quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

terceira carta

neste quarto onde passo as noites mais inteiras, onde o céu chove muito com a distância, onde chove o céu e tu não estás procuro-te: na vertigem da pele: na possibilidade de fotografias antigas: no cheiro das coisas simples.

todos os vossos começos não chegaram. todos os vossos começos não seriam nunca suficientes. todos os vossos começos seriam sempre recomeços, apenas isso, recomeços: a porta entreaberta: as pegadas mal apagadas: as folhas a falhar a queda.

eu nunca fui muito bom a deixar a porta entreaberta, por isso custa-me um bocadinho a perceber como tu não consegues dizer adeus, e nunca fui muito bom a deixar pegadas, a ficar a ver a queda, 

a não querer tudo para além de uma página quebrada.

sei que um dia vais acordar. sei que um dia vais acordar e já não vais sentir o sabor dele na tua boca, naquele fundo de mundo quase esquecido, e sei que nesse dia vais sorrir, um sorriso feito de azul e especiarias, o teu sorriso das coisas bonitas. sei, e sei que vou estar aqui nesse dia, aqui mesmo, na fronteira do teu pulso, nas cores do teu outono, na vocação imóvel com que te ofereço as chaves deste lugar tão próximo do coração.

não falta muito.

 já te apercebeste disso. não falta muito: o tempo que finalmente voltou à sua cadência normal, esquecendo-se da eternidade de todos os segundos, as tuas coisas que já não se lembram dele, a voz dele a ser menos dele, o cheiro dele a ser menos teu, menos da tua pele dos teus lábios do contorno perfeito dos teus lábios dos teus dedos de tocar pianos dos teus cabelos acabados de apanhar,

ficas linda com o cabelo acabado de apanhar, mesmo não sendo por minha causa,

e menos dele a parte de trás do teu pescoço, a parte de trás do teu pescoço, as costas das tuas mãos, a tua respiração.

não falta muito. as coisas dele não existem subitamente para além do fundo daquela gaveta que não existe. não falta muito e os domingos  poderão voltar a ser dos puzzles e  dos lençóis enrugados, das horas tardias e das chávenas de chá de que vens aprendendo a gostar, e das mantas e dos livros, da casa e dos pássaros, dos teus pássaros, com a manhã a fazer-se para lá da ausência para lá da memória para lá de tudo o que foi e vai deixando de ser porque nunca foi verdadeiramente.

e sim, haverá dias em que as coisas não farão sentido, as coisas todas estúpidas como um carro em contramão, as coisas todas mais estúpidas do que um carro em contramão, em que a resposta parecerá mais certa com a proximidade das lágrimas, mas nada disso será por culpa dele, que nunca te escondeu poemas para que os encontrasses às horas em que pensas que o silêncio é tudo, que nunca te deixou um livro aberto numa página em que estava uma frase que lhe parecia ter sido escrita para ti , que nunca se importou com os teus livros ou percebeu o que querias dizer com os livros têm cheiro e é possível viver dentro dos livros, ainda que só por um bocadinho, ele que nunca percebeu, ainda que tenha dito que percebia. quem percebe não parte, ainda que o caminho teime em se fazer longo. quem percebe levanta-se às 3 da manhã com a urgência de te dizer: és tão bonita: serão sempre todas minhas as saudades tuas: chega-te para aqui, ainda que depois volte a adormecer e de manhã só se lembre que acordou às 3 da manhã com a urgência de te dizer alguma coisa de que depende todo o amanhecer do mundo.
quem percebe não parte

talvez não o saibas, estás aqui agora. estás aqui agora e eu vou aproveitar para te dizer baixinho ao ouvido: vais gostar do meu abraço, do meu chega-te para aqui, das minhas saudades tuas.

estás aqui agora e eu vou aproveitar para te dizer baixinho ao ouvido: gosto das tuas pernas surpreendentemente bonitas e isso é tão pouco importante, apesar das tuas pernas surpreendentemente bonitas, porque tu gostas de nuvens e de relâmpagos e de citar lord henry em vão e isso sempre seria suficiente.

e gosto das nossas conversas. devíamos estar a conversar agora, agora-agora não, depois de leres esta carta pela segunda vez. gosto das nossas conversas e gosto das coisas inteligentes que dizes, sem precisares de parecer inteligente, e da tua falta de tolerância e que saibas da importância dos pormenores, mesmo não gostando de horas certas.

é por causa dos pormenores que ao leres as minhas-cartas-tuas vou imaginar-te sempre menina completamente de preto, sapatos amarelos, sentada debaixo de uma romãzeira, o sol a tomar os pés, um vento bom, que anuncia o outono, a tocar os braços

e um sorriso que se inicia às 10:35 e espera, não, estende-se até às 11.47.

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