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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Os nossos lábios já se tocaram antes


Gosto de tudo em ti. Dos teus defeitos. Das rugas de expressão com que os anos te marcaram. Das entradas, do cabelo já grisalho. Da barriga que escondes debaixo da camisa. Das olheiras que dizem do cansaço dos dias. Gosto da tua voz, meu Deus, a tua voz. A tua voz é serena, é grave, é séria, envolve-me, preenche-me, bebo de ti. Da autoridade máscula com que me repreendes. E o teu olhar, o teu olhar é tão distante. Não és transparente, és estranho e escondes tanto que não te percebo, tudo baço. Não te percebo, tudo baço. Gosto dos teus ombros, dos teus braços e das tuas mãos. Gosto da tua mímica, cada gesto. Gosto do teu nariz, das tuas sobrancelhas definidas, do teu perfil. Gosto do desenho perfeito dos teus lábios quase femininos. Gosto dos teus tiques, já os decorei. Gosto da tua dicção, das nuances de regionalismo nas tuas palavras, dessa postura de quem está sempre de partida. Gosto que sejas mais velho, homem, firme. Gosto que fales comigo, de ver o teu nome no ecrã do telemóvel, diz-me que queres falar comigo. Gosto de tudo em ti. De cada fracção de segundo. De cada instante em que existes no meu mundo. Das portas que me abres para o teu. Gosto de como me fazes sentir quando se cruzam os olhares que evitamos. Arde tudo cá dentro, o peito cheio de tantos desejos, um baque tão forte. Eu viva, tu a precisar de vida.

Convida-me para jantar. Eu vou. Falamos, rimos, bebemos, confessamos pecados. Contamos histórias que tragam à superfície o pior de cada um. Os olhares cruzam-se, intensificam-se. Não me resistes, eu não te resisto. Achas-me o máximo, eu admiro-te. A cumplicidade aumenta, pegas na minha mão. Puxas-me para ti, num abraço em que te digo que te quero. Queres-me. E quando eu olhar para cima e vir o teu rosto tão perto do meu, tão próximas as expressões, tão diminuto o espaço que separa os nossos corpos, as nossas bocas, os nossos lábios já se tocaram antes que a razão me travasse. E eu vou querer que não acabe o momento. Porque gosto de tudo em ti.

Menina Lamparina

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Pele


Todo o corpo em estado de alerta quando sente o toque dele. Como uma emergência. Como se a chamasse. Inevitável.

Tudo vibra quando o som que sai daquela boca é captado pela audição dela, que parece mais apurada. Como se o ruído à sua volta desaparecesse. Como se o mundo parasse. Asfixiante.
Na vida que vivem, não se podem conhecer. Não se podem tocar nem sentir o cheiro um do outro. Porque a vida nem sempre é como queremos, não é? Dizem que sim. O que eles não sabem é que eu sei que há lugares secretos, recantos escondidos, espaços invisíveis. Há sítios de que mais ninguém sabe e que podem descobrir juntos. E quando cederem, quando viverem para lá da vida que vivem, quando se deixarem conduzir pelos sentidos e se perderem na pele um do outro, quando ela sentir o cheiro dele, quando ele acariciar os cabelos dela, quando entrelaçarem os dedos e se conseguirem olhar nos olhos, quando se despirem do que são lá fora, quando sorrirem juntos, quando se abraçarem, quando se beijarem, quando ela adormecer com a cabeça no peito dele, quando doer a partida, então viveram.

Menina Lamparina