sexta-feira, 15 de novembro de 2013

carta do futuro

Milfontes, 15 de Novembro


gosto de gostar de ti. não gosto quando penso que posso vir a deixar de gostar de ti. gosto de coisas simples e gosto de ti. acho que és a única complicação de que gosto. gosto de aprender a voar contigo. não gosto do natal. gosto do natal contigo. gosto de jogar às cartas no natal. não gosto do natal. gosto de fazer o pinheiro contigo. gosto de parar e olhar o mundo contigo. só parar e olhar. gosto de janeiro e de dias frios contigo. e não gosto de janeiro mas gosto de dias frios. gosto de ter saudades tuas. a saudade às vezes magoa. gosto de ter saudades tuas e gosto quando dizes saudade. gosto de sonhar contigo e de pensar em ti. gosto dos teus vestidos em ti. gosto dos teus pés. os teus pés são feios mas gosto dos teus pés. gosto das tuas palavras. gosto das cores que dizes que cabem no peito. gosto de casas e gosto que gostes de casas. gosto que saibas o que dizem os pássaros. gosto que sejas tão especial. gosto que a tua presença na minha vida me torne tão especial. gosto das tuas unhas finas de pianista. gosto dos teus lábios. são mais bonitos do que pensas os teus lábios. gosto que não saibas que gosto destas coisas todas em ti. gosto que me tenhas dado tanto trabalho a conquistar-te. podias ter-te poupado um pouco no esforço de me teres dado tanto trabalho a conquistar-te. gosto quando dizes que és uma pessoa pouco recomendável embora nunca to vá dizer nem perceba bem o que queres dizer com isso. gosto de dióspiros. parece-me sempre que os dióspiros trazem muito sol dentro. gosto de dióspiros e gosto que os dióspiros me lembrem a primeira carta. gosto de dióspiros contigo dentro. gosto que gostes de dias calmos. gosto da tua fragilidade que não expões. gosto da tua força. gosto dos teus ombros e sim sei que é fácil gostar de ombros. gosto das tuas costas. gosto de cada centímetro da tua pele. gosto que sejas tão picuinhas com certos detalhes. gosto de te ouvir ler baixinho no quarto. gosto de falar de ti e gosto de ouvir falar de ti. gosto que saibas que nem todas as palavras são bonitas. gosto dos teus ombros e sim sei que é fácil gostar de ombros. gosto dos teus ombros. gosto do anel no teu indicador direito. gosto do anel no teu indicador esquerdo. gosto que saibas apreciar a letra das pessoas mais velhas. gosto quando lemos ao mesmo tempo o mesmo livro. gosto que sejas distraída para algumas coisas. gosto da tua intolerância. já disse na terceira carta que gostava da tua intolerância. gosto de te abraçar. gosto de te abraçar enquanto dormes. gosto de te ver dormir. gosto de te ver dormir e gosto de te ver acordar. gosto de te dizer que estou a escrever para ti. gosto de te escrever. vou gostar sempre.


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Cartas de Lille XXIII

Respirei três vezes fundo e enviei a última mensagem para lhe dizer que nunca mais nos iríamos ver. E pouco depois, de respiração suspensa, li aquela última resposta de cordialidade e indiferença, toda ela carente de qualquer pontinha de despeito. Dei por mim no sítio onde o conheci, há tantos meses atrás, e compreendi tudo aquilo que custa compreender à luz do romance. Mas um dia o romance fica para trás, naquela estação apinhada de gente, naquele quarto tão completamente estranho para mim. E não nos doí quase nada, porque amor é uma outra coisa, e debaixo de tanta crosta mal cicatrizada, fiz o que pude, dei tempo ao tempo e decidi não o procurar nunca mais. Dizem que a vida se arruma por passos.
E no entanto, 11 meses se passaram, sob chuva constante, no passo lento de todos os meus regressos a casa, na implacável busca de um referencial para quem, não importa a que horas, pudesse voltar. Enterrei, uma por uma, todas as histórias. Reli pela última vez os primeiros emails, guardei para sempre todas as lembranças numa caixa de cartão, desfiz-me do que pudesse manter viva toda a espécie de rancor ou esperança.
Só não sei o que fazer contigo.

