terça-feira, 21 de outubro de 2014

Carta para mim

Dos anos de Caetano guardo a pessoa que não voltarei a ser.
Como é longe voltar atrás...
O que sou, carrego comigo
e são coisas que nada podem em certos dias


É outono. apetecem os corpos os copos e os contos. 
mas já não há outono como era. 
Os frutos amadureceram com a vida e o voo das aves é saudade.

é justo, ao dormir do sol, que a seda da pele busque outros calores, que há calores que sabem a mar sabem a tudo o que foram.
os que eu procuro são futuro.

Gosto de abraços, gosto tanto de abraços!
Complexos sinais, perfeitos.
E sorrisos!
devo beijos e nuvens onde os guardarem
devo chãos e sangue, devo palavras
devo os pés descalços que pisam a orla branca
devo olhares 
e queria poder tudo amanhã!

Quero quase sempre mais do que o que posso querer
Devo quase sempre mais do que o que dou
Mas quero poder tudo um dia.

Todos os dias grata pelos abraços, pelos sorrisos
calor dos calores da minha vida,
Um dia poderei
Ser completamente agradecida.

A folha caída no outono voltará a ser flor na primavera.

Maria Supertramp

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Carta (Esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um encontro contigo, num sítio em que ambos nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma das ocorrências da vida venha interferir no que temos para nos dizer. Muitas vezes me lembrei de que esse sítio podia ser, até, um lugar sem nada de especial, como um canto de café, em frente de um espelho que poderia servir de pretexto para reflectir a alma, a impressão da tarde, o último estertor do dia antes de nos despedirmos, quando é preciso encontrar uma fórmula que disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É que o amor nem sempre é uma palavra de uso, aquela que permite a passagem à comunicação mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale, de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio ser, como se uma troca de almas fosse possível neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde, isto é, a porta tinha-se fechado até outro dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que é também a mais absurda, de um sentimento; e, por trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que o vento poderá soprar de norte, como se fosse daí que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas, que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Carta a Alice #14

É coisa rara, chegar a casa antes dele [do teu pai], mas quando acontece é um sorriso que se abre na minha face. Sorrio, enquanto estaciono, na expectativa de estar quando ele chega, quando a porta se abre. Todos os gestos mecânicos do caminho a sorrir: a caixa de correio [contas], os dois lanços de escada [às escuras], a chave na porta [o barulho do trinco].

E com o barulho do clique da porta há um clique no coração.  E o sorriso desaparece.

Há um silêncio diferente na nossa casa desde que chegaste e não ficaste. Um silêncio inesperado, ensurdecedor.

Chegar a casa e sentir o vazio.  O teu nome, lá ao fundo.

Perceber que o vazio não é verdadeiro demora uns segundos. Os segundos em que a porta de entrada fica para trás,  em que respiro fundo, fecho os olhos e tudo faz sentido [sem sentido nenhum].

E agradeço. Agradeço por aquele silêncio que me corrói ferozmente, mas que faz parte de nós, porque és tu.

Ana


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Carta para Josefa, minha avó

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.

Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com  isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.

José Saramago

quinta-feira, 12 de junho de 2014

carta da insónia

sei que vou morrer. sei que vou morrer contra o mundo. sei que a matemática será sempre matemática. números disfarçados de gente. 

vejo o tempo que não passa passar. não estamos juntos por um qualquer erro do mundo. o mundo gosta de errar subitamente. estúpido. quase sempre há uma música que não sabe o que dizer. nem no intervalo. o coração não devia parar tantas vezes. 

palavras escritas em paredes que só deviam servir para coisas úteis. solidão e outros ofícios. homens que se podem amar muito. cidades. rios. o galopar de um pássaro. números disfarçados de gente. bombas-relógio. coisas definitivas. inclinações. ontem. coisas de que se pode gostar para além do possível. saudades minhas. para te dizer boa noite. um ponto de exclamação no dia. a vida pronta. um pouco de cinza. a ilha. a tua fragilidade. não digo inteira. acontecimentos únicos. gostar de ti. fragmentos de gostar de ti. fragmentos.

dizem que nunca sabemos até sabermos. eu sei.

sonhos. casas vazias. casas que não se movem na memória. palavras. palavras no termómetro da memória. palavras como febre ou casas que não se movem na memória. uma oração: a distância sobre a pele quebra tão prontamente.

