quinta-feira, 20 de junho de 2013

a Teresa Rita Lopes


Paris, 4 de Agosto de 1964


Querida

Não são ainda 5 horas da manhã e estou há menos de uma hora num cafezinho da praça Villiers, que por grande sorte encontrei aberto. Afinal, a porteira não abriu (era de esperar) e não tive outra solução senão instalar-me no banco do meu jardim. O banco vai ficar histórico. Como um clochard, abri o saco, tirei a garrafa de cerveja e o pão. Depois, tratei de me estender ao comprido. Dormitei, lutei contra o frio até às quatro da manhã. Por fim, tive de me levantar, o frio expulsou-me do banco. Passeei pelos boulevards próximos, desertos. Depois, lembrei-me de que havia 700 e tal francos comigo e tornei-me circunspecto, cada vez que via um vulto ao longe. O pior está passado. Com uma chávena de chá, um croissant e uma aspirina espero expulsar a fadiga que me atazana os rins e me traz cambaleante. É um fácies de Paris inutilmente trabalhoso, porque tencionava reservar o mau passadio desta noite para a viagem. O corpo pagaria o ganho de tempo. Assim, o corpo deitou a energia fora inutilmente, como se estivesse muito folgado e fresco, depois da corrida pelos cais e corredores da estação, depois das caminhadas de hoje por Paris a fazer isto e aquilo. Aquelas caminhadas que tu também conheces e a que dás prodigamente o corpinho.
Querida, cada vez que disponho de um vão de tempo, ponho-me a falar contigo por escrito. É o que imediatamente me apetece. E posso-te dizer coisas absolutamente insignificantes, como vês. No entanto, não sofro agudamente com a tua ausência. Acho que realmente te trago comigo, não só dentro, mas um pouco a meu lado. Como se tu realmente estivesses aqui e não te pudesse falar de viva voz. Mas, às vezes, sou chamado à realidade e penso, por exemplo, que, enquanto eu vou apanhar sol e mar, tu ficas aí a secar, no barulho dos tramways e nos cafés.
No entanto, minha Querida, pensa que o próprio isolamento em que estás e a aridez da vida que levas são uma oportunidade para te concentrares intelectualmente. Há coisas que só se fazem numa certa incomodidade exterior. Estou certo de que vais trazer trabalho feito de Vincennes, ao passo que eu não vou fazer nada antes do regresso a Paris. Também vamos lá que há três anos não conheço praia e estou mesmo a precisar de me espreguiçar na areia. Estou intoxicado, olheirento, amarelo. Espero vir melhor.
A coisa que mais me incomoda na tua ausência é eu não saber como estás passando, se te sentes bem, se mal. As tuas notícias são importantes para mim, não só porque me confortam, mas também (e principalmente) porque me informam a teu respeito. Com atraso, pelo menos, de 24 horas, mas já é alguma coisa. É por isso, também, que gostaria de te poder telefonar e que telefonasses, se alguma vez tivesses necessidade disso. 
Despedi-me ontem do Victor Knoll, que vai para o Brasil dentro de 15 dias. Levou recados meus para várias pessoas, e perguntou-me, especialmente, se continuo interessado em ir para lá. A propósito: tive a ideia de tentar, daqui, arranjar maneira de mandar por entidades competentes o teu curriculum teatral com vista a mandares para lá. Falaremos nisso quando nos virmos.
Faltam 20 para as 5. O dia está completamente claro. Acho que é uma estupidez as pessoas estarem na cama a esta hora. Se tentássemos, em Outubro, começar o trabalho às 6 da manhã? Seriam 6 horas até ao meio dia.
Hoje, fico por aqui, minha Presença. Mas podes falar comigo sozinha, que eu também estou a falar contigo.

António


P. S. - Imagina que te faço muitas tremuras, que te ponho a mão pelo ombro (é um pensamento que me veio ontem muitas vezes), que te beijo, que te ponho tida confortada de carinho. Vontade não falta!


in Cartas de Amor de António José Saraiva a Teresa Rita Lopes 

terça-feira, 4 de junho de 2013

e quem precisa de flores

não mais os domingos sairão para a rua, eu sei. 

e não sei se sei estar sozinha, sem os suspiros que me arrancavas do peito, sem os teus gritos à porta da vizinha, sem os teus passos bêbados de matar a sede na cozinha. não sei estar sozinha. e sou tua e tu sempre foste meu e fomos sempre um do outro e de sempre um para o outro, eu sei

que nunca foste dos cigarros que não existiram noites inteiras por dentro da noite nem do vinho que não existiu na rotina da tua mão a levantar-se noites inteiras por dentro da noite e no ar rastos de cometas com perfumes tão baratos como o meu, mas não o meu, no ar perfumes baratos e a tua mão que não

só as flores existiram, só as flores que desapareceram com a rotina da tua mão que não existiu a levantar-se e o fumo e o vinho na tua respiração e os perfumes baratos como o meu a vestir-te a roupa.

e quem precisa de flores?

os cigarros e o vinho até tarde, os cigarros, o vinho, os perfumes baratos a vestir-te o corpo e os amigos até tarde todos os dias

e o peso dos teus passos a arrastar a casa contra o espaço da minha almofada, o peso da tampa na casa de banho sempre por levantar a crescer com as pinceladas do amarelo que sobra das tuas noites

e as reclamações à mesa às horas certas e o resmungar imperceptível na cama quando eu de olhos fechados a fingir o mais pesado dos sonos.

e a bruxa que nas cartas viu, como eu, o demónio que te ganhou o corpo, tu boneco desse maldito demónio que te ganhou o corpo e a alma, mas não te ganhará de mim, que na sexta-feira num cruzamento com uma vela

a bruxa a dizer nunca mais os domingos nem as manhãs em que foste fornadas de sol, nunca mais eu com o vestido que me punha linda quando me conheceste e demasiado curto depois, demasiado decotado, demasiado tudo, 
a bruxa a dizer que não mais se eu não às 24h00 de uma sexta-feira, quando a lua estiver em touro, a consagrar uma vela onde o teu nome e o meu gravados e rezas e orações a horas certas como as tuas reclamações e mezinhas e novas visitas com a minha irmã que diz que tu não prestas, com a minha mãe que dizes que tu não prestas

e que sabe do amor a minha irmã que diz que tu não prestas e que eu uma burra por te abrir sempre a porta, e que sabe do amor a minha mãe que diz que tu não prestas e minha filha não sejas burra, e o meu pai, que deus o tenha, que pode saber do nosso amor, que podem saber todos deste amor que de ser tão nosso não nos pertence?

e podem até os domingos não mais sair à rua mas 
aproxima-se mais uma sexta-feira

e quem precisa de flores?