sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Carta a um jovem poeta

Roma,
14 de maio de 1904

Meu caro senhor Kappus, 

Passou muito tempo desde que recebi sua última carta. Não me guarde rancor; primeiro foi o trabalho, depois uma perturbação e finalmente uma doença que me impediram de dar uma resposta que partisse (assim eu queria) para o senhor de dias calmos e agradáveis. Agora me sinto novamente um pouco melhor (o início da primavera, com suas transições cruéis e geniosas, também foi difícil por aqui) e venho cumprimentá-lo, caro senhor Kappus, e lhe dizer (o que gosto muito de fazer) uma ou outra coisa sobre sua carta, da melhor maneira que posso. O senhor pode notar que copiei seu soneto, porque achei que ele é belo e simples, nascido em uma forma na qual se desenrola com tão tranquila sobriedade. São os melhores versos que cheguei a ler de sua parte. E agora lhe dou essa cópia, porque sei que é importante e uma experiência inteiramente nova reencontrar um trabalho próprio escrito com a letra de outra pessoa. Leia os versos como se fossem alheios, então sentirá de maneira mais íntima o quanto são seus... Foi uma alegria para mim ler muitas vezes esse soneto e sua carta; portanto agradeço pelos dois. Não se deixe enganar em sua solidão só porque há algo no senhor que deseja sair dela. Justamente esse desejo o ajudará, caso o senhor o utilize com calma e ponderação, como um instrumento para estender sua solidão por um território mais vasto. As pessoas (com o auxílio de convenções) resolveram tudo da maneira mais fácil e pelo lado mais fácil da facilidade; contudo é evidente que precisamos nos aferrar ao que é difícil; tudo o que vive se aferra ao difícil, tudo na natureza cresce e se defende a seu modo e se constitui em algo próprio a partir de si, procurando existir a qualquer preço e contra toda resistência. Sabemos muito pouco, mas que temos de nos aferrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom ser solitário, pois a solidão é difícil; o facto de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la. Amar também é bom: pois o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda não podem amar: precisam aprender o amor. Com todo o seu ser, com todas as forças reunidas em seu coração solitário, receoso e acelerado, os jovens precisam aprender a amar. Mas o tempo de aprendizado é sempre um longo período de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida, solidão, isolamento intenso e profundo para quem ama. A princípio o amor não é nada do que se chama ser absorvido, entregar-se e se unir com uma outra pessoa. (Pois o que seria uma união do que não é esclarecido, do inacabado, do desordenado?) O amor constitui uma oportunidade sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si mesmo por causa de uma outra pessoa; é uma grande exigência para o indivíduo, uma exigência irrestrita, algo que o destaca e o convoca para longe. Apenas neste sentido, como tarefa de trabalhar em si mesmos ("escutar e bater dia e noite"), as pessoas jovens deveriam fazer uso do amor que lhes é dado. A absorção e a entrega e todo tipo de comunhão não são para eles (que ainda precisam economizar e acumular por muito tempo); a comunhão é o passo final, talvez uma meta para a qual a vida humana quase não seja o bastante. É aí que os jovens erram com frequência, gravemente: pelo facto de eles (faz parte de sua natureza não ter paciência alguma) se atirarem uns para os outros quando o amor vem, derramando-se da maneira como são, em todo o seu desgoverno, na desordem, na confusão... Mas o que deve resultar disso? O que a vida deve fazer desse acúmulo de equívocos a que eles chamam de união e gostariam de chamar de sua felicidade? E o futuro? Então cada um se perde por causa do outro e perde o outro e muitos outros que ainda desejariam surgir. Perdem-se as vastidões e as possibilidades, troca-se a aproximação e a fuga de coisas quietas, cheias de pressentimentos, por um desespero infrutífero do qual nada mais pode resultar; nada mais do que um pouco de náusea, desapontamento e pobreza, e com isso a salvação em uma das muitas convenções que estão disponíveis em grande número, como abrigos para todos nesse caminho extremamente perigoso. Nenhuma região da experiência humana é tão munida de convenções quanto essa: salva-vidas dos mais diversos, botes e bóias; refúgios de todos os tipos foram criados pela compreensão comum, pois ela estava inclinada a considerar a vida amorosa como um prazer, por isso tinha de torná-la fácil, barata, inofensiva e segura, como são os prazeres públicos.  De facto muitos jovens que amam de modo falso, ou seja, simplesmente entregando-se, sem preservar a solidão (a maioria não passará nunca disso), sentem a opressão de um erro e querem, de uma maneira própria e pessoal, tornar vivida e fértil a situação em que se precipitaram. Pois a sua natureza lhes diz que as questões do amor, de tudo o que é importante, são as que menos podem ser resolvidas abertamente, segundo um acordo qualquer; são perguntas íntimas feitas de uma pessoa para outra, perguntas que exigem em cada caso uma resposta nova, especial, apenas pessoal. Mas como é que eles poderiam encontrar uma saída em si mesmos, do fundo de sua solidão já desperdiçada, eles que se atiraram, que não se delimitam nem se diferenciam, e que portanto não possuem nada de próprio?
