sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Carta a um jovem poeta

Roma,
14 de maio de 1904

Meu caro senhor Kappus, 

Passou muito tempo desde que recebi sua última carta. Não me guarde rancor; primeiro foi o trabalho, depois uma perturbação e finalmente uma doença que me impediram de dar uma resposta que partisse (assim eu queria) para o senhor de dias calmos e agradáveis. Agora me sinto novamente um pouco melhor (o início da primavera, com suas transições cruéis e geniosas, também foi difícil por aqui) e venho cumprimentá-lo, caro senhor Kappus, e lhe dizer (o que gosto muito de fazer) uma ou outra coisa sobre sua carta, da melhor maneira que posso. O senhor pode notar que copiei seu soneto, porque achei que ele é belo e simples, nascido em uma forma na qual se desenrola com tão tranquila sobriedade. São os melhores versos que cheguei a ler de sua parte. E agora lhe dou essa cópia, porque sei que é importante e uma experiência inteiramente nova reencontrar um trabalho próprio escrito com a letra de outra pessoa. Leia os versos como se fossem alheios, então sentirá de maneira mais íntima o quanto são seus... Foi uma alegria para mim ler muitas vezes esse soneto e sua carta; portanto agradeço pelos dois. Não se deixe enganar em sua solidão só porque há algo no senhor que deseja sair dela. Justamente esse desejo o ajudará, caso o senhor o utilize com calma e ponderação, como um instrumento para estender sua solidão por um território mais vasto. As pessoas (com o auxílio de convenções) resolveram tudo da maneira mais fácil e pelo lado mais fácil da facilidade; contudo é evidente que precisamos nos aferrar ao que é difícil; tudo o que vive se aferra ao difícil, tudo na natureza cresce e se defende a seu modo e se constitui em algo próprio a partir de si, procurando existir a qualquer preço e contra toda resistência. Sabemos muito pouco, mas que temos de nos aferrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom ser solitário, pois a solidão é difícil; o facto de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la. Amar também é bom: pois o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda não podem amar: precisam aprender o amor. Com todo o seu ser, com todas as forças reunidas em seu coração solitário, receoso e acelerado, os jovens precisam aprender a amar. Mas o tempo de aprendizado é sempre um longo período de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida, solidão, isolamento intenso e profundo para quem ama. A princípio o amor não é nada do que se chama ser absorvido, entregar-se e se unir com uma outra pessoa. (Pois o que seria uma união do que não é esclarecido, do inacabado, do desordenado?) O amor constitui uma oportunidade sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si mesmo por causa de uma outra pessoa; é uma grande exigência para o indivíduo, uma exigência irrestrita, algo que o destaca e o convoca para longe. Apenas neste sentido, como tarefa de trabalhar em si mesmos ("escutar e bater dia e noite"), as pessoas jovens deveriam fazer uso do amor que lhes é dado. A absorção e a entrega e todo tipo de comunhão não são para eles (que ainda precisam economizar e acumular por muito tempo); a comunhão é o passo final, talvez uma meta para a qual a vida humana quase não seja o bastante. É aí que os jovens erram com frequência, gravemente: pelo facto de eles (faz parte de sua natureza não ter paciência alguma) se atirarem uns para os outros quando o amor vem, derramando-se da maneira como são, em todo o seu desgoverno, na desordem, na confusão... Mas o que deve resultar disso? O que a vida deve fazer desse acúmulo de equívocos a que eles chamam de união e gostariam de chamar de sua felicidade? E o futuro? Então cada um se perde por causa do outro e perde o outro e muitos outros que ainda desejariam surgir. Perdem-se as vastidões e as possibilidades, troca-se a aproximação e a fuga de coisas quietas, cheias de pressentimentos, por um desespero infrutífero do qual nada mais pode resultar; nada mais do que um pouco de náusea, desapontamento e pobreza, e com isso a salvação em uma das muitas convenções que estão disponíveis em grande número, como abrigos para todos nesse caminho extremamente perigoso. Nenhuma região da experiência humana é tão munida de convenções quanto essa: salva-vidas dos mais diversos, botes e bóias; refúgios de todos os tipos foram criados pela compreensão comum, pois ela estava inclinada a considerar a vida amorosa como um prazer, por isso tinha de torná-la fácil, barata, inofensiva e segura, como são os prazeres públicos.  De facto muitos jovens que amam de modo falso, ou seja, simplesmente entregando-se, sem preservar a solidão (a maioria não passará nunca disso), sentem a opressão de um erro e querem, de uma maneira própria e pessoal, tornar vivida e fértil a situação em que se precipitaram. Pois a sua natureza lhes diz que as questões do amor, de tudo o que é importante, são as que menos podem ser resolvidas abertamente, segundo um acordo qualquer; são perguntas íntimas feitas de uma pessoa para outra, perguntas que exigem em cada caso uma resposta nova, especial, apenas pessoal. Mas como é que eles poderiam encontrar uma saída em si mesmos, do fundo de sua solidão já desperdiçada, eles que se atiraram, que não se delimitam nem se diferenciam, e que portanto não possuem nada de próprio?
