terça-feira, 13 de março de 2012

O que resta de azul à minha volta envelheceu comigo


Estas duas cartas foram escritas em cidades diferentes, mais ou menos ao mesmo tempo, por duas pessoas que se separaram e foram  enviadas no mesmo dia. Possivelmente cruzaram-se. Não se sabe se chegaram a ser lidas.



chegaste depressa e quase não chegaste porque quase não te vi chegar

perguntei-te: sabes do verão?

e tu entraste em mim

a ponta dos teus dedos pequenos gomos os teus dedos todos a derreterem o metal da minha boca da minha pele o metal

e passaste a ser o meu calendário a infância dos meus dias e eu dias inteiros no teu corpo a desenhar o tempo pequenos barcos e histórias de saliva     muito longe ainda do frio a gastar as paredes  da humidade na boca da porta escancarada incapaz de lembrar os teus passos e a minha ausência na tua despedida

há algo de muito errado contigo

devias saber que para um poeta nada é de passagem: a poesia não ensina nunca a matar e depois de ti só palavras vazias de sangue e calor e verbos bombardeados de cinza

o inverno é uma longa noite de corvos e vozes adormecidas chuva ar nenhum só resíduos da tua respiração antiga e 

o inverno dói

e os teus pássaros já não falam comigo, sabes? já não me contam de ti e das tuas coisas e eu descalço a tocar o mar já não posso: foi um pássaro que me contou ao ouvido
    
a distância aflige os pássaros, sempre afligiu, e pelo caminho é normal eles perderem o coração o sentido

eu perdi o meu

e não sou nenhum pássaro e não sei voar e a distância sempre me afligiu também que isso de que engrandece os amores maiores é uma persiana que planta mentiras à volta do mar e eu já não te posso tocar que os grandes amores sobrevivem de coisas muito pequeninas coisinhas insuportáveis do dia-a-dia coisinhas que a distância não conhece   coisinhas

e na distância perdi também as estações, que não voltam as tuas estações, não voltam     e não volta a primavera e não volta lisboa e o tejo e as mãos dadas nas fotografias      agora é esta cidade de casas a arder de casas e pessoas e luzes muito nocturnas

e o teu corpo era onde me apetecia morar, o teu corpo

e ontem beijei-te e chamei o teu nome e gostei de te acordar

hoje não saberia como te chamar, obrigaste-me a chamar-te outro nome um nome que não era o teu, obrigaste-me a chamar-te outro nome como se o amor não fosse nome suficiente, como se as cicatrizes e os domingos pudessem passar na transparência dos copos de whisky dos poemas de Bukowski de todos os outros corpos que existem para além do teu e tenho para gastar

o meu mundo inteiro eram as tuas mãos,

e há algo de muito errado contigo para não o teres percebido

por isso neste momento de arrastada lucidez com a arma ao alcance da mente a arrábida a d. luís ou os clérigos na vertigem do pôr-do-sol final do fumo do último cigarro e nenhum medo digo: o meu mundo inteiro eram as tuas mãos

e amanhã não será possível abandonar o silêncio

amanhã morro


Carlos Soares




Não, que não tenho carne nem sangue nem boca que não te planeiem amar a todos os minutos. E sou o lugar mais desolado do mundo quando não te tenho, e só isso é que é errado.

mas preciso desta distância

antes que convide alguém para ter um acidente comigo.

E podíamos dar as mãos! – Se não tivesse que ser sempre sem ti…
Das manhãs em que ainda vivo abro a cortina da luz com que me veste o Tejo: carícia que me lembra a tua pele morna, e o teu nome, luminoso culto.

Para quê o Verão, matéria negra que consome os dias que me restam sem ti – para quê Tu na minha vida na minha cabeça se tenho que ser sem ti, se sempre me queres sem ti e sem ti nunca houve

e inútil me conservo até voltar a ser contigo.

E sempre que voltam as estações estamos muito mais velhos nas fotografias e se sonho contigo em câmara lenta é para que não me fujas

Apetecias-me hoje e amanhã é hoje e ontem foi hoje! Desejo-te em todas as coisas!

E sem fim, quero ser contigo. Se ainda quisesses ser comigo, há um sítio…

Se me pedisses baixinho,

podia ser que to dissesse

podia ser que existisses lá comigo.

E petiscavas o meu pescoço

E gastavas-me os lábios

E eu amava-te em todos os lugares do mundo! O meu coração está onde estás e até o meu coração ser pedra és tu.

Não abras a porta que dá para o jardim de glicínias se não pretenderes voltar para mim. Não quero mais noites sem rosto!

A minha alma tem ruas novas, se quiseres descobri-las… Sou tua, sem mais explicações, todos os nomes são teus.

E o meu olhar sobe à tua procura com a brisa que tantas vezes nos levou ao Atlântico e tem medo que tropeces na clandestinidade do caminho que nos uniu, e espera que não haja distância que não te faça regressar, só nunca ficas mais do que um segundo.

O que resta de azul à minha volta envelheceu comigo

Se sussurrar nomes vazios é chamar-te

não é conhecer-te, ainda

que só existo através do nome que te dei, e o teu nome, meu único endereço

Ao amor, inútil me conservo, mas pressinto-te na ponta dos meus dedos: vens? Regressa, como o sol que me entra no quarto sem pedir licença.

Ou não. E devolve-me ao menos à luz desta cidade


Maria Supertramp

5 comentários:

  1. no comments (0 comentários) ou é caso para dizer que esta carta está "sem" comentários... ;)

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  2. às vezes o silêncio diz tudo...acho que é este o caso!

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  3. eu juro que qualquer dia dou-vos um estalo, aos dois!! vocês estão na profissão errada! isolem-se, escrevam, ofereçam ao mundo todas as palavras que habitam em vocês!!

    adorei os dois ;)

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  4. Mary, tu andas um bocadinho violenta demais, não?! :))))
    Pobres pessoas... Deixa-os ter as suas profissões em paz! E deixa que a escrita seja esse complemento vitamínico requintado das vidas deles. Nós agradecemos, certo! ;)
    Vais deixar de ir às aulas da Estela, sim! ;)))

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  5. não é má ideia...Baikal Lake ou Transiberiano,tenho que falar com a Supertramp!

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