Os jovens tomam atitudes a partir de um desamparo comum e, quando querem evitar de boa vontade a convenção que se anuncia (por exemplo o casamento), caem nos braços de uma solução menos explícita, mas igualmente convencional e mortal. Pois tudo o que existe em torno deles é convenção; onde quer que se trate de uma comunhão precipitada e turva, todas as atitudes são convencionais. Toda relação resultante de tal mistura possui a sua convenção, mesmo que seja pouco usual (ou seja, imoral em sentido comum). Até a separação seria um passo convencional, uma decisão ocasional e impessoal sem força e sem frutos. Quem observa com seriedade descobre que, assim como para a morte, que é difícil, também para o difícil amor não se reconheceu ainda nenhum esclarecimento, nenhuma solução, nem aceno, nem caminho. Para essas duas tarefas, que carregamos e transmitimos secretamente sem esclarecer, nunca se achará uma regra comum baseada em um acordo. Contudo, à medida que começamos a tentar a vida como indivíduos, essas grandes coisas se aproximam muito de nós, os solitários. As exigências que o difícil trabalho do amor impõe ao nosso desenvolvimento são sobre-humanas, e nós, como iniciantes, não podemos estar à altura delas. Mas se perseveramos e assumimos esse amor como uma carga e um período de aprendizado, em vez de nos perdermos em todo o jogo fácil e frívolo atrás do qual as pessoas se esconderam da mais séria gravidade de sua existência, talvez se perceba um pequeno avanço e um alívio para aqueles que virão muito depois de nós; e isso já seria muito. No entanto, só chegamos no máximo a considerar objectivamente e sem preconceitos a relação de um indivíduo com outro indivíduo, e nossas tentativas de viver tais relacionamentos não têm nenhum modelo diante de si. Mesmo assim há, na própria passagem do tempo, algo que ajuda a nossa iniciação hesitante. A menina e a mulher, em seu desdobramento novo e próprio, serão apenas de passagem imitadoras dos vícios e das virtudes masculinos e repetidoras das profissões dos homens. Depois da incerteza dessas transições, o que se revelará é que as mulheres só passaram por todos esses sucessivos disfarces (muitas vezes ridículos) para purificar sua própria essência das influências deformadoras do outro sexo. As mulheres, nas quais a vida se instala e habita de modo mais imediato, frutífero e cheio de confiança, no fundo precisam ter se tornado seres humanos mais maduros, mais humanos do que o homem, pois ele não passa de um ser leviano, que é mergulhado sob a superfície da vida pelo peso de um fruto carnal, que menospreza, arrogante e apressado, aquilo que pensa amar. Essa humanidade da mulher, realizada em meio a dores e humilhações, virá à tona quando ela se tiver livrado das convenções do exclusivamente feminino nas transformações de sua situação exterior. E os homens, que hoje não a sentem vir ainda, serão surpreendidos e derrotados por essa humanidade. Um dia (já agora, especialmente nos países nórdicos, os indícios confiáveis a favor disso são eloquentes), um dia se encontrarão a menina e a mulher cujos nomes não significarão apenas uma oposição ao elemento masculino, mas algo de independente, algo que não fará pensar em complemento ou em limite, apenas na vida e na existência: o ser humano feminino. Tal progresso transformará profundamente a vivência do amor, agora cheia de equívocos, trará alterações profundas (a princípio contra a vontade dos homens ultrapassados), configurando uma relação de ser humano com ser humano, não mais de homem e mulher. E esse amor mais humano (que se realizará de modo infinitamente delicado e discreto, certo e claro, em laços atados e desatados) será semelhante àquele que nós preparamos, lutando com esforço, portanto ao amor que consiste na protecção mútua, na delimitação e saudação de duas solidões. E ainda isto: não creia que aquele grande amor que um dia se impôs ao senhor, quando garoto, se perdeu. Será possível saber com certeza se, naquele tempo, não amadureceram grandes e belos desejos, propósitos dos quais o senhor vive ainda hoje? Acredito que aquele amor permanece tão forte e intenso em sua lembrança porque foi sua primeira solidão profunda, o primeiro trabalho íntimo com que o senhor elaborou sua vida. 

