quarta-feira, 28 de março de 2012

Talvez as estrelas tenham mudado

A razão por que dói tanto separarmo-nos é porque as nossas almas estão ligadas. Talvez sempre tenham estado e sempre o fiquem. Talvez tenhamos vivido milhares de vidas antes desta, e em cada uma nos tenhamos reencontrado. E talvez que em cada uma tenhamos sido separados pelos mesmos motivos. Isto significa que esta despedida é, ao mesmo tempo, um adeus pelos últimos dez mil anos e um prelúdio ao que virá. 

Quando olho para ti vejo a tua beleza e graça, e sei que cresceram mais fortes em cada vida que viveste. E sei que gastei todas as vidas antes desta à tua procura. Não de alguém como tu, mas de ti, porque a tua alma e a minha têm que andar sempre juntas. E assim, por uma razão que nenhum de nós entende, fomos obrigados a dizer adeus um ao outro.

Adoraria dizer-te que tudo correrá bem para nós, e prometo fazer tudo o que puder para garantir que assim será. Mas se nunca nos voltarmos a encontrar e isto for verdadeiramente um adeus, sei que nos veremos ainda noutra vida. Iremos encontrar-nos de novo, e talvez as estrelas tenham mudado, e nós não apenas nos amemos nesse tempo, mas por todos os tempos que tivemos antes.

Noah

O Diário da Nossa Paixão, Nicholas Sparks

sexta-feira, 16 de março de 2012

Noites aqui

Vamos a passo curto
Como quem quer ter cautela
Amas-me uma noite de cada vez
Porque tudo o resto é dela
Fica tu a saber, meu amor,
Que sou mais escura
Do que a noite
Sou para lá do calor
Do nosso suor
E fica a saber então:
Se te dissesse o mais que sou
Era o fim da paixão


Alice



terça-feira, 13 de março de 2012

O que resta de azul à minha volta envelheceu comigo


Estas duas cartas foram escritas em cidades diferentes, mais ou menos ao mesmo tempo, por duas pessoas que se separaram e foram  enviadas no mesmo dia. Possivelmente cruzaram-se. Não se sabe se chegaram a ser lidas.



chegaste depressa e quase não chegaste porque quase não te vi chegar

perguntei-te: sabes do verão?

e tu entraste em mim

a ponta dos teus dedos pequenos gomos os teus dedos todos a derreterem o metal da minha boca da minha pele o metal

e passaste a ser o meu calendário a infância dos meus dias e eu dias inteiros no teu corpo a desenhar o tempo pequenos barcos e histórias de saliva     muito longe ainda do frio a gastar as paredes  da humidade na boca da porta escancarada incapaz de lembrar os teus passos e a minha ausência na tua despedida

há algo de muito errado contigo

devias saber que para um poeta nada é de passagem: a poesia não ensina nunca a matar e depois de ti só palavras vazias de sangue e calor e verbos bombardeados de cinza

o inverno é uma longa noite de corvos e vozes adormecidas chuva ar nenhum só resíduos da tua respiração antiga e 

o inverno dói

e os teus pássaros já não falam comigo, sabes? já não me contam de ti e das tuas coisas e eu descalço a tocar o mar já não posso: foi um pássaro que me contou ao ouvido
    
a distância aflige os pássaros, sempre afligiu, e pelo caminho é normal eles perderem o coração o sentido

eu perdi o meu

e não sou nenhum pássaro e não sei voar e a distância sempre me afligiu também que isso de que engrandece os amores maiores é uma persiana que planta mentiras à volta do mar e eu já não te posso tocar que os grandes amores sobrevivem de coisas muito pequeninas coisinhas insuportáveis do dia-a-dia coisinhas que a distância não conhece   coisinhas

e na distância perdi também as estações, que não voltam as tuas estações, não voltam     e não volta a primavera e não volta lisboa e o tejo e as mãos dadas nas fotografias      agora é esta cidade de casas a arder de casas e pessoas e luzes muito nocturnas

e o teu corpo era onde me apetecia morar, o teu corpo

e ontem beijei-te e chamei o teu nome e gostei de te acordar

hoje não saberia como te chamar, obrigaste-me a chamar-te outro nome um nome que não era o teu, obrigaste-me a chamar-te outro nome como se o amor não fosse nome suficiente, como se as cicatrizes e os domingos pudessem passar na transparência dos copos de whisky dos poemas de Bukowski de todos os outros corpos que existem para além do teu e tenho para gastar

o meu mundo inteiro eram as tuas mãos,

e há algo de muito errado contigo para não o teres percebido

por isso neste momento de arrastada lucidez com a arma ao alcance da mente a arrábida a d. luís ou os clérigos na vertigem do pôr-do-sol final do fumo do último cigarro e nenhum medo digo: o meu mundo inteiro eram as tuas mãos

e amanhã não será possível abandonar o silêncio

amanhã morro


Carlos Soares




Não, que não tenho carne nem sangue nem boca que não te planeiem amar a todos os minutos. E sou o lugar mais desolado do mundo quando não te tenho, e só isso é que é errado.

mas preciso desta distância

antes que convide alguém para ter um acidente comigo.