sei-te a olhar para mim. não sei o que vês. se vês o mesmo que eu quando olho para mim. não falo do espelho. não sei o que vês. pequenas folhas a teimar humanidade ou solstícios ou noites mal adormecidas.  dormir às pingas. trânsito nos sonhos. não sei. não sei se vês o porto. acho que o porto é a primeira coisa que se vê. a pele da cidade. depois a cidade a crescer. o coração das árvores. o cheiro das árvores  do porto a sobressaltar a calçada. como tu me sobressaltas a mim. de uma maneira boa. a calçada vazia. acho que o porto é a primeira coisa que se vê. as pontes. os erros do passado a abrirem caminho para ti. como se tudo fizesse parte de tudo. tu só a precisares de chegar. a vida. virá a vida. o estremecer das estrofes. tudo é como morrer um bocadinho. a luz acesa. inútil como uma língua que não é a nossa no centro de um relâmpago. um sussurro muito branco. um murmúrio a meio milímetro de ti. a curva suave da tua voz. todos os passos errados subitamente. se eu pudesse o céu. não digo o azul, o céu só. se eu pudesse recuperar todos os teus passos. não estás onde deves. não estás. e para mim és sempre hoje. as tuas mãos. nunca me vou cansar de falar das tuas mãos. os dias do teu sorriso de criança feliz onde cabe tudo o que a beleza contempla. a nossa forma de comunicação. só nossa. é tão bom estar onde o teu sorriso acontece. nas tardes de início de primavera onde o teu sorriso acontece. e as amoras acontecem. e a sombra exacta e delicada das amoras. a nudez do vale no seu fim. a nudez da linha. por trás este vento. por trás este vento que arrasta novelos e fere as asas e as horas e os silêncios da distância.

sete meses serão. saberemos ser tudo.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

carta da espera

15:16

15:16 de um sábado qualquer. os sábados sempre me pareceram dias quaisquer, dias sem história. é sábado e chove lá fora. chove sobre um dia qualquer. lá fora chove o dia, chove uma alegria miudinha e as coisas alegres sempre me pareceram demasiado póstumas.

da minha janela vejo passar aviões e fumo cigarros. a chuva cai e faz música ao cair. o céu fica sem cor e é tão bonito esse teu olhar triste. és tão bonita. essa espécie de alheamento. tão bonita. essa espécie de altivez delicada.

queimo cigarros. observo o fumo. penso em ti. começa a ser tão viva a tua presença em mim. as tuas ausências também. às vezes não sei muito bem como agir quando estás comigo. então fico só parado a olhar para ti. e tenho a impressão de sorrir muitas vezes. e parece-me sempre que o tempo passa muito depressa. isto deve significar alguma coisa.

ontem apeteceu-me dançar contigo. apeteceu-me. a mim que nunca me apetece dançar. passam-se tantas coisas na minha cabeça quando estou contigo que acho que não posso afirmar com toda a certeza que me tenha apetecido dançar. sei lá. é tudo tão rápido. tantas coisas. mas ontem apeteceu-me dançar contigo. apeteceu-me que ficasses. ver-te acordar depois de te ver dormir. a minha camisa em ti. deves ser ainda mais bonita ao acordar. a tua voz deve ser ainda mais doce. deves ficar linda na minha camisa.

e gosto tanto de te ver rir. penso nisso. fumo o último cigarro. o barulho do cigarro a queimar céu. o céu de coimbra tão mais próximo. gosto tanto de te ver rir.

e de repente parece-me que não faz sentido toda esta merda. é demasiado. gostar de ti. não faz sentido.  demasiado cedo. tudo tão demasiado cedo, o teu sorriso tão cedo tão cedo o teu nome a tua fotografia. os teus passos. esta carta e os voos nocturnos. os teus passos. e pensar que me podes salvar. e saber que te posso salvar. 

ainda não parou de chover. as coisas às vezes são assim. prolongam-se até chegar dentro de nós. depois demoram-se. depois ficam. depois ficam e já não sabemos se são nossas. só nossas.

e no final do dia já não sabemos se são só nossas. e no final do dia voltamos a não ter nada para dizer um ao outro. a não ter nada para dizer. e saber que isso não importa. e saber que o teu cabelo curto não importa. o vestido branco. o vestido branco que nasce de ti. 