Beatriz

no maravilhoso Cartas de Coimbra, aqui.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Carta de um poeta para uma donzela do séc. XV

Isto é uma confissão, uma radiografia...aqui me tens, e se quiseres saber o que eu realmente sinto por ti só tens que chegar ao fim destas linhas (que não são poucas). Se não quiseres saber a solução é ainda mais simples:pára aqui e lixo com estas letras! Vou tentar pôr tudo da forma mais simples, sem preocupações técnicas ou linguísticas, o tempo para impressionar já lá vai, o objectivo é só o de apresentar o homem, sem máscaras, nu...
Graças (...) não poderás ver, nem sentir talvez, a minha mão a tremer, como treme a mão de um miúdo que apaixonado pela primeira vez não sabe o que fazer. Também eu não estou bem certo do que fazer, por isso estas linhas, na ilusão da bondade do poeta:"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir".
O que sinto por ti é grande, muito maior do que gostaria, pelo menos neste momento...Não sei se é amor, nem sei se o amor se pode pôr em palavras, nem sei se há amor sem ser recíproco...mas sei que é bem forte...tão intenso...Não é simples atracção, e nada do que sinto exagero, quando muito minimizo (sempre o peso da razão!). Fui claramente ultrapassado pelo meus sentimentos. Se eu me colocaria voluntariamente nesta posição, gostar assim de ti sem saber o que tu sentes? A resposta nunca poderia ser positiva. Para além de tudo, não nos conhecemos assim há tanto tempo, nem tão bem...o que em vez de menorizar só agrava o meu drama interior. De onde me vem tudo isto então? Não sei de onde vem (nem para onde vai), mas sei o que se passa cá dentro quando estamos juntos e, sobretudo,sei o que se passa quando não estamos (e continuas presente). Não sei se quando estou contigo a minha felicidade é visível, mas sendo-o é infinitamente menor à que sinto. E se não estamos juntos o meu primeiro pensamento é: quando é que a vou voltar a encontrar no caminho. Penso em ti e quero estar contigo, e é mais forte que eu.
É verdade, o primeiro "impacto" contigo é sempre positivamente traumático: és muito mais do que o exteriorizas. O teu "invólucro" (que palavra, perdoa) fica muito aquém, e ainda assim é o que é! És diferente, linda e inteligente (combinação tão fatal)...agora já sei a resposta à pergunta que te coloquei algumas vezes: o que é tu fazes aos homens?, a resposta não podia ser mais simples:nada...existes...és especial e és única. Tens razões para não trocar esse sorriso (a tua alma, dizes...pelo menos espelho ou janela para a alma) por nada, quem trocaria um sorriso que talvez, só, tenha inspirado todos os poetas de todos os tempos! E esse olhar (também aqui as palavras são poucas mas nunca seriam demais) que tantas vezes tentei capturar para mim, guardá-lo bem no fundo do meu ser, num daqueles locais onde, mesmo com chave, ninguém pode entrar...
Isto é o que representas para mim...não sei se é muito ou pouco, sei que é muito mais do que eu gostaria: porque não sei o que sentes por mim e, sobretudo, porque sei que as mulheres como tudo são as mais difíceis de esquecer, são sempre necessária muitas mulheres para se esquecer uma mulher inteligente, já o disse um qualquer génio.
Na verdade, gostaria que gostasses assim de mim...se não for nesta vida espero por outra, temo muito que ainda assim fico a ganhar.

Carta Anónima (Revista Para Português Moderno)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Fazes-me falta

Há tanta coisa que te queria dizer mas as palavras não chegam… Não são suficientes para que te possa dizer tudo o que sinto, tudo o que quero, tudo o que desejo. Queria estar ao teu lado neste momento, fazer-te crer que os milagres acontecem e que tudo terá um final feliz. Queria dar-te as poucas forças que ainda me restam e me fazem continuar a lutar por ti, por nós… Queria que soubesses que não estás só nesse barco. Eu estou aqui para te ajudar a remar contra a maré e encontrares o teu porto seguro. Deixa-me mostrar-te o caminho. Deixa-me ser o teu porto de abrigo. A almofada onde todas noites depositas os teus sonhos e as tua lágrimas de fraqueza… Deixa-me mostrar-te que mesmo os dias mais frios de Inverno têm um calor especial… Que a neve derrete com o calor do teu olhar… Deixa-me fazer parte do teu caminho e verás que ele não será tão difícil de percorrer… 
Ah… se o tempo voltasse atrás, se tudo o que me fizeste sentir voltasse a acontecer… se o tempo parasse naquele dia naquela hora naquele momento… se voltássemos a dançar uma vez mais… se me voltasses a tocar uma vez mais como naquela vez…

 Xaninha Silva