quinta-feira, 8 de maio de 2014

Carta a Fallorca

Sabes Jorge, a repartição de finanças não é o melhor sítio para chorar. Também não levava lenços. De papel. Tinha nas mãos folhas a que chamam modelos. Modelos a que dão números e tive de os pousar para atender o telefone. E eu, como te disse, choro e rio com a mesma facilidade. Não tenho um coração contido. O inconveniente de chorar nas Finanças é que está tudo com cara cerrada, tudo atento a nada, num quase silêncio e as lágrimas rolam e ouvem-se a cair no chão. O chão, Jorge, era de mármore. Acho que era mármore. Se ainda fosse de cortiça ou um chão de terra batida – era melhor que fosse de terra batida – as lágrimas eram absorvidas e subiam pelo caule das árvores. Tu gostavas de terra e de árvores e de outras coisas que eu não sei. Não tivemos tempo nenhum. Tivemos pouco tempo para que eu pudesse ouvir-te mais, saber mais, aprender mais. É estranho. Ou não. Há pessoas que vejo todos os dias, com quem me cruzo todos os dias e de quem não sei rigorosamente nada. O nome. Às vezes, nem isso. Mas não faz mal ser assim. O que eu te quero dizer Jorge, é que jantamos uma vez, ficamos noite adentro, na conversa, uma vez, fui levar-te à estação uma vez, vimo-nos uma vez e, agora, não voltaremos a vermo-nos. E isto, momentos inesquecíveis, em slide, a passarem-me pela cabeça, no meio da repartição das finanças, é ainda mais absurdo. Se eu te dissesse que ainda a semana passada disse, vou ligar ao Jorge. Se eu te dissesse que, meses depois, voltei a ler o conto e ainda gostei mais das tuas sugestões. Se eu te dissesse Jorge, como a Senhora das Finanças está atenta ao que eu não digo; como me perguntou se eu queria lenços de papel. Haverias de sorrir, creio. E eu, já sentada, protegida por um biombo só consegui dizer, desculpe. Já nem sabia bem ao que ia. Entreguei-lhe os papéis, os modelos, e pensava no modo cerimonioso com que nos chegamos a tratar. Obrigada, Jorge por ter lido. Obrigado, Marta, por me fazer regressar ao Porto após 17 anos. Voltarei com a Nico. E as fotografias que não cheguei a enviar, e o e-mail de que me esqueci a palavra passe. E a tua infância contada por ti, no Gato Vadio, a prender-nos a todos. E a Claudia a passear-nos pelos teus livros, e a Francisca muito atenta, ainda desconhecida, a um canto do bar. E eu, apaixonada, a enviar a Cicatriz do Ar e a Mulher Descalça para o Brasil. A Lelena e o Marcelo, quando souberem. Até o Miguel. Eles gostaram tanto de te ler. A Senhora das Finanças disse que já estava tratado. Que sentia muito. E eu calada, a levantar-me com Cossery, John Berger, Mohamed Choukri, Sebald, Walser, Piglia, David Malouf, Cormac, Salinger, Saint-John Perse, Imre Kertész, Vila-Matas, Llansol, Almeida Faria, Carlos de Oliveira e Luiza Neto Jorge. Saímos das Finanças ao mesmo tempo. Não é o melhor sítio para chorar. Mas quando a Claudia ligou a dizer-me que tinhas morrido, não sabia onde eu estava.

Até sempre Jorge Fallorca.

Marta


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