Os jovens tomam atitudes a partir de um desamparo comum e, quando querem evitar de boa vontade a convenção que se anuncia (por exemplo o casamento), caem nos braços de uma solução menos explícita, mas igualmente convencional e mortal. Pois tudo o que existe em torno deles é convenção; onde quer que se trate de uma comunhão precipitada e turva, todas as atitudes são convencionais. Toda relação resultante de tal mistura possui a sua convenção, mesmo que seja pouco usual (ou seja, imoral em sentido comum). Até a separação seria um passo convencional, uma decisão ocasional e impessoal sem força e sem frutos. Quem observa com seriedade descobre que, assim como para a morte, que é difícil, também para o difícil amor não se reconheceu ainda nenhum esclarecimento, nenhuma solução, nem aceno, nem caminho. Para essas duas tarefas, que carregamos e transmitimos secretamente sem esclarecer, nunca se achará uma regra comum baseada em um acordo. Contudo, à medida que começamos a tentar a vida como indivíduos, essas grandes coisas se aproximam muito de nós, os solitários. As exigências que o difícil trabalho do amor impõe ao nosso desenvolvimento são sobre-humanas, e nós, como iniciantes, não podemos estar à altura delas. Mas se perseveramos e assumimos esse amor como uma carga e um período de aprendizado, em vez de nos perdermos em todo o jogo fácil e frívolo atrás do qual as pessoas se esconderam da mais séria gravidade de sua existência, talvez se perceba um pequeno avanço e um alívio para aqueles que virão muito depois de nós; e isso já seria muito. No entanto, só chegamos no máximo a considerar objectivamente e sem preconceitos a relação de um indivíduo com outro indivíduo, e nossas tentativas de viver tais relacionamentos não têm nenhum modelo diante de si. Mesmo assim há, na própria passagem do tempo, algo que ajuda a nossa iniciação hesitante. A menina e a mulher, em seu desdobramento novo e próprio, serão apenas de passagem imitadoras dos vícios e das virtudes masculinos e repetidoras das profissões dos homens. Depois da incerteza dessas transições, o que se revelará é que as mulheres só passaram por todos esses sucessivos disfarces (muitas vezes ridículos) para purificar sua própria essência das influências deformadoras do outro sexo. As mulheres, nas quais a vida se instala e habita de modo mais imediato, frutífero e cheio de confiança, no fundo precisam ter se tornado seres humanos mais maduros, mais humanos do que o homem, pois ele não passa de um ser leviano, que é mergulhado sob a superfície da vida pelo peso de um fruto carnal, que menospreza, arrogante e apressado, aquilo que pensa amar. Essa humanidade da mulher, realizada em meio a dores e humilhações, virá à tona quando ela se tiver livrado das convenções do exclusivamente feminino nas transformações de sua situação exterior. E os homens, que hoje não a sentem vir ainda, serão surpreendidos e derrotados por essa humanidade. Um dia (já agora, especialmente nos países nórdicos, os indícios confiáveis a favor disso são eloquentes), um dia se encontrarão a menina e a mulher cujos nomes não significarão apenas uma oposição ao elemento masculino, mas algo de independente, algo que não fará pensar em complemento ou em limite, apenas na vida e na existência: o ser humano feminino. Tal progresso transformará profundamente a vivência do amor, agora cheia de equívocos, trará alterações profundas (a princípio contra a vontade dos homens ultrapassados), configurando uma relação de ser humano com ser humano, não mais de homem e mulher. E esse amor mais humano (que se realizará de modo infinitamente delicado e discreto, certo e claro, em laços atados e desatados) será semelhante àquele que nós preparamos, lutando com esforço, portanto ao amor que consiste na protecção mútua, na delimitação e saudação de duas solidões. E ainda isto: não creia que aquele grande amor que um dia se impôs ao senhor, quando garoto, se perdeu. Será possível saber com certeza se, naquele tempo, não amadureceram grandes e belos desejos, propósitos dos quais o senhor vive ainda hoje? Acredito que aquele amor permanece tão forte e intenso em sua lembrança porque foi sua primeira solidão profunda, o primeiro trabalho íntimo com que o senhor elaborou sua vida. 

