarás, talvez, maior beleza (e, no entanto, disseste-me outrora que não me faltava beleza), mas não encontrarás jamais amor tamanho – e o resto não conta.
Deixa de encher as tuas cartas com coisas inúteis e nunca mais me escrevas a dizer que me lembre de ti. Eu não te posso esquecer, como também não esqueço que me deste esperanças de vir passar algum tempo comigo. Ai de mim! Por que não queres ficar comigo a vida inteira?
Se me fosse possível sair deste malfadado claustro, não esperaria em Portugal que se cumprissem as tuas promessas: iria eu, sem qualquer inibição, procurar-te, seguir-te e amar-te por toda a parte. Não ouso iludir-me de que isso possa acontecer e não quero alimentar uma esperança que me daria, é certo, algum prazer. Agora já só desejo ser sensível às minhas dores.
Confesso, no entanto, que a oportunidade que o meu irmão me proporcionou de te escrever me trouxe alguns momentos de alegria e suspendeu por instantes o desespero em que me encontro.
Conjuro-te a que me digas porque é que te empenhaste em me encantar como fizeste, se já sabias que me havias de abandonar? Porque é que puseste tanto empenho em me tornar infeliz? Porque não me deixaste em paz no meu convento? Tinha-te feito algum mal?
Perdoa-me! Eu não te culpo de nada! Não estou em condições de pensar na minha vingança e só acuso a dureza da minha sorte. Parece-me que, ao separar-nos, ela nos fez todo o mal que tínhamos a temer: os nossos corações não os podia ela separar! O amor, mais poderoso do que ela, uniu-os para toda a vida!
Se tens algum interesse pela minha, escreve-me muitas vezes. Bem mereço que te dês ao cuidado de me informar sobre o estado do teu coração e da tua vida. Peço-te, sobretudo, que me venhas ver! Adeus! Não posso largar este papel! Ele cairá nas tuas mãos: bem quisera eu ter a mesma sorte! Ai de mim! Louca que sou! Bem me dou conta de que isso não é possível!

Adeus! Não posso mais! Adeus! Ama-me sempre e faze-me sofrer ainda maiores males.

Soror Mariana Alcoforado
in Cartas Portuguesas, Soror Mariana Alcoforado

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

E isto que escrevo a medo sou eu a chamar por ti

A chuva cai com força lá fora, a hora de jantar vai lá longe, tudo o que se ouve aqui é esta música que por um milagre qualquer nos juntou num inverno estranhamente frio para os dois. E isto que escrevo a medo sou eu a chamar por ti, na sala vazia; a achar que já não sou talhada para tanta escuridão, tudo porque me resgataste de uma tristeza infligida à qual eu nunca soube fugir, e que agora renego e afasto e não sei aceitar. Isto sou eu a recordar certos momentos – e porque não sei dizer amor – só cantá-lo ou então chorá-lo, relembro os beijos ao canto da boca, os abraços apertados e o entusiasmo infantil das nossas gargalhadas. Quando cá não estás, em noites assim, imagino-te a dizeres a nossa casa. Eu a fazer de conta e tu, vezes sem conta, a repetires até eu ouvir - a nossa casa. Até que finalmente eu acredite, quando já não restarem mais dúvidas ou fantasmas; nós juntos a flutuar dentro de um sonho. Isto sou eu a fazer perguntas proibidas, a admitir que não sei lidar com o bem que me fazes, e o tanto que me apetece pedir desculpa por ser insegura. Mas aproximas-te sem sequer me dares tempo para pensar ou correr. E eu a olhar para ti assim, a pensar que queria conhecer-te desde sempre, saber das tuas histórias e aventuras, ao pormenor. E depois fingir-me um bocadinho chocada só para te sentir mais perto, com os teus braços a envolverem-me, a conseguir adormecer na certeza profunda de ser feliz contigo. Nessas alturas, não fosse a falta de jeito, podia confessar-te o momento exacto em que me apaixonei por ti.

Vanessa