Tudo de bom, caro senhor Kappus! 

Seu, 

Rainer Maria Rilke

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Cartas a Bordeaux I

Dia 88. É um ciclo vicioso, sabes? O fazer as malas e ir embora. Como sempre fiz. Dizem que por isso estou melhor. Que estou melhor nesta espiral de desencontros, onde tudo ficou demasiado longe. Um dia a fuga acaba e um dia eu volto a Coimbra e volto ao tudo do qual fugi. Já não é sobre o amor romântico que ficou por acontecer. Não é o fininho de um violino que chora por todas as nossas adolescências tardias. É aquela coisa, aquela outra coisa, das nossas histórias trancadas em dispensas, um passado de putas e vinho verde e de arrependimentos que nos embalam a noite e de viagens de onde nunca regressamos. Lutamos todos os dias para que nos deixem ser pessoas por inteiro, e luto todos os dias para que me deixem ser mulher por inteiro. Para que me deixem ser doente e para que me deixem ficar melhor todos os dias.

Ontem voltei a casa pelo caminho mais longo, no frio da noite e no frio das línguas estranhas. A França é mesmo assim. O sítio mais seguro do mundo para se fugir sozinha. Um perfeito limbo para os que já não sabem ficar. Há tristeza em tudo isto, e da insatisfação nasce a capacidade de fazer dos homens improváveis a nossa casa. E ainda que seja amor, é também contrariedade. Estarei sempre de partida porque ninguém consegue apagar o que Coimbra escreveu, e estarei sempre ausente porque de repente lembramos que doeu em sítios que não deveriam sequer existir.

Beatriz

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

terceira carta

neste quarto onde passo as noites mais inteiras, onde o céu chove muito com a distância, onde chove o céu e tu não estás procuro-te: na vertigem da pele: na possibilidade de fotografias antigas: no cheiro das coisas simples.

todos os vossos começos não chegaram. todos os vossos começos não seriam nunca suficientes. todos os vossos começos seriam sempre recomeços, apenas isso, recomeços: a porta entreaberta: as pegadas mal apagadas: as folhas a falhar a queda.

eu nunca fui muito bom a deixar a porta entreaberta, por isso custa-me um bocadinho a perceber como tu não consegues dizer adeus, e nunca fui muito bom a deixar pegadas, a ficar a ver a queda, 

a não querer tudo para além de uma página quebrada.