sentir o coração a falhar o sangue.

o teu umbigo. o teu ombro. chuva no teu ombro. o amanhecer desperta um segredo. um segredo. a tua cintura. a doçura misteriosa da tua cintura. para lá da dúvida. a forma como o sol queima ao fazer o caminho das tuas pernas. dentro mundo. estamos dentro do mundo.

e eu sei de ti. o eclipse. o mapa. a rebentação em ti. sei de ti. 

beijo a chuva nua no teu ombro. sinto que estou onde devo estar. e tu, tu estás onde deves estar também. tu, tu que és um pequeno milagre.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Carta a Fallorca

Sabes Jorge, a repartição de finanças não é o melhor sítio para chorar. Também não levava lenços. De papel. Tinha nas mãos folhas a que chamam modelos. Modelos a que dão números e tive de os pousar para atender o telefone. E eu, como te disse, choro e rio com a mesma facilidade. Não tenho um coração contido. O inconveniente de chorar nas Finanças é que está tudo com cara cerrada, tudo atento a nada, num quase silêncio e as lágrimas rolam e ouvem-se a cair no chão. O chão, Jorge, era de mármore. Acho que era mármore. Se ainda fosse de cortiça ou um chão de terra batida – era melhor que fosse de terra batida – as lágrimas eram absorvidas e subiam pelo caule das árvores. Tu gostavas de terra e de árvores e de outras coisas que eu não sei. Não tivemos tempo nenhum. Tivemos pouco tempo para que eu pudesse ouvir-te mais, saber mais, aprender mais. É estranho. Ou não. Há pessoas que vejo todos os dias, com quem me cruzo todos os dias e de quem não sei rigorosamente nada. O nome. Às vezes, nem isso. Mas não faz mal ser assim. O que eu te quero dizer Jorge, é que jantamos uma vez, ficamos noite adentro, na conversa, uma vez, fui levar-te à estação uma vez, vimo-nos uma vez e, agora, não voltaremos a vermo-nos. E isto, momentos inesquecíveis, em slide, a passarem-me pela cabeça, no meio da repartição das finanças, é ainda mais absurdo. Se eu te dissesse que ainda a semana passada disse, vou ligar ao Jorge. Se eu te dissesse que, meses depois, voltei a ler o conto e ainda gostei mais das tuas sugestões. Se eu te dissesse Jorge, como a Senhora das Finanças está atenta ao que eu não digo; como me perguntou se eu queria lenços de papel. Haverias de sorrir, creio. E eu, já sentada, protegida por um biombo só consegui dizer, desculpe. Já nem sabia bem ao que ia. Entreguei-lhe os papéis, os modelos, e pensava no modo cerimonioso com que nos chegamos a tratar. Obrigada, Jorge por ter lido. Obrigado, Marta, por me fazer regressar ao Porto após 17 anos. Voltarei com a Nico. E as fotografias que não cheguei a enviar, e o e-mail de que me esqueci a palavra passe. E a tua infância contada por ti, no Gato Vadio, a prender-nos a todos. E a Claudia a passear-nos pelos teus livros, e a Francisca muito atenta, ainda desconhecida, a um canto do bar. E eu, apaixonada, a enviar a Cicatriz do Ar e a Mulher Descalça para o Brasil. A Lelena e o Marcelo, quando souberem. Até o Miguel. Eles gostaram tanto de te ler. A Senhora das Finanças disse que já estava tratado. Que sentia muito. E eu calada, a levantar-me com Cossery, John Berger, Mohamed Choukri, Sebald, Walser, Piglia, David Malouf, Cormac, Salinger, Saint-John Perse, Imre Kertész, Vila-Matas, Llansol, Almeida Faria, Carlos de Oliveira e Luiza Neto Jorge. Saímos das Finanças ao mesmo tempo. Não é o melhor sítio para chorar. Mas quando a Claudia ligou a dizer-me que tinhas morrido, não sabia onde eu estava.

Até sempre Jorge Fallorca.

