segunda-feira, 30 de abril de 2012

O Seis de Abril


Era chuva, naquela noite. E era também muito tarde e frio, mas teimaste em ficar comigo debaixo do toldo daquele café antigo da praça, só porque sim e porque eu queria. Disseste que não gostavas dos meus sapatos. Sabes...eu aceitei, só porque eras tu e porque me sinto um algodão-doce quando olhas para mim e porque quando me abraças, abraças mesmo e eu paro de respirar até.
Depois pensei que não podia ser, e que não merecias que eu ficasse ali ao frio só para te ver sorrir, e tu sorriste. E eu fiquei. Sabes...até valeu a pena, porque apesar de não gostares dos meus sapatos, desceste a rua à chuva só para me levares a casa e para me olhares e para me abraçares. E para deixares no ar aquele cheiro que antecede um beijo, que nunca aconteceu.

Chove.


Alice

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Exma. Senhora D. Ofélia Queiroz

25/9/1929

Exma. Senhora D. Ofélia Queiroz:
Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.ª - considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) - que V. Ex.ª está proibida de:
(1) pesar menos gramas,
(2) comer pouco,
(3) não dormir nada,
(4) ter febre,
(5) pensar no indivíduo em questão.

Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.ª a pegar na imagem mental que acaso tenha formado do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo.

Cumprimenta V. Ex.ª

Álvaro de Campos
eng. naval

in Cartas de Amor de Grandes Homens, Ursula Doyle,pp. 75-76, Bertrand Editora

quinta-feira, 12 de abril de 2012

a cidade está a dizer-se e não há primavera que não se faça ouvir


quanto pesa um coração? quanto pesam seiscentos gramas de erosões nocturnas espelhos de chuva quilómetros de solidão?

ouve-se, a minha solidão ouve-se?

escrevo-te daqui, de um arquipélago sem memória porque só memória, e no fundo não tenho nada para te dizer:  a tua respiração faz nascer o sol na minha boca, só isto o que tu já sabes o que não preciso de voltar a escrever

não tenho a certeza de saber ser uma pessoa triste, não tenho

fica tudo tão parado    por tanto tempo

sobrevivo à custa de leituras de emergência e de pequenos contentamentos que compro em lojas que vendem coisas de pessoas falecidas: uma grafia muito antiga às vezes um chapéu apaixonado outras vezes tempestades por entre prateleiras vazias e pulsos muito despidos

e depois sonho contigo

e amanhã vou voltar a sonhar e não vou conseguir morrer, quem ama não morre da morte, e amanhã na rue saint-honoré tu vais voltar a perguntar: não tens mais nada para fotografar? e eu vou sufocar por dentro do incêndio provocado pelo teu olhar pelos teus tornozelos pelo teu sangue dentes cheiro pele na minha pele

e continuo a gostar tanto de te cheirar por dentro

na saint-honoré os teus tornozelos nus os teus pés parados:não tens mais nada para fotografar?  não quero que cresça mais erva no meu coração por isso preciso de te fotografar não quero que cresça  mais erva no meu coração e não sei fotografar mais nada e tu a sorrir:comprei estas calças para ti e se é só por isso não precisas de saber fotografar mais nada e da janela do teu táxi a gritares:é por ti, é por ti que hei-de voltar, que volto sempre  e nesse momento o lavatório começa a pingar a noite e a sanita a pingar também e o frio que só pára de pingar contigo na minha camisa vestígios de uma manhã muito branca no teu seio e não se ouve pingar a noite com os meus lábios a escorregar para os teus mesmo antes de acordar eu no teu ouvido:a tua aparição é sempre um acontecimento de azul estrelas constelações muito brilhantes e arrepios e sol e sol a queimar no céu da boca


e começo a acordar

a cidade está a dizer-se e não há primavera que não se faça ouvir nesta cidade que tem um nome que só em sonho se pode pronunciar e pássaros azuis pássaros muito azuis a pintar o céu de todas as cores

e tu entras por aquela porta, recolhes o meu corpo do chão, juntas todos os pedaços, até os mais pequenos, até os que não se podem ver, tiras-me o livro da mão, acabas com esta chuva invisível, fechas a janela, despes-te, deitas-te, abraças-me, beijas-me atrás da orelha e dizes baixinho: não precisas de me fotografar, somos namorados, volta a dormir eu vigio o teu sono.