segunda-feira, 18 de março de 2013

começou a chover no princípio do mundo


será que lhe falaste de mim?

quando tenho soluços penso que vai ser para sempre. sustenho a respiração para sempre.

a 2700 pés de altitude o meu coração arde a cidade arde 

quem disse que o tempo cura não sabe que o tempo mata. um bocadinho hoje um bocadinho amanhã. quem disse que o tempo cura não sabe. quem disse que a altitude salva não sabe que a noite é uma oração sem mar. 

quando tenho soluços penso

será que ele sabe que são os meus versos que descobrem as tatuagens da tua pele: que aprendemos juntos a contar as ondas dos mares de inverno: que parti tantas vezes desta cidade em navios inexistentes que só nós víamos, navios que me levaram a beijar todos os mares que se recolhem na concha do teu corpo: que os domingos eram para o amor e a poesia e as segundas e as terças mais todos os outros dias que sem nós só calendários vazios: que tu és apenas o que restou depois dos calendários vazios e que eu não sou nada

não sei das flores e dos caminhos que me abrem as estações

quando tenho soluços penso que vai ser para sempre. sustenho a respiração para sempre. penso

será que ele sabe das vezes que tive que chantagear deus, antecipar-me a ele, instrumentalizá-lo, gritar-lhe quando ele surdo aos meus apelos, desafiá-lo para um duelo em campo aberto, corações ao vento, mortais os dois, ele mais mortal do que eu pela promessa do teu amor.

do mais profundo lugar do esquecimento sei que estou em cada gesto teu a cada segundo em cada respiração. as tuas fronteiras  não são mais do que a geografia acabada das minhas lágrimas, da minha língua, da minha vida. 

devias sentir mais a minha falta: devia doer-te mais: devias aparecer menos vezes: as tuas mãos deviam suar mais ao lembrares-te de mim ao respirares ao respirares embora eu em cada gesto teu segundo respiração.

a 2700 pés de altitude 

a luz daquele barco acendeu-se de novo. a luz daquele barco acendeu de novo uma espécie de silêncio de gaivotas nocturnas que teima em pousar lentissimamente nas mãos a terrível evidência do amor: só por cima do mar nas varandas mais altas se pode tocar o céu para lá dos enganos. estamos a tocar o céu agora e por cima das nuvens a chuva queima novembros adormecidos.

do nosso quarto também se podia tocar o céu mover a palavra vencer o erro. do nosso quarto de onde partiam barcos partiu um barco

e ainda assim sei que estou em cada gesto teu a cada segundo em cada respiração. sei. e às vezes torna-se difícil respirar. e às choro. às vezes choro e torna-se ainda mais difícil respirar. às vezes escrevo. às vezes como hoje choro e não gosto. às vezes minto. e às vezes ainda te ouço e rio e esqueço-me de chorar.

às vezes esqueço-me de morrer baixinho. e às vezes esqueço-me que sabes.

começou a chover no princípio do mundo

e sei que ele não sabe, mas espero que te faça feliz 

mesmo que me apagues de ti


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