segunda-feira, 5 de maio de 2014

Carta ao Filho

filho, já não há sangue do meu correndo nas tuas veias,

há uma humidade opaca nesta ferida,

sinto-me um sopro enchendo a fissura da rocha que sou;

filho, havia ainda um último fósforo, uma dúvida

mais transparente que o ar, a única que não pode haver

entre um pai e um filho, uma árvore ardendo

no meu amor;

filho, hoje o teu rosto parecido com o meu

perdeu os pilares que seguravam as nossas parecenças

e toda a respiração se desmoronou;

filho, meu único filho, perdoa-me hoje

o que sinto de ontem, um desamor injusto e selvagem,

cravado na memória, retroactivo;

o teu pai

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