quarta-feira, 27 de março de 2013

A MATILDE URRUTIA

A MATILDE URRUTIA


Senhora minha muito amada, grande foi o meu sofrimento ao escrever estes mal chamados sonetos, que bastantes dores me causaram, mas a alegria de tos oferecer é maior que um pranto. Ao decidir-me a escrevê-los, bem sabia que ao lado de cada um, por afeição, escolha e elegância, os poetas de todas as épocas colocaram rimas que soaram como joalharia, cristal ou tiro de canhão. Eu com muita humildade fiz estes sonetos de madeira, dei-lhes o som desta opaca e pura substância e assim devem chegar aos teus ouvidos. Caminhando por bosques e areais, por lagos perdidos, por cinzentas latitudes, tu e eu recolhemos fragmentos de pau puro, de lenhos submetidos ao vaivém da água e da intempérie. De tais suavizadíssimos vestígios construí, com machado, faca, navalha, estas estâncias de amor e edifiquei pequenas casas de catorze tábuas para que nelas vivam os teus olhos que adoro e canto. Assim estabelecidas as minhas razões de amor, entrego-te esta centúria: sonetos de madeira que só existem porque tu lhes deste vida.


Outubro de 1956

Pablo Neruda

[oferecendo-lhe o seu Cem Sonetos de Amor]

segunda-feira, 18 de março de 2013

começou a chover no princípio do mundo


será que lhe falaste de mim?

quando tenho soluços penso que vai ser para sempre. sustenho a respiração para sempre.

a 2700 pés de altitude o meu coração arde a cidade arde 

quem disse que o tempo cura não sabe que o tempo mata. um bocadinho hoje um bocadinho amanhã. quem disse que o tempo cura não sabe. quem disse que a altitude salva não sabe que a noite é uma oração sem mar. 

quando tenho soluços penso

será que ele sabe que são os meus versos que descobrem as tatuagens da tua pele: que aprendemos juntos a contar as ondas dos mares de inverno: que parti tantas vezes desta cidade em navios inexistentes que só nós víamos, navios que me levaram a beijar todos os mares que se recolhem na concha do teu corpo: que os domingos eram para o amor e a poesia e as segundas e as terças mais todos os outros dias que sem nós só calendários vazios: que tu és apenas o que restou depois dos calendários vazios e que eu não sou nada

não sei das flores e dos caminhos que me abrem as estações

quando tenho soluços penso que vai ser para sempre. sustenho a respiração para sempre. penso

será que ele sabe das vezes que tive que chantagear deus, antecipar-me a ele, instrumentalizá-lo, gritar-lhe quando ele surdo aos meus apelos, desafiá-lo para um duelo em campo aberto, corações ao vento, mortais os dois, ele mais mortal do que eu pela promessa do teu amor.

do mais profundo lugar do esquecimento sei que estou em cada gesto teu a cada segundo em cada respiração. as tuas fronteiras  não são mais do que a geografia acabada das minhas lágrimas, da minha língua, da minha vida. 

devias sentir mais a minha falta: devia doer-te mais: devias aparecer menos vezes: as tuas mãos deviam suar mais ao lembrares-te de mim ao respirares ao respirares embora eu em cada gesto teu segundo respiração.

a 2700 pés de altitude 

a luz daquele barco acendeu-se de novo. a luz daquele barco acendeu de novo uma espécie de silêncio de gaivotas nocturnas que teima em pousar lentissimamente nas mãos a terrível evidência do amor: só por cima do mar nas varandas mais altas se pode tocar o céu para lá dos enganos. estamos a tocar o céu agora e por cima das nuvens a chuva queima novembros adormecidos.

do nosso quarto também se podia tocar o céu mover a palavra vencer o erro. do nosso quarto de onde partiam barcos partiu um barco

e ainda assim sei que estou em cada gesto teu a cada segundo em cada respiração. sei. e às vezes torna-se difícil respirar. e às choro. às vezes choro e torna-se ainda mais difícil respirar. às vezes escrevo. às vezes como hoje choro e não gosto. às vezes minto. e às vezes ainda te ouço e rio e esqueço-me de chorar.

às vezes esqueço-me de morrer baixinho. e às vezes esqueço-me que sabes.

começou a chover no princípio do mundo

e sei que ele não sabe, mas espero que te faça feliz 

mesmo que me apagues de ti


terça-feira, 12 de março de 2013

the proposal

Gosto muito de muito em ti: que não saibas onde se guardam as coisas, que finjas saber a resposta quando te pergunto se o azul se o verde; gosto da abrasão gentil da tua barba e do modo como sorves o cigarro e soltas o fumo de lado, para que não me acerte na cara. De dizer o teu nome em voz alta. Gosto. De quando me telefonas e me cantas um sucesso gasto do cançonetismo pimba, concentrado nas doze cordas, a esfumaçares saudades em espiral pelo canto da boca. Gosto da meiguice desmedida, desse jorro de ternura que não me dá tréguas, e que todos os teus poros façam por me agradar, embora me agrades tanto com tão pouco esforço, naturalmente, assim como se respirasses. Gosto das toalhas molhadas que te esqueces de pôr a secar, do botão do forno que afinal não ligaste, da carne que só está pronta no dia seguinte; e que me descubras a um domingo uma garrafa de licor de café, quando o corso na rua, com as crianças geladas de frio nas suas asinhas douradas, escudadas por matrafonas gordas, tanto me aperta o coração como me mata de riso. Gosto de quando te perdes na linguagem crua do prazer e dizes que me fazes e me aconteces e que eu isto e aquilo, enquanto as tuas mãos substituem algures em ti a minha boca; e gosto da voz grossa e arrastada, desse elã melancólico feito de poesia, uisqui velho, infância feliz e sons da rádio. Da canção de intervenção sempre na ponta da língua, dos ideais socialistas que fraquejam na incongruência do sotaque beto, e do elitismo bairrista que por vezes te sacaneia as convicções de esquerda. Gosto que não precises de olhar pra trás quando passa uma mulher bonita, que nunca me largues da mão quando andamos na rua e que me agarres e me puxes quando um carro se aproxima da berma. Gosto da coragem com que entraste na minha vida, da inconsciência juvenil com que abriste caminho em mim e do espírito de aventura com que me desbravaste tristeza fora; e gosto dessa insegurança tão masculina de quem que não tem a veleidade sequer de sondar a parafernália esquizóide que são os mistérios femininos. Gosto de te ser muitas coisas: a tua deusa, o teu dormir, a tua dona, o teu pleito; um aviso pela manhã, um rebate de consciência, um aperto no coração, um consolo, um eco, pontas soltas, arritmias, formigueiro. E gosto dessa tesão a desoras, quando me adivinhas de costas no escuro (o meu corpo desprevenido enquanto o resto à solta, em sonhos indecifráveis).

