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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Carta a Alice #14

É coisa rara, chegar a casa antes dele [do teu pai], mas quando acontece é um sorriso que se abre na minha face. Sorrio, enquanto estaciono, na expectativa de estar quando ele chega, quando a porta se abre. Todos os gestos mecânicos do caminho a sorrir: a caixa de correio [contas], os dois lanços de escada [às escuras], a chave na porta [o barulho do trinco].

E com o barulho do clique da porta há um clique no coração.  E o sorriso desaparece.

Há um silêncio diferente na nossa casa desde que chegaste e não ficaste. Um silêncio inesperado, ensurdecedor.

Chegar a casa e sentir o vazio.  O teu nome, lá ao fundo.

Perceber que o vazio não é verdadeiro demora uns segundos. Os segundos em que a porta de entrada fica para trás,  em que respiro fundo, fecho os olhos e tudo faz sentido [sem sentido nenhum].

E agradeço. Agradeço por aquele silêncio que me corrói ferozmente, mas que faz parte de nós, porque és tu.

Ana


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

não tenho nada para te dizer

a mulher lê o que escreve. é como se não tivesse sido ela. depois de escrever, esquece sempre. escreve na terceira pessoa do singular, como se de outra se tratasse. sempre lhe pareceu não ser possível que seja ela a ter vivido a vida que teve, que tem, por isso, escreve como se fosse outra. como se visse de fora. assim, não há espanto. nos outros tudo é possível. 
há dias apeteceu-lhe escrever 'conheço o carlos há cerca de uma semana, não sei como entrei neste filme, nesta história que não é minha. procurou-me para chorar no meu ombro o seu amor rejeitado por outra mulher, e ficou. e quer ficar. ele parece ser um bom homem, um bom ser humano, um a ave à procura de um ninho. eu não sei o que faço aqui, esta vida não é a minha, e no entanto, não consigo sair, como um insecto caído na teia de uma aranha.'

Ana

mais coisas maravilhosas da ana aqui

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A língua dos sonhos


Ele morreu há três anos mas eu sei que é nele que pensas ainda todos os dias quando te vejo esvaziada de todas as coisas.
Há noites em que chamas baixinho o nome dele. Sem dares por isso, julgo eu. Não farias essa maldade. Eu não ouso mexer-me ou sequer respirar, esperando que não acordes e que essa saudade que te habita enquanto dormes não te dê a coragem para ires embora.
Essa saudade. Essa saudade é o que não me deixa preencher-te, digo-te às vezes quando o brilho dos teus olhos cega o meu orgulho quando dizes o nome dele. Não ouso gritar-te que ele está morto e que eu estou aqui.
A saudade é uma tatuagem na alma. Só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós, é o que respondes.
E eu odeio-o mais ainda por estar morto e viver dentro de ti e por todos esses livros que te deu e que estão na estante da sala e que te levam para dentro deles. Para dentro dele. E muitas vezes caminho furioso na tua direcção, pronto a arrancar de ti esse pedaço e dilacerá-lo entre os dedos. Mas depois há este amor que me trava e penso que podes ao perder um pedaço de ti, perder o pedacinho ínfimo em que sentes a pena que te faz ficar comigo e então chego perto de ti já sem fúria e sorrio pensando que a pena pode ser melhor que nada.
Por isso durmo quieto sustendo a respiração para não te acordar enquanto sonhas com ele e eu penso que é por isso que não falamos mais, que não falámos nunca. Eu vivo acordado, tu começas a viver quando adormeces.
E os que vivem em sonhos falam uma língua que quem perdeu a capacidade de sonhar já não entende.


Ana

itálico de Mia Couto