terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A língua dos sonhos


Ele morreu há três anos mas eu sei que é nele que pensas ainda todos os dias quando te vejo esvaziada de todas as coisas.
Há noites em que chamas baixinho o nome dele. Sem dares por isso, julgo eu. Não farias essa maldade. Eu não ouso mexer-me ou sequer respirar, esperando que não acordes e que essa saudade que te habita enquanto dormes não te dê a coragem para ires embora.
Essa saudade. Essa saudade é o que não me deixa preencher-te, digo-te às vezes quando o brilho dos teus olhos cega o meu orgulho quando dizes o nome dele. Não ouso gritar-te que ele está morto e que eu estou aqui.
A saudade é uma tatuagem na alma. Só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós, é o que respondes.
E eu odeio-o mais ainda por estar morto e viver dentro de ti e por todos esses livros que te deu e que estão na estante da sala e que te levam para dentro deles. Para dentro dele. E muitas vezes caminho furioso na tua direcção, pronto a arrancar de ti esse pedaço e dilacerá-lo entre os dedos. Mas depois há este amor que me trava e penso que podes ao perder um pedaço de ti, perder o pedacinho ínfimo em que sentes a pena que te faz ficar comigo e então chego perto de ti já sem fúria e sorrio pensando que a pena pode ser melhor que nada.
Por isso durmo quieto sustendo a respiração para não te acordar enquanto sonhas com ele e eu penso que é por isso que não falamos mais, que não falámos nunca. Eu vivo acordado, tu começas a viver quando adormeces.
E os que vivem em sonhos falam uma língua que quem perdeu a capacidade de sonhar já não entende.


Ana

itálico de Mia Couto

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

e sempre esta casa vazia de saudades e de mar


escrevo-te de um lugar que não existe
escrevo-te de um lugar que não existe porque sem ti sou uma terra sem lugar uma casa vazia de saudades lua sem febres mar gaivotas nem casas para incendiar que a tua pele era um incêndio e por isso escrevo-te do pôr-do-sol que éramos e não existe e só a solidão

e a solidão não se desaprende, sabias? digo: a solidão não se desaprende nem na morte

por isso escrevo-te destes dias que pedem nevoeiro relâmpagos inteiros invernos por inventar em cidades saqueadas úteros vazios exércitos de orgasmos por resgatar e escrevo-te de todos os lugares, os nossos lugares, que não existem e de que voltei inteiro que só de ti não soube voltar e Veneza não existe Madrid não existe o Alentejo não existe nas planícies de superfície mais ou menos lunar de que soube voltar inteiro

só de ti não soube voltar

das tuas mãos pequeninas feitas para beijar o frio que só existia para eu te poder abraçar e beijar e os autocarros felizes comigo a ler para ti e as árvores felizes os bancos de jardins felizes contigo deitada e eu a ler para ti poemas cartas pequenos versos que nasceram de ti a mexer no meu cabelo

e o para sempre nas fotografias foi sempre teu

e eu: diz cheese e tu para sempre em vez de cheese por isso o para sempre nas fotografias foi sempre teu e o para sempre nas calçadas que gastámos foi sempre teu o para sempre em todos os para sempre nas mãos dadas nos beijos deixados nos vãos das escadas nos aeroportos nos estacionamentos dos aeroportos nas chegadas foi sempre teu

e esta casa a que estou sempre a chegar

e estou sempre a ver-te e não quero e não quero pensar nas calçadas e em quando nos deitámos e me disseste não preciso do mundo para nada e o fumo do teu cigarro é minha testemunha e tu disseste para sempre e o céu estrelado é minha testemunha mais as estrelas que já não existem

e respirar fazia sentido o amanhecer das flores fazia sentido e os equinócios do coração faziam sentido na sombra dos planetas e no voo magro das estações de todos os poemas por escrever

