segunda-feira, 24 de março de 2014

Carta a Paris

A ti.

Não faria sentido lembrar-te, ou não fosses talvez o compasso de espera que nunca se justificou – nunca vieste, nunca soube porquê. Eu tinha afinal 20 anos e tremi por várias meias horas numa Paris à chuva. Não te confundo com a ausência dele, mas talvez com a miragem de uma vida que teria acontecido diferente se tivesses vindo. Éramos todo aquele potencial que eu sentia – em delírio, talvez –, que me formigava os ombros, atraiçoava as mãos, adiava o sono. Acreditei piamente que aquela podia ser a minha história – não a nossa, mas a minha. Quase à hora de fecho, desci e subi várias vezes o Père-Lachaise.  Pergunto-me como me explicarias naquele cenário. Trazia-te gelado comigo, na tentativa de não te prever, de fingir que não te esperei a vida inteira. Mas esperei.
Tudo isto foi real. Naquela noite, sobraram em mim – e em ti, sem dúvida – todas aquelas madrugadas que me prometeste. Era assim mesmo, dir-te-ia – naquela altura eu não chorava como agora. Fui embora e não voltei a Paris. Continuo o luto porque desejei aquela “história-triste-que-daria-boas-cartas”, mais do que tudo. Mais do que a ti. Investi toda a honestidade e traição e vergonha que trouxe daquela noite, na vertigem que seria viver-te de novo. Tenho-te raiva. Sinto-me longe de tudo o que fui, quando querer-te era um engano. Preciso continuamente de ir embora e esquecer que me falhaste, que eu te falhei, que eu nunca fui o que precisaste. Esquece o atrito. Esquece a rotina. Não havia nada disso – tenho a certeza – quando naquela noite te esperei na sombra dos monumentos.  Foi no dia 13 de Novembro de 2010. Perdoei-te esse dia, e os outros. Por favor, não me esqueças. Tu não me escolheste, mas eu escolhi-te (escolho-te) em todas as insónias. Fui feita para todas as portas que me fechaste, para todos os sambas que eu não dancei, para todas as cartas sem resposta, para todos os homens que chamei de outros.

Por favor, não me esqueças.

Beatriz

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terça-feira, 18 de março de 2014

carta a coimbra

o atrito. todo o atrito. todo e qualquer atrito. todo e qualquer atrito pode ser vencido. a minha mão a cobrir a tua, o caule bonito de uma rosa, olisipo. todo o atrito pode ser vencido. a primeira vez que me disseste boa noite, a tua alma de flor, as pequenas coisas de que és feita.

todo e qualquer atrito. as tuas cartas. todos os telhados de lisboa. um pequeno pedaço de luz. a rotina dos teus braços à volta do meu pescoço. coimbra. évora. s. paulo. todos os lugares onde amanhece a tua geografia. a geometria dos teus passos. os teus silêncios. as tuas demoras. as tuas ausências. 

o gesto que desenhavas ao apertar o casaco mais as coisas insignificantes que me dizias.

a distância existe. o atrito. a rotina perde-se sem a rotina. e a rotina é uma coisa boa. quem diz o contrário não sabe o que são os dias sem ti. a rotina é boa porque é  feita de milhares de coisas muito pequeninas e boas. mas a rotina perde-se com a distância. na verdade talvez nada permaneça. talvez esse seja o segredo do mundo. talvez nada do que possas fazer para salvar o teu coração tenha importância. mesmo que sobrevivas. 

não devias ter partido. e não devias ter evitado a despedida com a desculpa de que não gostas de despedidas. as despedidas são reencontros que se demoram. as despedidas são o sal da pele. a própria pele. a tua pele. os teus cotovelos. o medo de te perder. que estúpido me parece tudo agora que a distância existe. o estúpido medo de te perder.

e a distância existe. por isso esta cama que não é a tua. este cheiro que não é o teu. um cheiro de que só lembro porque não é o teu. por isso esta língua. estes dedos nos meus lábios. estes lábios nos meus lábios. por isso todos os amanheceres que o teu corpo me nega. por isso todos os amanheceres. 

a primeira vez que me disseste boa noite.

eu nunca te pedi que existisses. que fosses a minha metade. que fosses janela de chuva em tarde de mantas e livros. nunca pedi a tua mão no meu ombro. que me abraçasses por trás. que me acordasses com beijos cheiro a café silêncios ou outro qualquer milagre do quotidiano. eu não te escolhi. nunca vi nos teus olhos laranjeiras a multiplicar o sol nem pétalas de jardim. não devias ter deixado para trás todas as horas que esperei por ti. devias ter levado tudo. mais as promessas que eu nunca quis, aquele banco de jardim, o teu lado da cama. que  eu nunca te pedi explicações que tivesses que inventar. nunca te exigi mentiras. nunca te pedi que chegasses à hora certa. que viesses sequer. nem a tua respiração no meu ouvido. a tua rua inteira. 

e estou tão farto dessa história de que as histórias tristes dão boas cartas. 

quero que chegues. já não sei chorar. tenho as mãos vazias e sobrou tanto tempo.