terça-feira, 4 de junho de 2013

e quem precisa de flores

não mais os domingos sairão para a rua, eu sei. 

e não sei se sei estar sozinha, sem os suspiros que me arrancavas do peito, sem os teus gritos à porta da vizinha, sem os teus passos bêbados de matar a sede na cozinha. não sei estar sozinha. e sou tua e tu sempre foste meu e fomos sempre um do outro e de sempre um para o outro, eu sei

que nunca foste dos cigarros que não existiram noites inteiras por dentro da noite nem do vinho que não existiu na rotina da tua mão a levantar-se noites inteiras por dentro da noite e no ar rastos de cometas com perfumes tão baratos como o meu, mas não o meu, no ar perfumes baratos e a tua mão que não

só as flores existiram, só as flores que desapareceram com a rotina da tua mão que não existiu a levantar-se e o fumo e o vinho na tua respiração e os perfumes baratos como o meu a vestir-te a roupa.

e quem precisa de flores?

os cigarros e o vinho até tarde, os cigarros, o vinho, os perfumes baratos a vestir-te o corpo e os amigos até tarde todos os dias

e o peso dos teus passos a arrastar a casa contra o espaço da minha almofada, o peso da tampa na casa de banho sempre por levantar a crescer com as pinceladas do amarelo que sobra das tuas noites

e as reclamações à mesa às horas certas e o resmungar imperceptível na cama quando eu de olhos fechados a fingir o mais pesado dos sonos.

e a bruxa que nas cartas viu, como eu, o demónio que te ganhou o corpo, tu boneco desse maldito demónio que te ganhou o corpo e a alma, mas não te ganhará de mim, que na sexta-feira num cruzamento com uma vela

a bruxa a dizer nunca mais os domingos nem as manhãs em que foste fornadas de sol, nunca mais eu com o vestido que me punha linda quando me conheceste e demasiado curto depois, demasiado decotado, demasiado tudo, 
a bruxa a dizer que não mais se eu não às 24h00 de uma sexta-feira, quando a lua estiver em touro, a consagrar uma vela onde o teu nome e o meu gravados e rezas e orações a horas certas como as tuas reclamações e mezinhas e novas visitas com a minha irmã que diz que tu não prestas, com a minha mãe que dizes que tu não prestas

e que sabe do amor a minha irmã que diz que tu não prestas e que eu uma burra por te abrir sempre a porta, e que sabe do amor a minha mãe que diz que tu não prestas e minha filha não sejas burra, e o meu pai, que deus o tenha, que pode saber do nosso amor, que podem saber todos deste amor que de ser tão nosso não nos pertence?

e podem até os domingos não mais sair à rua mas 
aproxima-se mais uma sexta-feira

e quem precisa de flores?

2 comentários:

  1. Morram (e morrem!) as flores e os perfumes e o vinho e os cigarros! Que o amor, amor com as letras todas, não precisa de nada disso, porque basta. Sentirmo-nos amados basta. Ninguém precisa disso. Precisamos do amor das pessoas que amamos. Isso basta.

    <3

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