Tudo de bom, caro senhor Kappus! 

Seu, 

Rainer Maria Rilke

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Cartas a Bordeaux I

Dia 88. É um ciclo vicioso, sabes? O fazer as malas e ir embora. Como sempre fiz. Dizem que por isso estou melhor. Que estou melhor nesta espiral de desencontros, onde tudo ficou demasiado longe. Um dia a fuga acaba e um dia eu volto a Coimbra e volto ao tudo do qual fugi. Já não é sobre o amor romântico que ficou por acontecer. Não é o fininho de um violino que chora por todas as nossas adolescências tardias. É aquela coisa, aquela outra coisa, das nossas histórias trancadas em dispensas, um passado de putas e vinho verde e de arrependimentos que nos embalam a noite e de viagens de onde nunca regressamos. Lutamos todos os dias para que nos deixem ser pessoas por inteiro, e luto todos os dias para que me deixem ser mulher por inteiro. Para que me deixem ser doente e para que me deixem ficar melhor todos os dias.

Ontem voltei a casa pelo caminho mais longo, no frio da noite e no frio das línguas estranhas. A França é mesmo assim. O sítio mais seguro do mundo para se fugir sozinha. Um perfeito limbo para os que já não sabem ficar. Há tristeza em tudo isto, e da insatisfação nasce a capacidade de fazer dos homens improváveis a nossa casa. E ainda que seja amor, é também contrariedade. Estarei sempre de partida porque ninguém consegue apagar o que Coimbra escreveu, e estarei sempre ausente porque de repente lembramos que doeu em sítios que não deveriam sequer existir.

Beatriz

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

terceira carta

neste quarto onde passo as noites mais inteiras, onde o céu chove muito com a distância, onde chove o céu e tu não estás procuro-te: na vertigem da pele: na possibilidade de fotografias antigas: no cheiro das coisas simples.

todos os vossos começos não chegaram. todos os vossos começos não seriam nunca suficientes. todos os vossos começos seriam sempre recomeços, apenas isso, recomeços: a porta entreaberta: as pegadas mal apagadas: as folhas a falhar a queda.

eu nunca fui muito bom a deixar a porta entreaberta, por isso custa-me um bocadinho a perceber como tu não consegues dizer adeus, e nunca fui muito bom a deixar pegadas, a ficar a ver a queda, 

a não querer tudo para além de uma página quebrada.