Marta


segunda-feira, 5 de maio de 2014

Carta ao Filho

filho, já não há sangue do meu correndo nas tuas veias,

há uma humidade opaca nesta ferida,

sinto-me um sopro enchendo a fissura da rocha que sou;

filho, havia ainda um último fósforo, uma dúvida

mais transparente que o ar, a única que não pode haver

entre um pai e um filho, uma árvore ardendo

no meu amor;

filho, hoje o teu rosto parecido com o meu

perdeu os pilares que seguravam as nossas parecenças

e toda a respiração se desmoronou;

filho, meu único filho, perdoa-me hoje

o que sinto de ontem, um desamor injusto e selvagem,

cravado na memória, retroactivo;

o teu pai

terça-feira, 22 de abril de 2014

carta a v

de que são feitos os teus lábios?

podias ter salvado coimbra. eu podia até ter chegado a gostar de coimbra: o mondego a ser o meu rio, as tristes capas a minha pele, a estação nova primavera e outono de todos os meus dias, a sé velha, os arcos do jardim, a porta de almedina mais os cafés da baixa

podias ter salvado coimbra e todas as pessoas que conheci. poderias ter salvado coimbra e eu não esqueceria nem pedro e inês o número do eléctrico o primeiro dia das repúblicas.

podias estar a acordar agora e podias dançar aos saltos na cama, o gato a um canto a olhar eu a um canto a olhar e ver coisas que só eu consigo ver, eu e o gato.

não sei se sobreviveria a um instante do teu corpo, não sei se sobreviveria a esse murmúrio de flor murmúrio de tempo a essa viagem para sul, não sei se sobreviveria aos teus lábios perfeitos.

ainda me lembro da primeira vez que te vi, as coisas todas a fazerem-se pequeninas: as pedras da calçada o teatro ao fundo a cidade de ruas e pedras de calçada e escadas de namorados lentissimamente a desaparecer.

agora vejo-te muitas vezes e chegas-me cada vez mais inteira,

e eu não sei se sobreviveria à vertigem do teu corpo, provavelmente morreria na troca repetido.

agora apareces-me muitas vezes,

e eu escrevo-te muitas vezes na pele a maresia os perfumes da noite um crepúsculo antigo as constelações todas  e tu falas de ti das tuas mãos do silêncio da casa do vento que entra pela janela seguindo os passos da lua.

o teu sorriso faz nascer coisas bonitas flores raras primeiros dias. o teu sorriso.

não sei se nos encontraremos mais vezes, para além das últimas frases desta carta,

não sei se nos encontraremos mais vezes,

mas sinto que estarei sempre aqui, na fronteira da tua anatomia

sempre aqui, onde o mar se põe.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

carta ao esquecimento

para onde foram os dias? os nossos dias. para onde foram? sei que a noite recomeça um pouco mais à frente. é sempre assim. dizem. não sabem do espelho. o espelho que é agora uma mera possibilidade. uma probabilidade. um abandono. não significa nada. não pode significar. já não guarda palavras para ti. já não guarda o mar para ti. as marcas do teu batom. as paredes continuam a encontrar-me. não as procuro. juro. não as procuro que já não sei dizer o teu calor. o teu calor. como se diz? parece tão simples. acho que já não saberia o que fazer com o teu calor. invernos e guarda-chuvas e nós a atravessar aquela ponte. talvez. os guarda-chuvas sempre me pareceram românticos. as pontes também. nós os dois debaixo de um guarda-chuva distante. a atravessar uma ponte distante. e nevoeiro de postal. como o caminho insiste em se fazer longe de nós. talvez os invernos venham. talvez os invernos também venham despidos de pássaros. eu continuo a despenhar-me. respiro entre acidentes. às vezes consigo respirar. talvez tenhas tido filhos. talvez tenhas aprendido a ser feliz. eu nunca tive talento para a felicidade. talvez tenhas aprendido a respirar devagar. sabes, às vezes falha-me a memória que tenho de ti. mesmo quando me concentro muito. o tempo não cura nada. a única coisa que faz é ir tirando-me a memória que tenho de ti. o tempo não cura e  esqueço-me tantas vezes de sonhar contigo. não estás. às vezes olho para o lado e tu não estás. se ao menos soubesse o significado disso. se ao menos as horas não me fizessem perguntas ou não existissem tantas cidades ou aquela porta. a lua cheia. a lua tão cheia. poesia é entrar dentro das coisas e ser as coisas que se dizem e sobretudo as coisas que não se dizem. a poesia é entrar em ti. e tu não és uma coisa. ontem passei na tua rua e tu não estavas onde sempre estás. fica tão vazia a tua rua sem ti. e custa muito ar respirar. ontem falei de ti. não perguntes a quem. não saberia responder. estou sempre só. sobretudo quando falo de ti. ontem falei de ti: do que gosto em ti: de tudo o que gosto em ti: a irlanda: um certo bosque: o teu vestido. e li-te a aquela passagem daquele livro. gosto de ler para ti. devias aparecer mais vezes. gosto de ler para ti. ver adormecer os teus ombros nus. no mundo há janelas que ninguém vê. gosto de olhar para ti de muito perto.por dentro. há tanto azul em ti: dias bonitos: coisas que me fazem demorar. quando fores velhinha serás ainda mais adorável. consegues imaginar-me a dizer-te: quando fores velhinha serás ainda mais adorável. e será milfontes ou o douro. tudo feito de água feliz e mãos infinitas.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Carta a Paris