Sofia Vieira

in Um Amor Atrevido @http://umamoratrevido.blogs.sapo.pt 

sexta-feira, 8 de março de 2013

haverá sempre as ruas em que o Porto não existiu


haverá  sempre as ruas em que o Porto não existiu

à velocidade com que te ponho nua aqui e reinvento o papel da literatura e da mulher

— e troco toda a poesia por uma vida feita de rotinas de ti

e terás sempre nome, serão sempre para ti os dias, ainda que os pássaros se calem nas persianas que se fecham atrás do mar

— e não volto a dizer amo-te

— já não me dizes amo-te

nas noites em que volto ao entardecer de signos e dedos que se tocam e perpetuam a saudade (até a que não se têm às horas certas do nada) e fazem nascer o grito e gritam o grito que fizeram nascer temerariamente, assim como quem diz amo-te digo

amo-te

tão temerariamente como se o grito parisse a noite que se pare sozinha enquanto volto ao entardecer de signos e dedos que se tocam e perpetuam as cinzas da saudade de ver nascer o mundo naquela noite em que mudei o nome a Barcelona, salvei Gaudí,  vi Istanbul como veio ao mundo 

— e sei que já não me escreves

e continuo sem saber porquê, como se precisasse de saber porque não volto a dizer amo-te, nem Istanbul, nem te mudo o nome  que os meus braços serão sempre o teu bunker, ainda que não os queiras na vertigem dos segundos em que persigo o rasto das gaivotas a apagar-se no rasto das memórias de um orgasmo que inventaste para mim enquanto te olho e penso que nunca mais digo amo-te porque a palavra já não significa nada quando se torna menor que o Amor

— e não volto a ser Fevereiro, e tu sabes porquê e não to digo, nem Março, não volto a ser Fevereiro nem Março

— serás sempre Novembro

e também não quero ser Novembro e não volto a ser Fevereiro nem Março nem BarcelonanasruasemqueoPortonãoexistiu

no suor da poesia entre as pernas, versos derrotados por cima das roupas que descobrem dois corpos esgotados pela luz num improvável campo de batalha que revela beijos tatuados por debaixo do céu da pele e que se esquecem no tremor das pernas que confirma o inevitável

— não volto a dizer amo-te…

quarta-feira, 6 de março de 2013

Carta de amor

J. J. Silva Garcia, cidadão quase anónimo. Encontrou Manuela, então aluna de História e hoje professora, numa viagem de comboio e depois na biblioteca da cidade. Saíram juntos pela primeira vez num primeiro de Abril. Casaram-se em Maio, não no que se seguiu, mas alguns anos depois. Noutros meses de Maio mais adiante, nasceram a Catarina e a Sara. Arquitecto, correndo riscos por causa da tentação do traço e da tentação pelas palavras, escreve carta à mulher no dia do vigésimo quinto aniversário de vida em comum.



M.

Num dia que guardarei na colecção dos que são únicos, e que repete, vinte e cinco anos depois, o dia mais do que único, quis fazer-te uma espécie de poema, propositadamente incompleto... Poesia, serpenteando por entre linhas infinitas, carregando em cada linha uma orquídea branca... E, em cada linha por terminar, um sonho que se inicia... em cada letra de cada sonho um beijo... e em cada beijo o tempo que foi e, sobretudo, o tempo que quero que seja contigo, de novo, para sempre... No tempo que flui, na emoção de nos vermos para além do contorno dos nossos corpos dissolvidos num único oceano, e da alma que cresceu por juntar a energia de todos os astros que havia em nós.
Quis fazer um poema propositadamente incompleto... Trazer aqui outra essência, a da transformação do Amor, na esperança da Catarina e nas quimeras da Sara... Por causa de vinte e cinco anos, quis fazer uma espécie de poema propositadamente incompleto, cantar o amor desatado pelo primeiro orvalho da manhã... Quis entender o sentido do mar na voz infinita dos búzios... desenhar incompleto essa espécie de poema apenas por estratégia... para ter tempo de ouvir a música que nasce do teu peito... em todas as horas do mundo, com a curva de um carinho, onde a solidão se torne uma palavra impossível...
Por isso, não me serve um poema entre parênteses... Os versos poderão ter vírgulas e pontos de exclamação, e arriscar reticências rumo ao futuro... Quero poesia em perpétuo movimento, com a completa certeza de que, sem ti, a vida teria sido e seria uma imensa escuridão maior que a noite, para além da noite e sem sentido...

J.