sei que um dia vais acordar. sei que um dia vais acordar e já não vais sentir o sabor dele na tua boca, naquele fundo de mundo quase esquecido, e sei que nesse dia vais sorrir, um sorriso feito de azul e especiarias, o teu sorriso das coisas bonitas. sei, e sei que vou estar aqui nesse dia, aqui mesmo, na fronteira do teu pulso, nas cores do teu outono, na vocação imóvel com que te ofereço as chaves deste lugar tão próximo do coração.

não falta muito.

 já te apercebeste disso. não falta muito: o tempo que finalmente voltou à sua cadência normal, esquecendo-se da eternidade de todos os segundos, as tuas coisas que já não se lembram dele, a voz dele a ser menos dele, o cheiro dele a ser menos teu, menos da tua pele dos teus lábios do contorno perfeito dos teus lábios dos teus dedos de tocar pianos dos teus cabelos acabados de apanhar,

ficas linda com o cabelo acabado de apanhar, mesmo não sendo por minha causa,

e menos dele a parte de trás do teu pescoço, a parte de trás do teu pescoço, as costas das tuas mãos, a tua respiração.

não falta muito. as coisas dele não existem subitamente para além do fundo daquela gaveta que não existe. não falta muito e os domingos  poderão voltar a ser dos puzzles e  dos lençóis enrugados, das horas tardias e das chávenas de chá de que vens aprendendo a gostar, e das mantas e dos livros, da casa e dos pássaros, dos teus pássaros, com a manhã a fazer-se para lá da ausência para lá da memória para lá de tudo o que foi e vai deixando de ser porque nunca foi verdadeiramente.

e sim, haverá dias em que as coisas não farão sentido, as coisas todas estúpidas como um carro em contramão, as coisas todas mais estúpidas do que um carro em contramão, em que a resposta parecerá mais certa com a proximidade das lágrimas, mas nada disso será por culpa dele, que nunca te escondeu poemas para que os encontrasses às horas em que pensas que o silêncio é tudo, que nunca te deixou um livro aberto numa página em que estava uma frase que lhe parecia ter sido escrita para ti , que nunca se importou com os teus livros ou percebeu o que querias dizer com os livros têm cheiro e é possível viver dentro dos livros, ainda que só por um bocadinho, ele que nunca percebeu, ainda que tenha dito que percebia. quem percebe não parte, ainda que o caminho teime em se fazer longo. quem percebe levanta-se às 3 da manhã com a urgência de te dizer: és tão bonita: serão sempre todas minhas as saudades tuas: chega-te para aqui, ainda que depois volte a adormecer e de manhã só se lembre que acordou às 3 da manhã com a urgência de te dizer alguma coisa de que depende todo o amanhecer do mundo.
quem percebe não parte

talvez não o saibas, estás aqui agora. estás aqui agora e eu vou aproveitar para te dizer baixinho ao ouvido: vais gostar do meu abraço, do meu chega-te para aqui, das minhas saudades tuas.

estás aqui agora e eu vou aproveitar para te dizer baixinho ao ouvido: gosto das tuas pernas surpreendentemente bonitas e isso é tão pouco importante, apesar das tuas pernas surpreendentemente bonitas, porque tu gostas de nuvens e de relâmpagos e de citar lord henry em vão e isso sempre seria suficiente.

e gosto das nossas conversas. devíamos estar a conversar agora, agora-agora não, depois de leres esta carta pela segunda vez. gosto das nossas conversas e gosto das coisas inteligentes que dizes, sem precisares de parecer inteligente, e da tua falta de tolerância e que saibas da importância dos pormenores, mesmo não gostando de horas certas.