sei que um dia vais acordar. sei que um dia vais acordar e já não vais sentir o sabor dele na tua boca, naquele fundo de mundo quase esquecido, e sei que nesse dia vais sorrir, um sorriso feito de azul e especiarias, o teu sorriso das coisas bonitas. sei, e sei que vou estar aqui nesse dia, aqui mesmo, na fronteira do teu pulso, nas cores do teu outono, na vocação imóvel com que te ofereço as chaves deste lugar tão próximo do coração.

não falta muito.

 já te apercebeste disso. não falta muito: o tempo que finalmente voltou à sua cadência normal, esquecendo-se da eternidade de todos os segundos, as tuas coisas que já não se lembram dele, a voz dele a ser menos dele, o cheiro dele a ser menos teu, menos da tua pele dos teus lábios do contorno perfeito dos teus lábios dos teus dedos de tocar pianos dos teus cabelos acabados de apanhar,

ficas linda com o cabelo acabado de apanhar, mesmo não sendo por minha causa,

e menos dele a parte de trás do teu pescoço, a parte de trás do teu pescoço, as costas das tuas mãos, a tua respiração.

não falta muito. as coisas dele não existem subitamente para além do fundo daquela gaveta que não existe. não falta muito e os domingos  poderão voltar a ser dos puzzles e  dos lençóis enrugados, das horas tardias e das chávenas de chá de que vens aprendendo a gostar, e das mantas e dos livros, da casa e dos pássaros, dos teus pássaros, com a manhã a fazer-se para lá da ausência para lá da memória para lá de tudo o que foi e vai deixando de ser porque nunca foi verdadeiramente.

e sim, haverá dias em que as coisas não farão sentido, as coisas todas estúpidas como um carro em contramão, as coisas todas mais estúpidas do que um carro em contramão, em que a resposta parecerá mais certa com a proximidade das lágrimas, mas nada disso será por culpa dele, que nunca te escondeu poemas para que os encontrasses às horas em que pensas que o silêncio é tudo, que nunca te deixou um livro aberto numa página em que estava uma frase que lhe parecia ter sido escrita para ti , que nunca se importou com os teus livros ou percebeu o que querias dizer com os livros têm cheiro e é possível viver dentro dos livros, ainda que só por um bocadinho, ele que nunca percebeu, ainda que tenha dito que percebia. quem percebe não parte, ainda que o caminho teime em se fazer longo. quem percebe levanta-se às 3 da manhã com a urgência de te dizer: és tão bonita: serão sempre todas minhas as saudades tuas: chega-te para aqui, ainda que depois volte a adormecer e de manhã só se lembre que acordou às 3 da manhã com a urgência de te dizer alguma coisa de que depende todo o amanhecer do mundo.
quem percebe não parte

talvez não o saibas, estás aqui agora. estás aqui agora e eu vou aproveitar para te dizer baixinho ao ouvido: vais gostar do meu abraço, do meu chega-te para aqui, das minhas saudades tuas.

estás aqui agora e eu vou aproveitar para te dizer baixinho ao ouvido: gosto das tuas pernas surpreendentemente bonitas e isso é tão pouco importante, apesar das tuas pernas surpreendentemente bonitas, porque tu gostas de nuvens e de relâmpagos e de citar lord henry em vão e isso sempre seria suficiente.

e gosto das nossas conversas. devíamos estar a conversar agora, agora-agora não, depois de leres esta carta pela segunda vez. gosto das nossas conversas e gosto das coisas inteligentes que dizes, sem precisares de parecer inteligente, e da tua falta de tolerância e que saibas da importância dos pormenores, mesmo não gostando de horas certas.

é por causa dos pormenores que ao leres as minhas-cartas-tuas vou imaginar-te sempre menina completamente de preto, sapatos amarelos, sentada debaixo de uma romãzeira, o sol a tomar os pés, um vento bom, que anuncia o outono, a tocar os braços

e um sorriso que se inicia às 10:35 e espera, não, estende-se até às 11.47.