e sempre esta casa vazia de saudades e de mar

e continuo a adormecer depois de ti e só consigo dormir contigo para sempre e nenhuma outra, juro, que só consigo dormir contigo para sempre e este para sempre é meu que só consigo dormir contigo e acordar com os teus pés fósforos nos meus os teus beijos no meu ombro olhos fechados lábios secosmolhados no meu ombro os teus braços a expandirem o mundo na tua mão a minha cintura a acordar contigo

e respirar fazia sentido

e continuo a apanhar as cuecas que deixas pelo chão órfãs meias órfãs eu órfão deixado pelo chão para sempre a receber os teus beijos pintados num espelho de batom

e não pertenço a mais ninguém e não posso amar mais ninguém e nunca hei-de fazer ninguém feliz,

só dor tenho para dar dor e uma particular maneira de sofrer e ser infeliz e de morrer miseravelmente em alguns poemas tristes

por isso digo: não se desaprende a solidão da forma em que eu te pertenço completamente: por isso digo: devolve-me

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

From Simone to Jean-Paul With Love

Aconteceu-me algo muito agradável, de que não estava de todo à espera quando parti: há três dias, dormi com o pequeno Bost. Fui eu que o sugeri, claro. Ambos o desejávamos: tínhamos conversas sérias durante o dia e as noites eram insuportavelmente opressivas. Uma noite de chuva, em Tignes, num celeiro, deitados de barriga para baixo a dez centímetros um do outro, fitámo-nos durante uma hora, adiando o momento de dormir com vários pretextos; ele tagarelava loucamente e eu procurava em vão a frase casual propícia que não conseguia forçar-me a articular - explicar-lhe-ei melhor quando nos virmos. Por fim, olhei para ele e ri-me estupidamente, e ele perguntou: "porque te estás a rir?". Eu disse: "Estava a imaginar a tua cara se eu te sugerisse que dormisses comigo." Ele respondeu: "Pensei que estavas a pensar que eu queria beijar-te e não me atrevia". Depois disso hesitámos durante mais um quarto de hora antes de ele decidir beijar-me. Ficou simplesmente estupefacto quando eu lhe disse que sempre sentira uma ternura incrível por ele, e acabou por me dizer ontem à noite que me ama há muito tempo. Gosto muito dele. Passamos dias idílicos e noites de paixão. Mas não tema encontrar-me taciturna, desorientada ou pouco à vontade no sábado; isto é algo precioso para mim, algo intenso, mas também leve e fácil e devidamente arrumado na minha vida, simplesmente um alegre florescer de relações que sempre achei muito bom.



Sartre e Beauvoir, A História De Uma Vida Em Comum, Hazel Rowley

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Para Josephine em Milão

Para Josephine em Milão,
enviado de Verona, 13 de Novembro de 1796

Deixei de vos amar e, pelo contrário, odeio-vos. Sois horrenda, muito grosseira, muito estúpida, uma verdadeira Cinderela. Não me escreveis de todo, não amais o vosso marido. Conheceis o prazer que as vossas cartas lhe dão, e não escreveis nem seis linhas, mesmo numa caligrafia descuidada.
O que fazeis o dia todo, Madame? Que assunto importa mais para vos tomar o tempo, impedindo-vos de escrever ao vosso bom amante? Que afeição vos faz reprimir e apartar o amor, o terno e constante amor, que lhe haveis prometido? Quem pode ser este maravilhoso, este novo amante, que absorve todos os vossos momentos, tiraniza os vosso dias, e vos impede de ser solícita para com o vosso marido? Josephine, tem cuidado, uma destas noites as portas vão abrir-se, e eu estarei aí.
Na verdade, estou ansioso, minha boa amie, por não receber notícias tuas; escreve-me depressa quatro páginas, dizendo aquelas coisas ternas que enchem o meu coração de sentimento e prazer.
Espero há muito estreitar-te nos meus braços e fazer chover sobre ti um milhão de beijos tão quentes como o Equador.