A ti.

Não faria sentido lembrar-te, ou não fosses talvez o compasso de espera que nunca se justificou – nunca vieste, nunca soube porquê. Eu tinha afinal 20 anos e tremi por várias meias horas numa Paris à chuva. Não te confundo com a ausência dele, mas talvez com a miragem de uma vida que teria acontecido diferente se tivesses vindo. Éramos todo aquele potencial que eu sentia – em delírio, talvez –, que me formigava os ombros, atraiçoava as mãos, adiava o sono. Acreditei piamente que aquela podia ser a minha história – não a nossa, mas a minha. Quase à hora de fecho, desci e subi várias vezes o Père-Lachaise.  Pergunto-me como me explicarias naquele cenário. Trazia-te gelado comigo, na tentativa de não te prever, de fingir que não te esperei a vida inteira. Mas esperei.
Tudo isto foi real. Naquela noite, sobraram em mim – e em ti, sem dúvida – todas aquelas madrugadas que me prometeste. Era assim mesmo, dir-te-ia – naquela altura eu não chorava como agora. Fui embora e não voltei a Paris. Continuo o luto porque desejei aquela “história-triste-que-daria-boas-cartas”, mais do que tudo. Mais do que a ti. Investi toda a honestidade e traição e vergonha que trouxe daquela noite, na vertigem que seria viver-te de novo. Tenho-te raiva. Sinto-me longe de tudo o que fui, quando querer-te era um engano. Preciso continuamente de ir embora e esquecer que me falhaste, que eu te falhei, que eu nunca fui o que precisaste. Esquece o atrito. Esquece a rotina. Não havia nada disso – tenho a certeza – quando naquela noite te esperei na sombra dos monumentos.  Foi no dia 13 de Novembro de 2010. Perdoei-te esse dia, e os outros. Por favor, não me esqueças. Tu não me escolheste, mas eu escolhi-te (escolho-te) em todas as insónias. Fui feita para todas as portas que me fechaste, para todos os sambas que eu não dancei, para todas as cartas sem resposta, para todos os homens que chamei de outros.

Por favor, não me esqueças.

Beatriz

também aqui

terça-feira, 18 de março de 2014

carta a coimbra

o atrito. todo o atrito. todo e qualquer atrito. todo e qualquer atrito pode ser vencido. a minha mão a cobrir a tua, o caule bonito de uma rosa, olisipo. todo o atrito pode ser vencido. a primeira vez que me disseste boa noite, a tua alma de flor, as pequenas coisas de que és feita.

todo e qualquer atrito. as tuas cartas. todos os telhados de lisboa. um pequeno pedaço de luz. a rotina dos teus braços à volta do meu pescoço. coimbra. évora. s. paulo. todos os lugares onde amanhece a tua geografia. a geometria dos teus passos. os teus silêncios. as tuas demoras. as tuas ausências. 

o gesto que desenhavas ao apertar o casaco mais as coisas insignificantes que me dizias.

a distância existe. o atrito. a rotina perde-se sem a rotina. e a rotina é uma coisa boa. quem diz o contrário não sabe o que são os dias sem ti. a rotina é boa porque é  feita de milhares de coisas muito pequeninas e boas. mas a rotina perde-se com a distância. na verdade talvez nada permaneça. talvez esse seja o segredo do mundo. talvez nada do que possas fazer para salvar o teu coração tenha importância. mesmo que sobrevivas. 