é por causa dos pormenores que ao leres as minhas-cartas-tuas vou imaginar-te sempre menina completamente de preto, sapatos amarelos, sentada debaixo de uma romãzeira, o sol a tomar os pés, um vento bom, que anuncia o outono, a tocar os braços

e um sorriso que se inicia às 10:35 e espera, não, estende-se até às 11.47.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

carta do futuro

Milfontes, 15 de Novembro


gosto de gostar de ti. não gosto quando penso que posso vir a deixar de gostar de ti. gosto de coisas simples e gosto de ti. acho que és a única complicação de que gosto. gosto de aprender a voar contigo. não gosto do natal. gosto do natal contigo. gosto de jogar às cartas no natal. não gosto do natal. gosto de fazer o pinheiro contigo. gosto de parar e olhar o mundo contigo. só parar e olhar. gosto de janeiro e de dias frios contigo. e não gosto de janeiro mas gosto de dias frios. gosto de ter saudades tuas. a saudade às vezes magoa. gosto de ter saudades tuas e gosto quando dizes saudade. gosto de sonhar contigo e de pensar em ti. gosto dos teus vestidos em ti. gosto dos teus pés. os teus pés são feios mas gosto dos teus pés. gosto das tuas palavras. gosto das cores que dizes que cabem no peito. gosto de casas e gosto que gostes de casas. gosto que saibas o que dizem os pássaros. gosto que sejas tão especial. gosto que a tua presença na minha vida me torne tão especial. gosto das tuas unhas finas de pianista. gosto dos teus lábios. são mais bonitos do que pensas os teus lábios. gosto que não saibas que gosto destas coisas todas em ti. gosto que me tenhas dado tanto trabalho a conquistar-te. podias ter-te poupado um pouco no esforço de me teres dado tanto trabalho a conquistar-te. gosto quando dizes que és uma pessoa pouco recomendável embora nunca to vá dizer nem perceba bem o que queres dizer com isso. gosto de dióspiros. parece-me sempre que os dióspiros trazem muito sol dentro. gosto de dióspiros e gosto que os dióspiros me lembrem a primeira carta. gosto de dióspiros contigo dentro. gosto que gostes de dias calmos. gosto da tua fragilidade que não expões. gosto da tua força. gosto dos teus ombros e sim sei que é fácil gostar de ombros. gosto das tuas costas. gosto de cada centímetro da tua pele. gosto que sejas tão picuinhas com certos detalhes. gosto de te ouvir ler baixinho no quarto. gosto de falar de ti e gosto de ouvir falar de ti. gosto que saibas que nem todas as palavras são bonitas. gosto dos teus ombros e sim sei que é fácil gostar de ombros. gosto dos teus ombros. gosto do anel no teu indicador direito. gosto do anel no teu indicador esquerdo. gosto que saibas apreciar a letra das pessoas mais velhas. gosto quando lemos ao mesmo tempo o mesmo livro. gosto que sejas distraída para algumas coisas. gosto da tua intolerância. já disse na terceira carta que gostava da tua intolerância. gosto de te abraçar. gosto de te abraçar enquanto dormes. gosto de te ver dormir. gosto de te ver dormir e gosto de te ver acordar. gosto de te dizer que estou a escrever para ti. gosto de te escrever. vou gostar sempre.


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Cartas de Lille XXIII

Respirei três vezes fundo e enviei a última mensagem para lhe dizer que nunca mais nos iríamos ver. E pouco depois, de respiração suspensa, li aquela última resposta de cordialidade e indiferença, toda ela carente de qualquer pontinha de despeito. Dei por mim no sítio onde o conheci, há tantos meses atrás, e compreendi tudo aquilo que custa compreender à luz do romance. Mas um dia o romance fica para trás, naquela estação apinhada de gente, naquele quarto tão completamente estranho para mim. E não nos doí quase nada, porque amor é uma outra coisa, e debaixo de tanta crosta mal cicatrizada, fiz o que pude, dei tempo ao tempo e decidi não o procurar nunca mais. Dizem que a vida se arruma por passos.
E no entanto, 11 meses se passaram, sob chuva constante, no passo lento de todos os meus regressos a casa, na implacável busca de um referencial para quem, não importa a que horas, pudesse voltar. Enterrei, uma por uma, todas as histórias. Reli pela última vez os primeiros emails, guardei para sempre todas as lembranças numa caixa de cartão, desfiz-me do que pudesse manter viva toda a espécie de rancor ou esperança.
Só não sei o que fazer contigo.

