quinta-feira, 11 de abril de 2013

Carta de Amor


Excelentíssima Senhora: 
Creio que esta carta não poderá absolutamente surpreendê-la. Deve ser esperada. Porque V. Excelência compreendeu com certeza que, depois de tanta suplica desprezada sem piedade, eu não podia continuar a sofrer o seu desprezo.

Dizem que V. Ex.cia. me ama. Dizem, porque da boca de V. Excia., nunca me foi dado ouvir essa declaração. Como, porém, se compreende que, amando-me V. Excia., nunca tivesse para mim a menor palavra afectuosa, o mais insignificante carinho, o mais simples olhar comovido? Inúmeras vezes lhe pedi humildemente uma palavra de consolo. Nunca a obtive, porque V. Excia. ou ficava calada ou me respondia como uma ironia cruel. Não posso compreendê-la: perdi toda a esperança de ser amado.

Separemo-nos.Para que hei-de eu, que a amo tanto, fazer a sua desgraça? É preciso que V. Excia. saiba que a minha vida tem sido um grande combate. Já sofri fome: sobre essa miséria criei a minha independência. Chamaram-me infame: sobre essa afronta criei a minha honestidade. Chamaram-me estúpido: sobre essa injustiça criei o meu talento. E foi sobre esses três alicerces que eu edifiquei o meu orgulho. Amo-a tanto, que esta separação há-de cedo ou tarde matar-me. Acima, porém, do meu amor está o meu orgulho. Não o quebrei aos pés do meu pai, não o quebraria aos de minha mãe: não posso, nem quero, quebrá-lo aos pés de V. Excia. Creio que nos valemos, minha Senhora: V. Excia. está muito acima de todas as outras mulheres, mas não está acima de mim. Há-de reconhecer que nunca houve um noivado cercado de tanto gelo e de tanta indiferença. Por quê? Talvez porque V. Excia. acredite que os homens devem viver esmagados pelas mulheres. Concordo. Mas isso é bom quando se trata de homens vulgares: e eu não sou um homem vulgar. Quando, pela última vez, nos falamos, eu preveni V. Excia. de que tomaria esta resolução, se não se modificasse o seu modo de proceder. Desta vez, como de todas as outras, ficou V. Excia. impassível. Que me perdoe, ter perturbado a tranquilidade da sua existência. Mas eu amava-a muito, amava-a como ainda amo, e queria, depois de tanta luta e de tanto sofrimento, ter um pouco de felicidade. Perdoe-me e fique certa de que para seu sossego, nunca mais me verá.

                                                                                    Olavo Bilac

carta a D. MARIA DA CONCEIÇÃO M. SELIKA DA COSTA

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