Bonaparte

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

quando me tocas acontecem pequenas explosões tremores de terra finíssimos dentro de mim


acredita não exagero quando digo que tu és linda e mereces alguém com a racional urgência de te dizer: és linda

todos os dias te dizer és linda as horas todas

e não exagero acredita e quando digo que és linda quero dizer és a mais linda: a manhã primeira e mais pura: a cereja que anuncia às andorinhas a primavera: a musa de todos os poetas de todos os tempos e és Constantinopla e Paris e todas as luas de Júpiter mais os anéis de Saturno e és Rainha e és de carne e osso e eu fico feliz que sejas de carne e osso e que tenhas olhado para mim pobre mortal tu que és verso e és poema e és mais que poema és o poema

por isso quero que saibas que quando olho para ti vejo-te, e também ao que insistes em guardar e é lindíssimo e o meu sabor preferido será sempre o dos teus lábios quando acabas de os molhar vejo-te e não preciso de te dizer que as estrelas só são estrelas no teu olhar e que não há mais eternidade que um instante dos teus olhos dos teus lábios do teu cheiro ou memória quente do teu cheiro e do cheiro que os teus lábios deixam nos meus 

e sim quero dar-te romance inventar dias de frio só para poder acordar contigo, acordar devagar,  ver-te acordar levar-te o pequeno-almoço à cama rir contigo enquanto te pinto a cara de nutella que me obrigas a lamber e lambo e fazer-te rolar na cama enquanto tentas escapar sem querer realmente escapar dos meus braços das minhas mãos dos meus dedos que te agarram e sentir todas as coisas entrarem num silêncio lentíssimo menos o bater do teu coração e beijar-te e inventar dias de chuva para eu e tu no sofá e uma manta eu e tu e uma manta enrolados e a preguiça a subir por nós e um certo encantamento ou magia com a Beth Gibbons a sussurrar Roads só para nós

e beber-te até nos instantes mais breves estar contigo sempre como se fosse a última vez com a magia da primeira

e mais romance e loucura e as tuas fantasias que só eu conheço porque são minhas e jantares a meia luz velas e inventar a chuva sempre que queiras dançar e a banheira pétalas velas poemas e os livros que escreverei no teu corpo de terra quente água estrela pura constelação flor nascida da erupção de um vulcão  que quando me tocas acontecem pequenas explosões tremores de terra finíssimos dentro de mim que o teu cheiro na minha almofada é uma noite de especiarias a inclinar-se sobre o dia para me receber e o teu beijo faz amanhecer em mim todas as estações até as que já não existem fora das ilhas de Neruda

mas também quero que quando olhes para mim vejas que eu também estou aqui para ser o teu ombro o teu ninho a tua casa terra firme o mar todo para as tuas lágrimas

e sei que vou ter de trabalhar para te conquistar mas o mais importante de tudo tu já sabes: saberei sempre esperar-te

e ainda que fique sozinho não estarei verdadeiramente sozinho,
estarei a esperar-te

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Meu amor, ainda queres o meu poema?


