segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A vida das mulheres


O que me aconteceu que não me apetece fazer amor com o meu marido? As minhas amigas garantem que ao fim de cinco anos de casada é inevitável, a ideia vai deixando de exaltar-nos, até se continua a ter prazer mas não é a mesma coisa, se em vez do meu marido fosse outro qualquer era igual, o tempo mata o entusiasmo e o desejo mas, em compensação, aparecem outras alegrias, sobretudo o facto de ter uma família, uma certa paz, uma rotina no fim de contas agradável, um sentimento de estar protegida, de segurança, de estabilidade embora com os homens nunca se saiba, tão infantis, tão à mercê de entusiasmos, caprichos, qualquer par de pernas os transtorna, as raparigas mais novas põem-nos a ferver mas a segurança e a estabilidade, ainda que precárias às vezes, existem de facto, claro que há separações, divórcios, etc., porém a estabilidade e a segurança, uma certa estabilidade e uma certa segurança existem de facto e depois, uma vez a meio da semana e outra ao fim de semana, lá vem a mãozinha, a perna, o corpo todo, é agradável sem ser muito bom, aquela paz do depois sossega a gente e, para além do sossego, o alívio de saber que por uns dias teremos descanso, jantares com amigos, a televisão, o jornal, a vida é isto, quanto ao fazer amor umas ocasiões é agradável, outras nem tanto, a partir de um certo tempo em comum as coisas tendem a passar-se mais ou menos da mesma maneira, não há grandes variações, não há acrobacias, acabam e levantam-se logo com a desculpa do chichi, do copo de água, das crianças que podem ouvir

(ouvir o quê se acabou?)

parecem aborrecidos connosco, parecem fartos, não respondem, resmungam, não conversam, ficam calados no sofá ou telefonam a um colega do emprego para combinar um jantar a quatro, há quantos meses não jantamos sozinhos, há quantos meses não me beija sem segundas intenções, só por beijar, não me diz nada terno, não me pega na mão, na semana passada perguntei-lhe

- Gostas de mim?

respondeu

- Estou aqui não estou?

parecia que admirado com a pergunta, se ponho um vestido novo anima-se um bocado porque me tornei outra e é a outra que lhe interessa, não eu, a mesma reacção com brincos grandes, mais maquilhagem, saltos altos, a quem é que apetece fazer amor afinal, a mim, a ele, é evidente que não me interessam outros, nem olho, o actor de uma série de televisão mas isso um entusiasmo vago, um

- Como seria se

que conforme aparece se esfuma, quando vamos no carro já me aconteceu pensar no actor, uma espécie de pergunta, porque não chega a pergunta

- Como se seria se

e passa, o meu marido não gosta de conversar enquanto conduz ele que ao princípio conversava imenso

- Não me desconcentres que só temos seguro contra terceiros pergunto-me se o actor me daria atenção ou ao cabo de cinco anos o mesmo, suponho que o mesmo ou antes tenho a certeza que o mesmo, pelo que oiço não há-de haver muitas diferenças entre eles, porque razão nós as mulheres não somos felizes, quer dizer até podemos ser felizes mas não somos felizes felizes e muito menos felizes felizes felizes, também não somos infelizes, é um estado de alma assim assim que o facto de termos uma família vai compondo, uma família, a casa paga, os electrodomésticos pagos, tudo pago, chegarmos juntos para comer nos meus pais que nem sonham que não me apetece fazer amor com o meu marido, até continuo a ter prazer mas não é a mesma coisa, nem pensam nisso em relação a mim, detestam pensar nisso em relação a mim porque continuo a ser menina para eles, se a minha mãe

- Está tudo bem entre vocês? respondo logo que está tudo bem, não se preocupe, nunca esteve tão bem e depois os miúdos graças a Deus são óptimos, tive imensa sorte, sabia, não trocava o que tenho nem por uma mina de ouro, a minha mãe, desconfiada

(aquele instinto das mulheres que ela, apesar dos setenta e três anos, ainda não perdeu)

- Palavra de honra?

enquanto o meu pai e o meu marido jogam às damas e nós na cozinha, em voz baixa, vejo-os daqui debruçados para o tabuleiro, no caso de perguntar à minha mãe e não pergunto, é evidente

- Está tudo bem entre vocês?

ela de súbito quieta, da minha idade e quieta, idêntica a mim

- Está tudo bem, não te preocupes

e não está tudo bem pois não, diga lá, nunca esteve tudo bem e agora é tarde para recomeçar a vida, filha, repara no meu corpo, no meu cabelo, nas minhas pernas, na minha cara, na minha pele, repara como envelheci, nem acredito quando me vejo ao espelho, ao nasceres pensei

