terça-feira, 22 de abril de 2014

carta a v

de que são feitos os teus lábios?

podias ter salvado coimbra. eu podia até ter chegado a gostar de coimbra: o mondego a ser o meu rio, as tristes capas a minha pele, a estação nova primavera e outono de todos os meus dias, a sé velha, os arcos do jardim, a porta de almedina mais os cafés da baixa

podias ter salvado coimbra e todas as pessoas que conheci. poderias ter salvado coimbra e eu não esqueceria nem pedro e inês o número do eléctrico o primeiro dia das repúblicas.

podias estar a acordar agora e podias dançar aos saltos na cama, o gato a um canto a olhar eu a um canto a olhar e ver coisas que só eu consigo ver, eu e o gato.

não sei se sobreviveria a um instante do teu corpo, não sei se sobreviveria a esse murmúrio de flor murmúrio de tempo a essa viagem para sul, não sei se sobreviveria aos teus lábios perfeitos.

ainda me lembro da primeira vez que te vi, as coisas todas a fazerem-se pequeninas: as pedras da calçada o teatro ao fundo a cidade de ruas e pedras de calçada e escadas de namorados lentissimamente a desaparecer.

agora vejo-te muitas vezes e chegas-me cada vez mais inteira,

e eu não sei se sobreviveria à vertigem do teu corpo, provavelmente morreria na troca repetido.

agora apareces-me muitas vezes,

e eu escrevo-te muitas vezes na pele a maresia os perfumes da noite um crepúsculo antigo as constelações todas  e tu falas de ti das tuas mãos do silêncio da casa do vento que entra pela janela seguindo os passos da lua.

o teu sorriso faz nascer coisas bonitas flores raras primeiros dias. o teu sorriso.

não sei se nos encontraremos mais vezes, para além das últimas frases desta carta,

não sei se nos encontraremos mais vezes,

mas sinto que estarei sempre aqui, na fronteira da tua anatomia

sempre aqui, onde o mar se põe.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

carta ao esquecimento

para onde foram os dias? os nossos dias. para onde foram? sei que a noite recomeça um pouco mais à frente. é sempre assim. dizem. não sabem do espelho. o espelho que é agora uma mera possibilidade. uma probabilidade. um abandono. não significa nada. não pode significar. já não guarda palavras para ti. já não guarda o mar para ti. as marcas do teu batom. as paredes continuam a encontrar-me. não as procuro. juro. não as procuro que já não sei dizer o teu calor. o teu calor. como se diz? parece tão simples. acho que já não saberia o que fazer com o teu calor. invernos e guarda-chuvas e nós a atravessar aquela ponte. talvez. os guarda-chuvas sempre me pareceram românticos. as pontes também. nós os dois debaixo de um guarda-chuva distante. a atravessar uma ponte distante. e nevoeiro de postal. como o caminho insiste em se fazer longe de nós. talvez os invernos venham. talvez os invernos também venham despidos de pássaros. eu continuo a despenhar-me. respiro entre acidentes. às vezes consigo respirar. talvez tenhas tido filhos. talvez tenhas aprendido a ser feliz. eu nunca tive talento para a felicidade. talvez tenhas aprendido a respirar devagar. sabes, às vezes falha-me a memória que tenho de ti. mesmo quando me concentro muito. o tempo não cura nada. a única coisa que faz é ir tirando-me a memória que tenho de ti. o tempo não cura e  esqueço-me tantas vezes de sonhar contigo. não estás. às vezes olho para o lado e tu não estás. se ao menos soubesse o significado disso. se ao menos as horas não me fizessem perguntas ou não existissem tantas cidades ou aquela porta. a lua cheia. a lua tão cheia. poesia é entrar dentro das coisas e ser as coisas que se dizem e sobretudo as coisas que não se dizem. a poesia é entrar em ti. e tu não és uma coisa. ontem passei na tua rua e tu não estavas onde sempre estás. fica tão vazia a tua rua sem ti. e custa muito ar respirar. ontem falei de ti. não perguntes a quem. não saberia responder. estou sempre só. sobretudo quando falo de ti. ontem falei de ti: do que gosto em ti: de tudo o que gosto em ti: a irlanda: um certo bosque: o teu vestido. e li-te a aquela passagem daquele livro. gosto de ler para ti. devias aparecer mais vezes. gosto de ler para ti. ver adormecer os teus ombros nus. no mundo há janelas que ninguém vê. gosto de olhar para ti de muito perto.por dentro. há tanto azul em ti: dias bonitos: coisas que me fazem demorar. quando fores velhinha serás ainda mais adorável. consegues imaginar-me a dizer-te: quando fores velhinha serás ainda mais adorável. e será milfontes ou o douro. tudo feito de água feliz e mãos infinitas.