Porto, pouco tempo passa das 19 horas, o dia frio está já coberto pela noite, por ti e por mim, tu e eu viajamos como pássaros pela rua de Santa de Catarina. Estamos na fase da descoberta e da conquista num porto romântico. Abrasamos o tempo para um jantar a dois, jantar romântico a dois. Enquanto deslizamos pela calçada portuguesa de asas encostadas, passam as montras da tentação consumista a uma velocidade perturbante, assim, descobres uma montra de sapatos. Aproximas-te para veres mais de perto. Esvoaço contigo. Em frente à montra de luxo está um homem, um homem pedinte. Inclinas-te para veres os sapatos nos teus pés. Aos meus pés um mendigo de mão estendida. Curvo-me, pego-lhe na mão e digo-lhe: - mais do que uma moeda, você precisa de uma mão amiga. Enquanto analisas o brilho dos sapatos eu colo-me aos olhos radiantes deste homem, pobre homem. Dou comigo a olhares para mim e para o pobre homem pobre. Não sei o que pensas, mas sei o que penso e esqueces os sapatos, eu convenço o homem a jantar connosco. O jantar romântico a dois transforma-se num jantar a três num tasco típico com portas de saloon de Texas a amortecer os berros de quem não tem razão. Na nossa mesa, o silêncio é tão grande quanto a fome deste mendigo. Eu e tu falamos pelo olhar, ele entende tudo pelo seu passado generoso. Agradece o meu gesto, mais pela companhia do que pelo banquete. Parte para o futuro com o dever cumprido em direcção a sua casa, em direcção à rua, para voltar a deitar-se no parapeito da sapataria de luxo, onde a janela é montra, o corredor é passeio, a sala é rua, o tecto o seu céu e tudo junto a sua vida, o seu único amor. Eu e tu, sobramos com o fulgor do olhar daquele carente homem na nossa imaginação, imaginação de desejo, com um outro significado de amor.
Dizes-me, confortados ao calor dos corpos condicionados um pelo outro, que foi assim que te conquistei e pedes-me para te escrever um poema com o dedo, com o dedo a apontar o teu umbigo.
Agora que te olho lá de cima e vejo os nossos corpos satisfeitos, replicas-me o prazer de ler reflectido no tecto, no nosso tecto um poema meu do nosso amor, dum amor que não é nosso, porque o amor não tem dono. Tu és a dona do meu amor, tu és o meu amor. Mas isso não me basta, porque quero que sejas mais que o meu amor, quero que sejas o amor! Tu és o amor. Eu sou o inquilino do teu tecto. Tu és o amor. Agora que voltei a descer ao meu corpo e volto a sentir o teu amor a aquecer o meu vou escrever-te o poema no ventre, para reflectir na cobertura do céu junto das nuvens, do sol e das estrelas onde só tu e eu chegamos. Só tu vais conseguir cantá-lo para dentro de ti com a minha voz, só tu vais conseguir cantar para fora de mim com a tua voz. Afinal o nosso amor tem voz, tem voz que até sussurra a noite e arrepia o céu que também o cantará, só para ti, prometo, em refrãos de raios de sol! Sim, porque os raios são fios do teu cabelo. Sim, porque o céu é a transparência da tua bela face. Sim, porque a noite é a tua serenidade e a nossa. E é por isso que eu beijo o ar, porque o ar me sabe a ti e é por isso que me agarro à noite, porque tu te agarras a mim. Agarrado a ti, sinto-me agarrado ao amor, amor que é varanda que me cola e descola aos teus lábios, porque assim sinto-me a voar no ar, no ar do teu paladar, seguro por ti.
És a partida e a chegada dum livro que jamais escreverei, não por me faltares, não por me faltar o amor, mas por me faltarem as palavras de amor. Tu não me faltas. Ainda queres o meu poema? Eu apenas amo o amor e repito as nossas imagens nas letras, os nossos momentos em palavras. Não sou mais que um ordenhador de palavras arrumadas pela inspiração do teu amor, tu o meu amor. Ainda queres o meu poema?
Amor, que me lançaste à arena do coliseu do amor com um avental de palavras a lutar por ti, a lutar pelo amor, com um escudo de significados e perfumes teus, onde só tu assistes e a sombra de Nero. Sobram as minhas pegadas de desespero e o teu olhar que me fortaleceu levam-me à praia contigo e com o teu amor. Para ti acendo a Lua e na areia desenho a Torre Eiffel, com o mar a soprar de fundo, escalamos e lançamos o amor a voar, a voar junto. Voamos meu amor e aterramos poema...
Ainda queres o meu poema? Mas o meu poema és tu!



Jorge Carvalho

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

E quando me escrevias, era tão belo o que me contavas que me despia para ler as tuas cartas. Só nua eu te podia ler.