- Acabou-se

e desisti, percebes, desisti, mas aparte ter desistido tudo bem, viste o actor daquela série da televisão, filha, talvez não acredites mas já me aconteceu que, não ligues, era uma conversa parva, o que é que me deu hoje, há alturas em que me torno uma adolescente tonta, que ridículo, uma adolescente de setenta e tal anos, que palermice, há alturas, lá ia eu continuar com a conversa, o que me preocupa é que tu estejas bem, a única coisa na vida que me preocupa é que tu estejas bem, o resto não tem importância, que tu estejas bem por mim que não espero seja o que for, passou muito tempo, entendes, demasiado tempo e não há tempo para mim hoje em dia, chega acontecer, vê só a estupidez, chega a acontecer imaginar-me morta e não é inteiramente desagradável, calcula, porque, pensando um bocadinho nisso, desde que me tornei mulher quando é que foi bom viver?

António Lobo Antunes


@http://visao.sapo.pt/a-vida-das-mulheres=f682420

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Sessão de gramártica


Uma pomba vem pousar sobre a porta deste texto.
Desce pelas frases, alisa as penas nas palavras, salta de linha em linha e voa para a tua mão,
enfeitiçada pelos teus olhos. 

Parece-me que ela é o teu coração. 

Resolvo preparar o ninho:
alinho almofadas com desejos, 
dispo o teu corpo de adjectivos, livro-o de advérbios até o sentir nu.
Junto-me a ti, imóvel. 
No silêncio do texto liso, os olhos da pomba sintonizam a nossa respiração. 
Cubro-nos com a sintaxe macia dos lençóis frescos 
e o texto banha-se em luz.
Ficamos assim, longamente repousando 
a substantividade do pronome «Nós».

Acordamos com uma cadência de asas
e sorrimos ao ver a pomba sair pelas janelas do texto. 
Conjugamos verbos reflexos, copulativos, plenos, 
ultrapassando condições e imperativos, 
fundindo todos os tempos do pretérito e do futuro, 
infinitivamente, 
até fundarmos a forma activa do presente significativo.

É então que a pomba volta 
e com uma flor no bico sublinha todo o texto.

Maria Ripichi



quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Imo


Conheço uma palavra que traiu todos os efeitos dos exercícios de repetição: amizade.

Essa felicidade que não se encontra nem se conquista, merece-se.

Ter amigos é reconhecer a nossa imperfeição, é ser inteiro, não possuir, cultivar, é sermos mais porque gostamos não porque é necessário, é ser completo de uma maneira que por vezes nos faz desejar não conhecer mais ninguém. Círculo. Perfeição. Esperança. Escolha. Maravilhosos mundos novos. Milagres onde o coração encontra vida.

Como me fazeis feliz…

Consideremos então a amizade: universo de pequenas coisas, espaço de renovação da luz.

A amizade não é um lugar onde possamos ir sozinhos.

E os amigos: abro janelas para todos os sítios do mundo quando vos quero ver e não estais comigo – que a paz é uma aparência de lugar que poucos conhecerão enquanto não compreenderem a Natureza, ou os Amigos, ou a natureza dos amigos. Algumas janelas abrem para dentro de mim. Na natureza, desde essas janelas, visitam-me os amigos. Abraço-os quando toco as árvores, conversamos quando cantam os pássaros e as folhagens, viajamos juntos quando percorro a braço as ondas e a brisa das falésias me eleva e a visita do entardecer é morna e ‎acalma as fúrias que arrasto comigo. Mas só porque me acompanhais. E assim, estamos sempre juntos.

Concluo sempre que o que me contenta na vida é quanto ainda espero dela e desejo partilhar convosco: amigos são pintores de ilusões, motores de esperança, brisa morna que me aconchega na contrariedade, obra inacabada!

Os dias que nos pertencem, e os que nos pertenceram, mais do que memórias da minha vida são desejos de as continuar a construir convosco. 

Desejo-me a boa-sorte de nunca vos ver partir.

Estranha forma de amar!

Abraços intermináveis, risos longos, saudades terríveis: dos tempos – de todos os tempos, dos amigos – só dos amigos.

Já se detiveram no pensamento das consequências do desaparecimento desses amigos na vossa vida?

Como seria com o vazio da vossa ausência, com o não poder ver mais nem tocar nem falar? Não poder mais!

Não quero.

Como me fazeis falta…

Não sabeis a falta que me fazeis…

Para sempre, convosco, é já ali!

Maria Supertramp