quarta-feira, 24 de abril de 2013

carta breve ao meu pai


esta carta é para ti que me ensinaste a olhar, a prestar atenção, a querer conhecer, a querer tocar e sentir sem tocar e sentir, a querer o mundo e os mundos para lá dos meus braços agarrados aos teus joelhos. 

não morreste pai, não morreste.  estás vivo e não só nas fotografias e nos meus gestos que te repetem e nos sonhos onde continuamos a ter conversas de melhores amigos. não morreste.

e Leça foi primeiro contigo     Leça

e eu fui primeiro contigo    eu

em pequenos gestos que te repetem

e ainda hoje gosto quando as pessoas que te conheceram me dizem que sou parecido contigo, embora nunca saiba muito bem o que querem dizer com isso.

como gosto de me ver anotar tudo como tu em papéis soltos que nunca hão-de servir para nada e que dificilmente visitaremos porque não passam de isso mesmo papéis soltos que nunca hão-de servir para nada. nos dias felizes ainda visito os teus que vou apanhando e juntando e visitando e visitando sempre como se fosse a primeira vez.

não morreste. tu que me meteste os livros na pele, na pele o vício pelas enciclopédias todas, que em ensinaste a ler deitado de costas a olhar para o céu, porque é isso que um livro é, um céu, mais real mais puro mais nosso. não morreste tu que me deste o Gilé o Limpopo o porto de Nampula mais o Douro, o nosso Douro, com o Tua, o nosso Tua, muito bem escondido.

e gosto sobretudo que me tenhas dado a minha mãe,  que tenhas escolhido para minha mãe a minha mãe.

e continuo muitas vezes agarrado à tua perna enquanto tentas andar. e sei que muitas vezes é a tua perna que me segura, que me ampara, que me ensina a caminhar. e sei que nesses momentos serei sempre criança e irei sempre contigo para todo o lado como quando era criança e que estarás sempre comigo.

e Leça foi primeiro contigo, pai    Leça foi primeiro contigo 

o farol, a marginal, a casa de chá, as rochas da pequena capela onde muitos anos mais tarde me encontravas a namorar e a Petrogal, as horas na praia a imaginar que quando crescesse gostaria de ter o emprego daquele gigante que se dedicava a fabricar ondas, todas as ondas do mundo, a fabricar a música que toca nos dias de maior tempestade.

e o Porto primeiro contigo, a Pesqueira, o Pinhão, a Régua e o Mutaca que me mostrou quantas eternidades uma gargalhada pode ter, Lisboa e o Barata, e a sua caldeirada de marisco que ficava quase tão boa como a do Michel com a diferença deste lamber a colher de pau na televisão, o Silva e o Vieira, Torres Vedras e o Vilas, o Dinis e Campo de Jales de que nunca conheci mais do que a casa do Dinis e onde nunca mais voltei, e o Couto e os verões em Afife e os rebuçados e os gelados da fábrica de Afife, o Couto que também não morreu, pai    e não morrerá nunca.

lembro-me desses grandes amigos muitas vezes e desse maravilhoso hábito antigo de os grandes amigos se trataram pelo sobrenome  e sacana e uma gargalhada, o sacana do Silva, o Neves o sacana locomotiva a ressonar, e o sacana do tio Augusto sempre com as suas histórias, os ataques cardíacos de deixar o seu cigarro e o seu comunismo secular, o sacana do tio Augusto que me visita tantas vezes como tu que estás sempre aqui.

e o futebol primeiro contigo, as Antas, os recortes nos jornais, a dragões, os relatos e o vinho para festejar com o Madjer, o Futre, o Gomes o Geraldão

obrigado por existires, pai. e obrigado por semeares África no meu coração. obrigado por existires e seres tu, pai. e obrigado por me ensinares da importância das lágrimas, até das que não choramos, sobretudo das que não choramos. obrigado também pelas madrugadas no golfo, pelas tardes da malha e da sueca, as tardes a viajar. e obrigado pela cebola o sal e o pão, divindade tríplice, a ovas de bacalhau de que só gostei enquanto comias comigo, pela melhor sopa de cebola do mundo, o melhor abraço do mundo num difícil dia de ressaca. obrigado por tudo isto e sobretudo obrigado por tudo o que não está aqui escrito, mas está aqui.

fazes-me muita falta, pai. fazes muita falta.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Carta de Milfontes