não devias ter partido. e não devias ter evitado a despedida com a desculpa de que não gostas de despedidas. as despedidas são reencontros que se demoram. as despedidas são o sal da pele. a própria pele. a tua pele. os teus cotovelos. o medo de te perder. que estúpido me parece tudo agora que a distância existe. o estúpido medo de te perder.

e a distância existe. por isso esta cama que não é a tua. este cheiro que não é o teu. um cheiro de que só lembro porque não é o teu. por isso esta língua. estes dedos nos meus lábios. estes lábios nos meus lábios. por isso todos os amanheceres que o teu corpo me nega. por isso todos os amanheceres. 

a primeira vez que me disseste boa noite.

eu nunca te pedi que existisses. que fosses a minha metade. que fosses janela de chuva em tarde de mantas e livros. nunca pedi a tua mão no meu ombro. que me abraçasses por trás. que me acordasses com beijos cheiro a café silêncios ou outro qualquer milagre do quotidiano. eu não te escolhi. nunca vi nos teus olhos laranjeiras a multiplicar o sol nem pétalas de jardim. não devias ter deixado para trás todas as horas que esperei por ti. devias ter levado tudo. mais as promessas que eu nunca quis, aquele banco de jardim, o teu lado da cama. que  eu nunca te pedi explicações que tivesses que inventar. nunca te exigi mentiras. nunca te pedi que chegasses à hora certa. que viesses sequer. nem a tua respiração no meu ouvido. a tua rua inteira. 

e estou tão farto dessa história de que as histórias tristes dão boas cartas. 

quero que chegues. já não sei chorar. tenho as mãos vazias e sobrou tanto tempo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Carta ao Pai

Ontem, o meu pai foi-se embora. Não foi e já volta; emigrou para o Recife e deixou este país, onde nasceu e onde viveu durante 65 anos. A sua reforma seria, por cá, de duzentos e poucos euros, mais uma pequena reforma da Sociedade Portuguesa de Autores que tem servido, durante os últimos anos, para pagar o carro onde se deslocava por Lisboa e para os concertos que foi dando pelo país. Nesses concertos teve salas cheias, meio-cheias e, por vezes, quase vazias; fê-lo sempre (era o seu trabalho) com um sorriso nos lábios e boa disposição, ganhando à bilheteira. Ontem, quando me deitei, senti-me triste. E, ao mesmo tempo, senti-me feliz. Triste, porque o mais normal é que os filhos emigrem e não os pais (mas talvez Portugal tenha sido capaz, nos últimos anos, de conseguir baralhar essa tendência). Feliz, porque admiro-lhe a coragem de começar outra vez num país que quase desconhece (e onde quase o desconhecem), partindo animado pelas coisas novas que irá encontrar. Tudo isto são coisas pessoais que não interessam a ninguém, excepto à família do senhor Tordo. Acontece que o meu pai, quer se goste ou não da música que fez, foi uma figura conhecida desde muito novo e, portanto, a sua partida, que ele se limitou a anunciar no Facebook, onde mantinha contacto regular com os amigos e admiradores, acabou por se tornar mediática. E é essa a razão pela qual escrevo: porque, quase sem o querer, li alguns dos comentários à sua partida. Muita gente se despediu com palavras de encorajamento. Outros, contudo, mandaram-no para Cuba. Ou para a Coreia do Norte. Ou disseram que já devia ter emigrado há muito. Que só faz falta quem cá está. Chamam-lhe palavrões dos duros. Associam-no à política, de que se dissociou activamente há décadas (enquanto lá esteve contribuiu, à sua modesta maneira, com outros músicos, escritores, cineastas e artistas, para a libertação de um povo). E perguntaram o que iria fazer: limpar WC's e cozinhas? Usufruir da reforma dourada? Agarrar um "tacho" proporcionado pelos "amiguinhos"? Houve até um que, com ironia insuspeita, lhe pediu que "deixasse cá a reforma". Os duzentos e tal euros. Eu entendo o desamor. Sempre o entendi; é natural, ainda mais natural quando vivemos como vivemos e onde vivemos e com as dificuldades por que passamos. O que eu não entendo é o ódio. O meu pai, que é uma pessoa cheia de defeitos como todos nós - e como todos os autores destes singelos insultos -, fez aquilo que lhe restava fazer. Quer se queira, quer não, ele faz parte da história da música em Portugal. Sozinho, ou com Ary dos Santos, ou para algumas das vozes mais apreciadas do público de hoje - Carminho, Carlos do Carmo, Marisa, são incontáveis - fez alguns dos temas que irão perdurar enquanto nos for permitido ouvir música. Pouco importa quem é o homem; isso fica reservado para a intimidade de quem o conhece. Eu conheço-o: é um tipo simpático e cheio de humor, que está bem com a vida e que, ontem, partiu com uma mala às costas e uma guitarra na mão, aos 65 anos, cansado deste país onde, mais cedo do que tarde, aqueles que o mandam para Cuba, a Coreia do Norte ou limpar WC's e cozinhas encontrarão, finalmente, a terra prometida: um lugar onde nada restará senão os reality shows da televisão, as telenovelas e a vergonha. Os nossos governantes têm-se preparado para anunciar, contentíssimos, que a crise acabou, esquecendo-se de dizer tudo o que acabou com ela. A primeira coisa foi a cultura, que é o património de um país. A segunda foi a felicidade, que está ausente dos rostos de quem anda na rua todos os dias. A terceira foi a esperança. E a quarta foi o meu pai, e outros como ele, que se recusam a ser governados por gente que fez tudo para dar cabo deste país - do país que ele, e milhões de pessoas como ele, cheias de defeitos, quiseram construir: um país melhor para os filhos e para os netos. Fracassaram nesse propósito; enganaram-se ao pensarem que podíamos mudar. Não queremos mudar. Queremos esta miséria, admitimo-la, deixamos passar. E alguns de nós até aí estão para insultar, do conforto dos seus sofás, quem, por não ter trabalho aqui - e precisar de trabalhar para, aos 65 anos, não se transformar num fantasma ou num pedinte - pegou nas malas e numa guitarra e se foi embora. Ontem, ao deitar-me, imaginei-o dentro do avião, sozinho, a sonhar com o futuro; bem-disposto, com um sorriso nos lábios. Eu vou ter muitas saudades dele, mas sou suspeito. Dói-me saber que, ontem, o meu pai se foi embora.

