quarta-feira, 31 de julho de 2013

Carta a Ana Olímpia

Minha doce Princesa, 
Paris, Dezembro de 1872

É Dezembro em Paris. Era Já Dezembro quando parti de Luanda deixando para trás o esplendor do teu olhar. E há-de ainda ser Dezembro depois de terminar o mês, e a seguir virá Dezembro e o Inverno, e novamente Dezembro e sempre assim, até que de novo eu retorne à Estação do Sol, que é em toda a parte todo o instante que o teu olhar ilumina.
Faz Dezembro em Paris. Após três semanas de neve e de frio as aguas do Sena degelaram, engrossaram, e como uma imensa jibóia enfurecida  será talvez Muene-Zambi-dia-Menha, a divindade das águas de que tanto me falaste   o rio saltou sobre a cidade atropelando as pontes, arrancando árvores, atacando casas, prédios e monumentos nacionais.
O nevoeiro cobre tudo como uma noite branca. Em pleno meio-dia as carruagens circulam com as lanternas acesas, enquanto nas esquinas grupos de polícias, segurando tochas, indicam o caminho aos pobres náufragos. Junto ao Arco do Triunfo, onde se reúnem doze avenidas, foram acesas altas fogueiras, mas a mais de duzentos metros já ninguém as vê. Os cocheiros perdem-se na bruma e vagueiam pela cidade como assombrações, com os passageiros aos uivos e os cavalos enlouquecidos, havendo casos de carros que caíram ao rio e de outros que se esmagaram contra árvores ou edifícios.
Nesta cidade assim anoitecida é a memória da tua luz que me guia e conforta.Vejo-te, constantemente te vejo, como pela primeira vez te vi, rondando belíssima nas voltas da rebita ou meditando gravemente na Muxima, sozinha na capela, enquanto lá fora o rio imóvel sob o largo sol, a paisagem solene, o céu sem mácula, pareciam em silêncio meditar contigo. Vejo-te depois atravessando a galope a Praia dos Veados. Vejo-te rir ao longe e o teu riso chega até mim traduzido pela brisa, salgado e fresco, húmido e forte, e eu volto a sentir, como então senti, a viva presença da Vida.
Quando me perguntaste, respirando exausta o mesmo ar que eu - e agora? - não soube o que responder. Três meses mais tarde ainda não conheço a resposta. Fui nómada a vida inteira. Atravessei metade do mundo, desde Chicago até à Palestina, desde a Islândia até ao Sahara e nunca soube que nome dar a essa errância aflita. Hoje sei que estava à tua procura. Sei que ao deixar Luanda fez-se Dezembro e que desde então o Inverno ronda como um lobo esfomeado à minha volta.
Pretende Darwin que os homens descendem do macaco e na maior parte dos casos será assim - foram descendo. Creio porém, que com a minha família aconteceu o inverso, e ela se foi erguendo desde esse símio original até ao rude lusitano. Veio depois Afonso Henriques, vieram gerações de marinheiros e navegantes, os Açores foram descobertos e povoados, e nasci eu. De toda esta gesta oceânica resta-me um primo, o Louco André, que há vários anos comanda nos mares do norte um brigue aparelhado para a difícil pesca ao bacalhau.
Viajei com ele no Outono de 1850 (agrada-me pensar que quando nasceste eu atravessava o rumor branco dos mares da Gronelândia) e tive então oportunidade de lhe conhecer a alma, desenvolvida à media e semelhança da natureza generosa e pura. Uma noite, já não sei a propósito de que brutalidade ou injustiça, explodiu um motim a bordo e os marinheiros amarraram-no e tomaram o comando do navio. Enquanto decidiam o que fazer com ele - as opiniões dividiam-se entre lançá-lo ao mar ou dar-lhe uma sova - pousaram-no na amurada. A discussão foi-se arrastando até que por fim André soltou um grande brado: «Ou para dentro ou para fora, malandragem! Aqui é que não que já me doem as costas!»
Queres saber, amor, porque te conto este episódio? Porque, como ao meu primo André, inquieta-me menos o meu destino do que esta absurda espera. Escreve, diz-me o que decidiste. Condena-me ao Inverno ou salva-me dele.
Teu,

Fradique

P.S.
Os marinheiros puxaram André para dentro, desamarram-no e ele retomou o comando do navio. Nenhum foi castigado.


in Nação Crioula

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Carta a Fátima

Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»... E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes...


Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.


Hoje, encontrarias um outro homem; havia de rir-me do teu corpo, da sua entrega ou das suas traições, de tu me dizeres: «Vem» ou «Adeus...», ou «Não quero...». Hoje, saberias quem fizeste com uma só palavra, conhecerias um outro homem, que é obra tua, minha segunda mãe! Hoje, havia de rir ou chorar, era a máscara do momento; mas diria: tanto faz..., tanto me faz... Sabia-o!

Luiz Pacheco

quarta-feira, 10 de julho de 2013

as mãos

as mãos. as tuas mãos. as mãos.

são minhas as tuas mãos. são perfeitas.

vou gostar de ver acender-se cada ruga das tuas mãos, porque cada ruga trará um pouco mais de perfeição, um pouco mais de tempo, um pouco mais de nós.

os teu pulsos. o impossível equador. os teus pulsos são meus. o interior dos teus pulsos. os domingos com pássaros no parapeito da janela a anunciar os domingos e a chegada da primavera, as cerejas, as flores. no interior dos teus pulsos que cabem na minha mão fechada as flores, a estação inteira.

o teu nome. esse que repito baixinho. o teu nome. gosto tanto do teu nome. a transparência do teu nome que é perfeito como as tuas mãos. o teu nome de que gosto tanto. por isso o repito tantas vezes, por isso baixinho para que ninguém o roube ou te esqueças de mim. o teu nome que é uma oração delicada um delicado beijo a lembrar a ternura da casa inteira.

o teu sorriso. a forma como se desenha o teu sorriso nas fotografias. nós nas fotografias nós fotografias das viagens que fazemos para lá dos livros para lá do teu sorriso, nós por dentro das músicas que nos descobrem e a minha cabeça nos teus joelhos a sonhar poemas tão bonitos como o sorriso que escondes e se desenha nas fotografias, nas minhas mãos, na pele, dentro de mim. eu parado a olhar para ti, eu parado, eu a olhar para ti e a gostar de ti. eu só parado a gostar de ti. a gostar de ti.

os teus livros. os teus livros que têm cheiro, que quando nos tocam ficamos com o seu cheiro na ponta dos dedos, os teus livros que nos perfumam a ponta dos dedos e a cama e os lábios quando os cheiramos tão de perto. os teus livros que são todo o azul do mar mais o azul do céu mais o azul que se encontra em todas as coisas de que se pode gostar, até nas mais pequeninas: portas azuis: janelas azuis: sonhos azuis de manhãs azuis e céu, muito céu, e horas, muitas as horas, e flores e coisas simples e as coisas simples e belas de que se fazem os corações mais bonitos e a felicidade. os teus livros que são pequenas viagens às cores dos fins de tarde: aos laranjas à transcendência ténue dos amarelos aos risos e às conversas com pessoas que apetecem muito. e por isso os teus livros são também um grande amor, uma esplanada ou alguém de quem se pode gostar muito, ter saudades, apertar contra o peito. alguém que esperamos. porque o delicadamente maravilhoso faz-se esperar.


sei que há um banco virado para o mar. sei que é nesse banco que vou estar.