E podíamos dar as mãos! – Se não tivesse que ser sempre sem ti…
Das manhãs em que ainda vivo abro a cortina da luz com que me veste o Tejo: carícia que me lembra a tua pele morna, e o teu nome, luminoso culto.

Para quê o Verão, matéria negra que consome os dias que me restam sem ti – para quê Tu na minha vida na minha cabeça se tenho que ser sem ti, se sempre me queres sem ti e sem ti nunca houve

e inútil me conservo até voltar a ser contigo.

E sempre que voltam as estações estamos muito mais velhos nas fotografias e se sonho contigo em câmara lenta é para que não me fujas

Apetecias-me hoje e amanhã é hoje e ontem foi hoje! Desejo-te em todas as coisas!

E sem fim, quero ser contigo. Se ainda quisesses ser comigo, há um sítio…

Se me pedisses baixinho,

podia ser que to dissesse

podia ser que existisses lá comigo.

E petiscavas o meu pescoço

E gastavas-me os lábios

E eu amava-te em todos os lugares do mundo! O meu coração está onde estás e até o meu coração ser pedra és tu.

Não abras a porta que dá para o jardim de glicínias se não pretenderes voltar para mim. Não quero mais noites sem rosto!

A minha alma tem ruas novas, se quiseres descobri-las… Sou tua, sem mais explicações, todos os nomes são teus.

E o meu olhar sobe à tua procura com a brisa que tantas vezes nos levou ao Atlântico e tem medo que tropeces na clandestinidade do caminho que nos uniu, e espera que não haja distância que não te faça regressar, só nunca ficas mais do que um segundo.

O que resta de azul à minha volta envelheceu comigo

Se sussurrar nomes vazios é chamar-te

não é conhecer-te, ainda

que só existo através do nome que te dei, e o teu nome, meu único endereço

Ao amor, inútil me conservo, mas pressinto-te na ponta dos meus dedos: vens? Regressa, como o sol que me entra no quarto sem pedir licença.

Ou não. E devolve-me ao menos à luz desta cidade


Maria Supertramp

quarta-feira, 7 de março de 2012

Terrível Bebé_Uma Carta De Amor Fernando Pessoa a Ophélia

9.10.1929
Terrível Bebé:
Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a boca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gaz e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano, mas é escrito por mim
Fernando



in Cartas de Amor de Grandes Homens, Ursula Doyle,pp. 74-75, Bertrand Editora

segunda-feira, 5 de março de 2012

o que diria uma fotografia se pudesse mentir?


o que diria uma fotografia se pudesse mentir?

houve uma hora em que fui mais feliz do que em todas as outras, do que se pode ser, e tu estavas lá e  todos os meus músculos existiam. já ouvia o eco que a neve faz ao cair no mar mas a tua mão a tatuar a madrugada da minha…

agora é o tempo suspenso no cigarro vazio por dentro da solidão

e não fiquei como prometi ficar. e não fiquei como nas noites à tua cabeceira os panos frios a tua febre as sopas as orações a um deus que nunca  vi pedro e inês e não fiquei como prometi a ver o teu avião subir e não me passou pela cabeça correr para ti em câmara lenta tudo correr e parar a dois centímetros milímetros de ti e não vás e juro que não me passou pela cabeça e nem sequer olhei para trás que não há finais felizes, não há.

e o que diria a minha fotografia se te pudesse mentir?

o meu mundo ainda te olha e da janela do nosso quarto não há distância que a tua ausência nunca me deixou e nunca me deixou ser mais do pedaços e sabia que me ias destruir, sempre soube, e deixei. só nos destrói quem nós muito intimamente queremos que nos destrua. percebes isto? escolhi-te.

e não fiquei como prometi ficar a ver o teu avião subir por entre as minhas lágrimas, não, não chorei e não fiquei para tu não veres que não chorei para tu hoje muito longe embora deste quarto de onde o meu mundo ainda te olha não exista distância, continuo a escrever para ti que não sei fazer mais nada e a conversar com o jeff no gira-discos e a edith também me visita mas só nos dias mais tristes, nos dias em que a minha solidão me contempla me deseja e me despreza      me despreza

e a nossa fotografia se pudesse mentir?

voltarmos ao caminho um do outro, partilharmos a nossa cama que eu partilhei com outras e não me custou acredita a cama e despertares com beijos flores raras mentiras daquelas que só se inventam para quem importa e tu no aeroporto e eu a atravessar a cidade inteira sem encontrar o caminho para casa e sem olhar para trás e neste momento sei o que dirias ao meu ouvido abraçando-me por trás sei o que dirias e não interessa porque não faria qualquer diferença porque o destino nem sempre obedece ao destino porque tu muito longe porque eu nesta carta muito longe também    das promessas antigas da nudez lunar da casa das nossas noites esconderijo de sal onde incendiávamos os dias.