João Tordo


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

o que vejo, quando tentar esquecer-te é já não querer lembrar

Paro.
não entras pela porta.
e eu paro.

As simples insuspeitas coisas que deixaste assombram-me
se paro
que não saberei nunca se me amaste como eu queria amar-te. Nem preciso mais: o que só tem uma direcção nunca será caminho.

vou contar-te a história que vivemos.
Duas pessoas, uma teimosia com mil destinos que ficaram por saber.
E sinto a saudade de tudo o que quebrei, sinto
sinto a saudade das pessoas que deixei…
Sentirei sempre a saudade.
Mas amor e saudade serão utopias enquanto forem palavras.

E é no teu adeus que começam os meus caminhos!

Regressamos devagar às memórias como quem volta a casa, continuamos a acreditar que a chave dessa porta alguma vez nos pertenceu mas a única coisa que abriu foi passados.
Como posso continuar a olhar para essa porta?
se sempre quis futuro.

Não quis que fosse o fim mas já é tarde. É muito tarde e 
é tarde demais.

Quando penso em nós não penso em querer-te, penso em mudar-te.
Quero esquecer-te! E depois, 
que mal tem quebrar a maldição dos cómodos caminhos que me levam a ti quando me esqueço que já não preciso lembrar-te?

Ontem fizeste-me falta. 
Nunca saberás a falta que me fazias quando precisei que soubesses
nunca conseguirei mudar o que ficou por fazer se já não lembro.

Nem preciso de te esquecer. 
Quero os meus caminhos.
Paro
e não entrarás mais pela porta 
que não voltará a abrir. 

Esquecer afinal não é preciso se já não preciso de lembrar.

Já não temos idade para não sabermos esquecer.
A idade que fomos ficará, sim, mas não é
nem futuro.
Eu não posso ficar, não podemos insistir em portas fechadas.

A chave fica comigo
Para a perder para sempre.

