sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Amado da minha alma

Amado da minha alma,

Às vezes o estado de corpo-alma que se apodera de mim na tua ausência aparenta pertencer mais ao céu do que ao inferno. Chega de manso e é amenamente que plana e pousa sobre mim; entra-me pelos poros com a naturalidade de um perfume de ambiente, deposita-se nos interstícios da memória numa lentidão quase deliciosa. Eu fico quieta, a ver esse deslizar de imagens, de gestos, e de instantes que tendo sido de mim para ti ou de ti para mim se tornaram nossos ao nascer. Por momentos, fico assim suspensa entre o passado e o presente, entre a vida e um além, não sei se feliz, se apenas à beira de um torpor adquirido num vago flutuar do desejo. Nada me dói - nenhuma recordação, nenhum receio; nada me inflama. É um estado  de anestesia que eu imagino reinar no céu, um nada sentir em que o ser se deixa diluir. Mas eis que subitamente um frio ardente me penetra e então sacode-me a convulsão da saudade. É o gume da espada do anjo implacável que me expulsa deste paraíso em que, afinal não fui mais que Eva enganada pelas mil serpentes geradas no ventre doloroso da tua ausência.

Maria Ripichi

domingo, 20 de outubro de 2013

segunda carta

desarranjas-me a respiração

como se por um segundo não houvesse terra firme para os meus pés    quando me olhas

o sangue circula muito devagar nas veias lentas tudo descompassado, um esforço constante para me equilibrar, um esforço constante para não parecer tão pateta como sou.

são 07:39 em algum lugar do mundo. são muitas vezes 07:39 no lugar que sou.

escrevo-te e  não sei que horas são para além das 07:39 no lugar que sou, mas sei que não é a primeira vez que penso em ti hoje: pensei em ti antes de começar a escrever isto: agora enquanto escrevo e mesmo depois da última letra do último ponto da última respiração sei que vou pensar em ti, por isso esta carta não terminará na última letra ponto respiração, por isso esta carta não terminará, nem quando a estiveres a ler e me souberes a pensar em ti, cada palavra a pensar em ti, cada palavra a pensar que devias sorrir mais e que se o tempo existisse para lá da solidão quieta dos relógios devia parar nos instantes dos teus sorrisos

tão absolutamente linda ficas quando sorris.

hoje li a tua carta outra vez (´a primeira melhor carta de sempre`). leio muitas vezes a tua carta. às vezes leio a tua carta para me sentir mais perto de ti, como se a palavra escrita pudesse interromper os quilómetros a insónia a distância. hoje li a tua carta outra vez, não me canso de dizer: a tua carta, a tua carta que não poderia ser para mais ninguém, e eu sei que sabes disso como os pássaros sabem da chuva: antiquíssima, misteriosa e delicadamente.

também esta carta é para ti. e escrevo-te para que estas cartas possam ser um bocadinho como as tuas árvores de silêncio, onde podes encontrar refúgio, árvores de silêncio que podes cheirar e apertar contra o peito, o silêncio no meio das palavras, a comunicação primeira.

árvores de silêncio a existir por ti.

escrevo-te mas o que queria mesmo era coleccionar primaveras para ti segurar-te pela cintura falar-te ao ouvido poder dizer muitas vezes tu e eu e escrever e sentir a tua pulsação o solstício na nudez dos teus pulsos e ser Coimbra da tua janela: a alta o pátio da faculdade de direito, pequena fábrica onde se desenham as nuvens, as escadinhas de ruas estreitas e arcos a caminho do rio  e um esforço constante para me equilibrar quando tu me olhas as veias todas muito devagar o sangue devagar as constelações todas devagar e relâmpagos no peito, tudo descompassado 

quando me olhas.


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Amado

Amado,

Resisti à tentação de te escrever desde que soube que eras o autor daquelas missivas ardentes que, de há duas semanas a esta parte, chegaram a esta casinha de chamas, de alegria, de nostalgia e esperança, e ao meu coração e às minhas entranhas de doce fogo que abrasa sem queimar, o do amor e o do desejo unidos em casamento feliz.
Para que havias de assinar cartas que só tu podias escrever? Quem me estudou, formou, inventou, como tu fizeste? Quem poderia falar dos pontinhos vermelhos das minhas axilas, das rosadas nervuras das cavidades ocultas entre os dedos dos meus pés, dessa «franzida boquinha circundada por uma circunferência em miniatura de alegres ruguinhas de carne viva, entre azulada e plúmbea, à qual é preciso chegar escalando as lisas e marmóreas colunas das tuas pernas?» só tu, amor meu.
Soube desde as primeiras linhas da primeira carta, que eras tu. Por isso, antes de a acabar de ler obedeci às tuas instruções. Despi-me e pousei para ti, diante do espelho, imitando a Dánae de Klimt. E voltei, como tantas noites saudosas na minha solidão actual, a voar contigo por esses reinos de fantasia que explorámos juntos, ao longo daqueles anos compartilhados que são, para mim, agora, uma fonte de consolo e de vida à qual volto para beber com a memória, a fim de suportar a rotina e o vazio que sucederam ao que, a teu lado, foi aventura e plenitude.
Na medida das minhas forças, segui ao pé da letra as exigências - não, as sugestões e pedidos - das tuas sete cartas. Vesti-me e despi-me, disfarcei-me e mascarei-me, deitei-me, dobrei-me, desdobrei-me, acocorei-me e encarnei - com o corpo e a alma - todos os caprichos das tuas cartas, pois que prazer maior, para mim, que comprazer-te? Para ti e por ti, fui Messalina e Leda, Madalena e Salomé, Diana com o seu arco e as suas flechas, a Maja Nua, a Casta Susana surpreendida pelos velhos luxuriosos e, no banho turco, a odalisca de Ingres. Fiz amor com Marte, Nabucodonosor, Sardanapalo, Napoleão, cisnes, sátiros, escravos e escravas, emergi do mar como uma sereia, aplaquei e aticei os amores de Ulisses. Fui uma marquesinha de Watteau, uma ninfa do Ticiano, uma virgem de Murillo, uma Madonna de Piero della Francesca, uma gueixa de Fujita e uma desgraça de Toulouse-Lautrec. Custou-me pôr-me em pontas como a bailarina de Degas, e, podes crer, para não te defraudar até tentei, à custa de cãibras, transformar-me naquilo a que chamas o voluptuoso cubo cubista de Juan Gris.
Jogar novamente contigo, ainda que à distância, fez-me bem, fez-me mal. Senti, de novo, que era tua e tu eras meu. Quando acabava o jogo, a minha solidão aumentava e entristecia-me ainda mais. Está perdido para sempre, o que se perdeu?
Desde que recebi a primeira carta, vivi à espera do dia seguinte, devorada pelas dúvidas, tentando adivinhar as tuas intenções. Querias que te respondesse? Ou o enviar-mas sem assinatura significa que não queres entabular diálogo, mas somente que eu escute o teu monólogo? Porém, a noite passada, depois de ter sido, docilmente, a laboriosa senhora burguesa de Vermeer, decidi responder-te. Qualquer coisa, do fundo obscuro da minha pessoa onde só tu mergulhaste, obrigou-me a pegar na caneta e no papel. Fiz bem? Não terei infringido essa lei não escrita que proíbe à figura de um retrato sair do quadro para falar com o seu pintor?
Tu, amado, sabes a resposta. Dá-ma a saber.


in Os Cadernos de Dom Rigoberto