Sou mulher, sou Marta e só posso escrever. Afinal, talvez seja oportuna a tua ausência. Porque eu, de outro modo, nunca te poderia alcançar. Deixei de ter posse da minha própria voz. Se viesses agora, Marcelo, ficaria sem fala. A minha voz emigrou para um corpo que já foi meu. E quando me escuto nem eu mesma me reconheço. Em assuntos de amor só posso escrever. Não é de agora, sempre foi assim, mesmo quando estavas presente.
E escrevo como as aves redigem o voo: sem papel, sem caligrafia, apenas com luz e saudade. Palavras que, sendo minhas, não moraram nunca em mim. Escrevo sem ter que dizer. Porque não sei o que te dizer do que fomos. E nada tenho para te dizer do que seremos. (...) Não tenho saudade, não tenho memória: meu ventre nunca gerou vida, meu sangue não se abriu em outro corpo. É assim que envelheço em mim, véu esquecido num banco de igreja.
Só te amei a ti, Marcelo. Essa fidelidade levou-me ao mais penoso dos exílios: esse amor afastou-me da possibilidade de amar. Agora, entre todos os nomes, só me resta o teu nome. Só a ele te posso pedir o que antes te pedia a ti: que me faça nascer! De nascer outra, longe de mim, longe do meu tempo. Estou exausta, Marcelo. Exausta, mas não vazia. Para se estar vazia é preciso ter dentro. E eu perdi a minha interioridade.
Por que não escreveste nunca? Não é de te ler que mais tenho saudade. É o som da faca rasgando o envelope que trazia a tua carta. E sentir, de novo, uma carícia na alma, como se algures estivessem golpeando um cordão umbilical. Engano meu: não há faca, não há carta. Não há parto de nada, nem de ninguém.

Vês como fico pequena quando escrevo para ti? (...)

- És parecida com a terra. Essa é a tua beleza.
Era assim que dizias.  E quando nos beijávamos e eu perdia a respiração e, entre suspiros perguntava: em que dia nasceste? E me respondias, voz trémula: estou nascendo agora. E a tua mão ascendia por entre o vão das minhas pernas e eu voltava a perguntar: onde nasceste? E tu, quase sem voz, respondias: estou nascendo em ti, meu amor. Era assim que dizias. Marcelo, tu eras um poeta. Eu era a tua poesia. E quando me escrevias, era tão belo o que me contavas que me despia para ler as tuas cartas. Só nua eu te podia ler. Porque te recebia não em meus olhos, mas com o meu corpo todo, linha por linha, poro por poro. (...)

Esta noite cumpri o ritual: despi-me toda para ler as velhas cartas de Marcelo. O meu amor escrevia de modo tão profundo que, no decurso da leitura, eu sentia o braço dele roçando o meu corpo e era como se desabotoasse o vestido e as roupas desabassem a meus pés.


Marta, para Marcelo
Mia Couto, Jesusalém pp. 139 e ss.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

quando eu beijo o beijo que é meu e que tu guardas


perguntaste-me muitas vezes quando falámos ontem: mas o que é que mudou?

se calhar não mudou muita coisa: aconteceram-me os teus lábios e em mim a consciência dos teus lábios, acho que não posso explicar isto de forma mais simples e acertada, aconteceram-me os teus lábios e isto é dizer muito

aconteceram-me os teus lábios. acordei. não estavas aqui. era Outubro e Outubro não era só Outubro, era também Novembro e era Dezembro e Janeiro e eu não quero que Outubro se estenda por todas as horas que estão para nascer e morrer, ou quero mas não se não estiveres aqui e aqui é uma eternidade sem lugar
aconteceram-me os teus lábios e eu apercebi-me que tu me apeteces sempre e deixei de lutar contra o facto de tu me apeteceres sempre e por muito que morra vão apetecer-me sempre os teus braços e não me apetece lutar mais contra isso e não só os teus braços a tua pele suada  as pequenas sardas do teu pescoço nos meus dentes a tua carne a moldar-se nos meus dedos que tu és o sol que se esconde por trás do sol, um sol mais magnífico e mais radiante e mais quente, e a lua e o brilho do sol e da lua