Maria Supertramp

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

o que vês quando fechas os olhos, o que esqueces?

o que vês quando fechas os olhos, o que esqueces?

quero acreditar que tudo foi real, que fomos mesmo, que me deste mesmo a mão naquela rua, em todas as ruas, que houve sorrisos e orgasmos e sorrisos entre os orgasmos e lágrimas e música entre os gritos. que o amor foi real e foi febril, embora eu não goste da palavra, que houve história, que eras tu quem eu via adormecer ao meu lado, que era eu quem te via adormecer, que eu era mesmo eu e era quem tu vias ver-te adormecer.

sinto a tua falta e quero tanto crer que sinto a tua falta, 

sinto a tua falta, mas o vazio já cá estava.

e escrevo-te porque sinto a tua falta. sinto a tua falta e escrevo-te porque sinto a tua falta e porque não te resolves a morrer nunca, porque decides sempre ficar mais um bocadinho.

e podias ter ficado. e podias ter insistido. e não precisavas sequer de ter insistido muito: um pequeno gesto: uma palavra feliz: a breve aparição de uma lágrima.

e podias ter ficado e talvez os meses tivessem nomes de gente ou de cidade: maio teria sempre o teu nome, como barcelona, e agosto o teu nome e fevereiro seria sempre o nosso primeiro fevereiro, e não uma cidade queimada, uma rua sozinha, um cinzeiro abandonado.

esta impossível mania da idade. este esquecimento que não chega.

nunca te menti. ou nunca te menti depois do sexo. e nunca te menti depois de abraçar. nunca te menti naquela fotografia. não te minto. quem parte não tem mentiras para deixar.  tudo é não saber dizer: talvez eu não fosse para ti,

mas lembras-te que éramos felizes?

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

não tenho nada para te dizer

a mulher lê o que escreve. é como se não tivesse sido ela. depois de escrever, esquece sempre. escreve na terceira pessoa do singular, como se de outra se tratasse. sempre lhe pareceu não ser possível que seja ela a ter vivido a vida que teve, que tem, por isso, escreve como se fosse outra. como se visse de fora. assim, não há espanto. nos outros tudo é possível. 
há dias apeteceu-lhe escrever 'conheço o carlos há cerca de uma semana, não sei como entrei neste filme, nesta história que não é minha. procurou-me para chorar no meu ombro o seu amor rejeitado por outra mulher, e ficou. e quer ficar. ele parece ser um bom homem, um bom ser humano, um a ave à procura de um ninho. eu não sei o que faço aqui, esta vida não é a minha, e no entanto, não consigo sair, como um insecto caído na teia de uma aranha.'

Ana

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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Isto não é uma carta de amor

Um dia serei capaz de vos desejar, aos dois, as maiores felicidades. Hoje não. Ainda não. Hoje tenho este peso visceral de sete anos da minha vida que não voltam atrás. Uma sensação que me corrói. Terá, apesar de tudo, valido a pena? Há um pequeno lugar secreto no fundo do meu coração que me diz que sim. Mas há todo um corpo e alma que me doem tanto, que não sei dizer. Não tenho respostas. Toda eu sou porquês. Porquê, em tantos anos nunca saímos da casa da partida?... Porquê, nunca tivemos uma única oportunidade real?... Porquê, nunca mereci que tivesses lutado por mim?... Sabes, era só isso que eu queria. Por uma vez. Mas sobra-me a sensação de tudo ter sido apenas imaginado por mim. Não existem provas ou testemunhas. A nossa história não ficou marcada em lugar algum. Os nossos nomes não estão escritos algures, esculpidos na pedra eterna. Não. Ninguém virá a saber que houve um dia um amor assim. E isso… dói. Sim, eu amei-te. Por inteiro. Pelos teus demónios e pelos teus anjos. Amei-te mesmo quando te odiava. Sei que amarei sempre. Mesmo quando amar outros. Não, já não tenho a esperança de que um dia os astros se alinhem. Isto não é uma carta de amor. Isto não é um exercício literário. Isto é um exorcismo. Isto sou eu totalmente nua. Que se foda. Não levarei para o túmulo nada por dizer ou por sentir. Isto sou eu a despir-me de todas as lágrimas por chorar. De todas a palavras que nunca te disse. De tudo o que ficou por fazer contigo. Isto sou eu a limpar a alma. E digo-te, como no início, uma última vez… Hello my love. Lembras-te?

Marla

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