Foi em 1978, no verão, que te conheci. Nesse ano, num dos poemas de «doze moradas de silêncio» citei Rilke: «Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém - é a isto que é preciso chegar.»
Depois, a paisagem onde nos encontrámos, desapareceu, a pouco e pouco, num desfocado adeus. Eu escrevia, fechado num quarto de pensão, e tu retiravas-te do meu quotidiano.
Morrias longe de mim.
O corpo que hoje regressa a Milfontes, já não é o corpo esplêndido que conheceste. Se há coisas na vida que contam com o tempo, são a amizade e a velhice. (O tempo fez-me perder a primeira, enquanto acentuava a segunda.)
O olhar embaciou-se para o que me rodeia. Hoje, sem ti, já não consigo pressentir a sombra magnífica da noite sobre o rio. Nada se acende em mim ao escrever-te esta carta.
Só a foz do rio parece guardar a memória duma fotografia há muito rasgada. O vento, esse, persegue a melancolia dos passos pelas dunas.
É possível que os verões ainda sejam o que eram... com os corpos estendidos ao sol, e a oferenda de um sorriso malicioso a confundir-se com o marulhar das águas.
Mas ninguém possui verdadeiramente alguma coisa. As coisas do mundo pertencem a todos e, sobretudo, a quem aprendeu a nomeá-las. E eu já não consigo nomear nada. Não me lembro sequer de um nome que resuma o movimento desastroso dos dias.
O teu rosto deixou de se acender na ilusão de te possuir mais uma noite.
Nada evoca esse tempo de frémitos de asas sobre a pele. Nenhum rumor do rio sobe até mim. Nenhuma ferida ficou por sarar.
Deixei que os ventos e as chuvas apagassem o desejo no rastro dos répteis incandescentes. Sinto-me como a haste quebrada da urze ao abandono nas areias varridas pelo oceano.
Contemplo as dunas, o casario contra a noite que se fecha, as luzes, o rio, as sombras das pessoas, o mar como uma lâmina sob a lua - e a ausência alastra em mim, cortante.
Sento-me onde, dantes, me sentava contigo, perto do farol. O que me rodeia move-se no interior surdo de suas próprias sombras. É um movimento invisível através de territórios que o olhar mal assinala. Concentro a minha atenção nesses lugares que a luz não pode alcançar. Lugares escuros onde se escondem receios antigos e desilusões.
Mantenho-me imóvel, tacteio teu rosto diluído na salina claridade do entardecer.
Adormeço ou começo a subir o rio para fugir à imensa noite do mar.
...
Escreve-me, peço-te, enquanto a tua imagem permanece nítida perto de mim.
...
Vou prosseguir viagem assim que o dia despontar e o som do teu nome, gota a gota, se insinue junto ao coração.

Al Berto

in Anjo Mudo

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Palavras brotam do teu corpo

Palavras brotam do teu corpo - águia, água, anjos, alento, amado, amante, ar, ar, árvore de fruto, árvore florida, árvore de sombra, barco, beijos, beijos, bombom, braços, brandura, brisa morna, cisne, cálice, canto, colina, cristal, dança, delírio, devaneio, doce desassossego, discrição, Eros, espuma, febre, fogo, felino, frescura, golfinho, hino meu, horizonte, íntimo, lago, lírio, lima-limão-laranja, luz, madrugada, mar azul, mansidão, mel, morango, onda que explode e se espraia, pássaro, pétala, perdição, persistência, poema em carne e osso, pêssego, planície, primavera, príncipe, quietude, rosa, seda, segredo, sossego, sol, sorriso, suave, tenso, ténue, vale, veludo, verdade, vermelho, violino, vigor, vulcão.

Maria Ripichi

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Carta de Amor


Excelentíssima Senhora: 
Creio que esta carta não poderá absolutamente surpreendê-la. Deve ser esperada. Porque V. Excelência compreendeu com certeza que, depois de tanta suplica desprezada sem piedade, eu não podia continuar a sofrer o seu desprezo.

Dizem que V. Ex.cia. me ama. Dizem, porque da boca de V. Excia., nunca me foi dado ouvir essa declaração. Como, porém, se compreende que, amando-me V. Excia., nunca tivesse para mim a menor palavra afectuosa, o mais insignificante carinho, o mais simples olhar comovido? Inúmeras vezes lhe pedi humildemente uma palavra de consolo. Nunca a obtive, porque V. Excia. ou ficava calada ou me respondia como uma ironia cruel. Não posso compreendê-la: perdi toda a esperança de ser amado.