e se te digo coisas que mais nenhum homem te diz é apenas porque tu és um  milagre criado para mim, e eu sei agora reconhecer  isso e sei também que não temos música não temos datas marcadas no calendário e provavelmente não me lembro do nome do dia em que se deu o segundo eterno em que os teus lábios tocaram os meus pela primeira vez embora lembre exactamente o que trazias vestido e se não lembro o resto é porque o resto não existiu porque quando eu beijo o beijo que é meu e que tu guardas tudo desaparece o mundo não existe os dias não existem a morte não existe, somos só nós e juro que neste momento te ouço dizer-me ao ouvido somos um só, somos um, e somos mesmo e que se lixe a música que não temos e que não existe porque quando estou contigo toda a música de que preciso vem de dentro do teu corpo toda a música e poesia vêm de dentro do teu corpo onde constelações de música e poesia me dizem somos um só me cantam somos um só me gritam somos um só

e sinceramente não acho que fomos feitos um para o outro na cama que é claro que fomos feitos um para o outro na cama, mas não só, na cama é onde já percebemos que encaixamos perfeitamente e se dá a magia mas esta magia é só um espelho da magia que podemos ter e ser e nem precisamos que tudo seja perfeito

e agora bateram-me à porta e juro que só tu na minha cabeça

 e não precisamos que seja tudo perfeito porque mesmo nos dias tristes, e não te engano, haverá dias tristes e dúvidas e já não te aturo mais, mas não precisamos que seja tudo perfeito porque mesmo nos dias tristes um fio dos teus cabelos o teu cheiro os meus braços, porque mesmo nos dias tristes e de dúvidas e de já não te aturo mais serás a única, porque tu és única porque quem te tem tem todas as mulheres que existiram e que existirão

e ainda que isto não corra como eu espero que corra ainda que tu digas não: ainda que tu suspendas o tempo: ainda que obrigues os pássaros a inventar a respiração: ainda que cales as bibliotecas,
põe-me em modo de espera , e sabe que eu saberei esperar-te
e não temas e não duvides e afasta o medo porque tu serás sempre quem os meus olhos vêem, mesmo quando já não possam ver

e ainda que não me queiras, mesmo querendo como me queres porque quando me vês só existo eu, tu cega para tudo o resto, mesmo perante a sombra desse sofrimento descansa, nunca me magoarás, nunca me farás sofrer, porque eu  saberei sempre que tu vales todos os riscos por isso saberei sempre que desta vida já recebi muito mais do que ela valia

e só um beijo teu

e sei que isto que escrevo agora não vale 19 rosas (não havia 20 na loja?), talvez não valha sequer aquela que nunca te dei, mas só as histórias verdadeiramente tristes têm rosas e rosas qualquer um pode dar e as histórias tristes têm rosas mas não têm poemas, esta história tem poemas mas não tem rosas, só pétalas deitadas numa cama, só pétalas nascidas para te esperar, para sentir o teu corpo, para marcar o teu corpo como meu, para te mostrar o caminho para casa enquanto eu te levo ao céu e ao inferno e aperto o teu corpo contra todas as paredes nascidas para o nosso calor para o teu fogo para tu morderes o lábio não só quando estás a pensar para eu em ti e tu em mim para nós um só para um cigarro que isto merece um cigarro enquanto a lua insiste em dourar o teu flanco e é tudo tão natural, tudo tão forte e natural,

e nenhum medo apenas um verso que escrevi sem saber que era para ti que o escrevia: morreria para poder seguir os teus passos molhados a caminho do quarto