quarta-feira, 14 de maio de 2014

carta da espera

15:16

15:16 de um sábado qualquer. os sábados sempre me pareceram dias quaisquer, dias sem história. é sábado e chove lá fora. chove sobre um dia qualquer. lá fora chove o dia, chove uma alegria miudinha e as coisas alegres sempre me pareceram demasiado póstumas.

da minha janela vejo passar aviões e fumo cigarros. a chuva cai e faz música ao cair. o céu fica sem cor e é tão bonito esse teu olhar triste. és tão bonita. essa espécie de alheamento. tão bonita. essa espécie de altivez delicada.

queimo cigarros. observo o fumo. penso em ti. começa a ser tão viva a tua presença em mim. as tuas ausências também. às vezes não sei muito bem como agir quando estás comigo. então fico só parado a olhar para ti. e tenho a impressão de sorrir muitas vezes. e parece-me sempre que o tempo passa muito depressa. isto deve significar alguma coisa.

ontem apeteceu-me dançar contigo. apeteceu-me. a mim que nunca me apetece dançar. passam-se tantas coisas na minha cabeça quando estou contigo que acho que não posso afirmar com toda a certeza que me tenha apetecido dançar. sei lá. é tudo tão rápido. tantas coisas. mas ontem apeteceu-me dançar contigo. apeteceu-me que ficasses. ver-te acordar depois de te ver dormir. a minha camisa em ti. deves ser ainda mais bonita ao acordar. a tua voz deve ser ainda mais doce. deves ficar linda na minha camisa.

e gosto tanto de te ver rir. penso nisso. fumo o último cigarro. o barulho do cigarro a queimar céu. o céu de coimbra tão mais próximo. gosto tanto de te ver rir.

e de repente parece-me que não faz sentido toda esta merda. é demasiado. gostar de ti. não faz sentido.  demasiado cedo. tudo tão demasiado cedo, o teu sorriso tão cedo tão cedo o teu nome a tua fotografia. os teus passos. esta carta e os voos nocturnos. os teus passos. e pensar que me podes salvar. e saber que te posso salvar. 

ainda não parou de chover. as coisas às vezes são assim. prolongam-se até chegar dentro de nós. depois demoram-se. depois ficam. depois ficam e já não sabemos se são nossas. só nossas.

e no final do dia já não sabemos se são só nossas. e no final do dia voltamos a não ter nada para dizer um ao outro. a não ter nada para dizer. e saber que isso não importa. e saber que o teu cabelo curto não importa. o vestido branco. o vestido branco que nasce de ti. 

sentir o coração a falhar o sangue.

o teu umbigo. o teu ombro. chuva no teu ombro. o amanhecer desperta um segredo. um segredo. a tua cintura. a doçura misteriosa da tua cintura. para lá da dúvida. a forma como o sol queima ao fazer o caminho das tuas pernas. dentro mundo. estamos dentro do mundo.

e eu sei de ti. o eclipse. o mapa. a rebentação em ti. sei de ti. 

beijo a chuva nua no teu ombro. sinto que estou onde devo estar. e tu, tu estás onde deves estar também. tu, tu que és um pequeno milagre.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Carta a Fallorca

Sabes Jorge, a repartição de finanças não é o melhor sítio para chorar. Também não levava lenços. De papel. Tinha nas mãos folhas a que chamam modelos. Modelos a que dão números e tive de os pousar para atender o telefone. E eu, como te disse, choro e rio com a mesma facilidade. Não tenho um coração contido. O inconveniente de chorar nas Finanças é que está tudo com cara cerrada, tudo atento a nada, num quase silêncio e as lágrimas rolam e ouvem-se a cair no chão. O chão, Jorge, era de mármore. Acho que era mármore. Se ainda fosse de cortiça ou um chão de terra batida – era melhor que fosse de terra batida – as lágrimas eram absorvidas e subiam pelo caule das árvores. Tu gostavas de terra e de árvores e de outras coisas que eu não sei. Não tivemos tempo nenhum. Tivemos pouco tempo para que eu pudesse ouvir-te mais, saber mais, aprender mais. É estranho. Ou não. Há pessoas que vejo todos os dias, com quem me cruzo todos os dias e de quem não sei rigorosamente nada. O nome. Às vezes, nem isso. Mas não faz mal ser assim. O que eu te quero dizer Jorge, é que jantamos uma vez, ficamos noite adentro, na conversa, uma vez, fui levar-te à estação uma vez, vimo-nos uma vez e, agora, não voltaremos a vermo-nos. E isto, momentos inesquecíveis, em slide, a passarem-me pela cabeça, no meio da repartição das finanças, é ainda mais absurdo. Se eu te dissesse que ainda a semana passada disse, vou ligar ao Jorge. Se eu te dissesse que, meses depois, voltei a ler o conto e ainda gostei mais das tuas sugestões. Se eu te dissesse Jorge, como a Senhora das Finanças está atenta ao que eu não digo; como me perguntou se eu queria lenços de papel. Haverias de sorrir, creio. E eu, já sentada, protegida por um biombo só consegui dizer, desculpe. Já nem sabia bem ao que ia. Entreguei-lhe os papéis, os modelos, e pensava no modo cerimonioso com que nos chegamos a tratar. Obrigada, Jorge por ter lido. Obrigado, Marta, por me fazer regressar ao Porto após 17 anos. Voltarei com a Nico. E as fotografias que não cheguei a enviar, e o e-mail de que me esqueci a palavra passe. E a tua infância contada por ti, no Gato Vadio, a prender-nos a todos. E a Claudia a passear-nos pelos teus livros, e a Francisca muito atenta, ainda desconhecida, a um canto do bar. E eu, apaixonada, a enviar a Cicatriz do Ar e a Mulher Descalça para o Brasil. A Lelena e o Marcelo, quando souberem. Até o Miguel. Eles gostaram tanto de te ler. A Senhora das Finanças disse que já estava tratado. Que sentia muito. E eu calada, a levantar-me com Cossery, John Berger, Mohamed Choukri, Sebald, Walser, Piglia, David Malouf, Cormac, Salinger, Saint-John Perse, Imre Kertész, Vila-Matas, Llansol, Almeida Faria, Carlos de Oliveira e Luiza Neto Jorge. Saímos das Finanças ao mesmo tempo. Não é o melhor sítio para chorar. Mas quando a Claudia ligou a dizer-me que tinhas morrido, não sabia onde eu estava.

Até sempre Jorge Fallorca.

Marta


segunda-feira, 5 de maio de 2014

Carta ao Filho

filho, já não há sangue do meu correndo nas tuas veias,

há uma humidade opaca nesta ferida,

sinto-me um sopro enchendo a fissura da rocha que sou;

filho, havia ainda um último fósforo, uma dúvida

mais transparente que o ar, a única que não pode haver

entre um pai e um filho, uma árvore ardendo

no meu amor;

filho, hoje o teu rosto parecido com o meu

perdeu os pilares que seguravam as nossas parecenças

e toda a respiração se desmoronou;

filho, meu único filho, perdoa-me hoje

o que sinto de ontem, um desamor injusto e selvagem,

cravado na memória, retroactivo;

o teu pai