Separemo-nos.Para que hei-de eu, que a amo tanto, fazer a sua desgraça? É preciso que V. Excia. saiba que a minha vida tem sido um grande combate. Já sofri fome: sobre essa miséria criei a minha independência. Chamaram-me infame: sobre essa afronta criei a minha honestidade. Chamaram-me estúpido: sobre essa injustiça criei o meu talento. E foi sobre esses três alicerces que eu edifiquei o meu orgulho. Amo-a tanto, que esta separação há-de cedo ou tarde matar-me. Acima, porém, do meu amor está o meu orgulho. Não o quebrei aos pés do meu pai, não o quebraria aos de minha mãe: não posso, nem quero, quebrá-lo aos pés de V. Excia. Creio que nos valemos, minha Senhora: V. Excia. está muito acima de todas as outras mulheres, mas não está acima de mim. Há-de reconhecer que nunca houve um noivado cercado de tanto gelo e de tanta indiferença. Por quê? Talvez porque V. Excia. acredite que os homens devem viver esmagados pelas mulheres. Concordo. Mas isso é bom quando se trata de homens vulgares: e eu não sou um homem vulgar. Quando, pela última vez, nos falamos, eu preveni V. Excia. de que tomaria esta resolução, se não se modificasse o seu modo de proceder. Desta vez, como de todas as outras, ficou V. Excia. impassível. Que me perdoe, ter perturbado a tranquilidade da sua existência. Mas eu amava-a muito, amava-a como ainda amo, e queria, depois de tanta luta e de tanto sofrimento, ter um pouco de felicidade. Perdoe-me e fique certa de que para seu sossego, nunca mais me verá.

                                                                                    Olavo Bilac

carta a D. MARIA DA CONCEIÇÃO M. SELIKA DA COSTA

terça-feira, 2 de abril de 2013

Carta de António Lobo Antunes a Maria José


7.4.1971

Meu amor querido

Adoro-te minha gata de Janeiro meu amor minha gazela meu miosótis minha estrela aldebaran minha amante minha Via Láctea minha filha minha mãe minha esposa minha margarida meu gerânio minha princesa aristocrática minha preta minha branca minha chinezinha minha Pauline Bonaparte minha história de fadas minha Ariana minha heroína de Racine minha ternura meu gosto de luar meu Paris minha fita de cor meu vício secreto minha torre de andorinhas três horas da manhã minha melancolia minha polpa de fruto meu diamante meu sol meu copo de água minhas escadinhas da Saudade minha morfina ópio cocaína minha ferida aberta minha extensão polar minha floresta meu fogo minha única alegria minha América e meu Brasil minha vela acesa minha candeia minha casa meu lugar habitável minha mesa posta minha toalha de linho minha cobra minha figura de andor meu anjo de Boticelli meu mar meu feriado meu domingo de Ramos meu Setembro de vindimas meu moinho no monte meu vento norte meu sábado à noite meu diário minha história de quadradinhos meu recife de Manuel Bandeira minha Pasargada meu templo grego minha colina meu verso de Höderlin meu gerânio meus olhos grandes de noite minha linda boca macia dupla como uma concha fechada meus seios suaves e carnudos meu enxuto ventre liso minhas pernas nervosas minhas unhas polidas meu longo pescoço vivo e ágil minhas palavras segredadas meu vaso etrusco minha sala de castelo espelhada meu jardim minha excitação de risos minha doce forquilha de coxas minha eterna adolescente minha pedra brunida meu pássaro no mais alto ramo da tarde meu voo de asas minha ânfora meu pão de ló minha estrada minha praia de Agosto minha luz caiada meu muro meu soluço de fonte meu lago minha Penélope meu jovem rio selvagem meu crepúsculo minha aurora entre ruínas minha Grécia minha maré cheia minha muralha contra as ondas meu véu de noiva minha cintura meu pequenino queixo zangado minha transparência de tules minha taça de oiro minha Ofélia meu lírio meu perfume de terra meu corpo gémeo meu navio de partir minha cidade meus dentes ferozmente brancos minhas mãos sombrias minha torre de Belém meu Nilo meu Ganges meu templo hindu minha areia entre os dedos minha aurora minha harpa meu arbusto de sons meu país minha ilha minha porta para o mar meu manjerico meu cravo de papel minha Madragoa minha morte de amor minha Ana Karénine minha lâmpada de Aladino minha mulher.

António

in D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto - Cartas da Guerra