Beatriz

no maravilhoso Cartas de Coimbra, aqui.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Carta de um poeta para uma donzela do séc. XV

Isto é uma confissão, uma radiografia...aqui me tens, e se quiseres saber o que eu realmente sinto por ti só tens que chegar ao fim destas linhas (que não são poucas). Se não quiseres saber a solução é ainda mais simples:pára aqui e lixo com estas letras! Vou tentar pôr tudo da forma mais simples, sem preocupações técnicas ou linguísticas, o tempo para impressionar já lá vai, o objectivo é só o de apresentar o homem, sem máscaras, nu...
Graças (...) não poderás ver, nem sentir talvez, a minha mão a tremer, como treme a mão de um miúdo que apaixonado pela primeira vez não sabe o que fazer. Também eu não estou bem certo do que fazer, por isso estas linhas, na ilusão da bondade do poeta:"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir".
O que sinto por ti é grande, muito maior do que gostaria, pelo menos neste momento...Não sei se é amor, nem sei se o amor se pode pôr em palavras, nem sei se há amor sem ser recíproco...mas sei que é bem forte...tão intenso...Não é simples atracção, e nada do que sinto exagero, quando muito minimizo (sempre o peso da razão!). Fui claramente ultrapassado pelo meus sentimentos. Se eu me colocaria voluntariamente nesta posição, gostar assim de ti sem saber o que tu sentes? A resposta nunca poderia ser positiva. Para além de tudo, não nos conhecemos assim há tanto tempo, nem tão bem...o que em vez de menorizar só agrava o meu drama interior. De onde me vem tudo isto então? Não sei de onde vem (nem para onde vai), mas sei o que se passa cá dentro quando estamos juntos e, sobretudo,sei o que se passa quando não estamos (e continuas presente). Não sei se quando estou contigo a minha felicidade é visível, mas sendo-o é infinitamente menor à que sinto. E se não estamos juntos o meu primeiro pensamento é: quando é que a vou voltar a encontrar no caminho. Penso em ti e quero estar contigo, e é mais forte que eu.
É verdade, o primeiro "impacto" contigo é sempre positivamente traumático: és muito mais do que o exteriorizas. O teu "invólucro" (que palavra, perdoa) fica muito aquém, e ainda assim é o que é! És diferente, linda e inteligente (combinação tão fatal)...agora já sei a resposta à pergunta que te coloquei algumas vezes: o que é tu fazes aos homens?, a resposta não podia ser mais simples:nada...existes...és especial e és única. Tens razões para não trocar esse sorriso (a tua alma, dizes...pelo menos espelho ou janela para a alma) por nada, quem trocaria um sorriso que talvez, só, tenha inspirado todos os poetas de todos os tempos! E esse olhar (também aqui as palavras são poucas mas nunca seriam demais) que tantas vezes tentei capturar para mim, guardá-lo bem no fundo do meu ser, num daqueles locais onde, mesmo com chave, ninguém pode entrar...
Isto é o que representas para mim...não sei se é muito ou pouco, sei que é muito mais do que eu gostaria: porque não sei o que sentes por mim e, sobretudo, porque sei que as mulheres como tudo são as mais difíceis de esquecer, são sempre necessária muitas mulheres para se esquecer uma mulher inteligente, já o disse um qualquer génio.
Na verdade, gostaria que gostasses assim de mim...se não for nesta vida espero por outra, temo muito que ainda assim fico a ganhar.

Carta Anónima (Revista Para Português Moderno)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Fazes-me falta

Há tanta coisa que te queria dizer mas as palavras não chegam… Não são suficientes para que te possa dizer tudo o que sinto, tudo o que quero, tudo o que desejo. Queria estar ao teu lado neste momento, fazer-te crer que os milagres acontecem e que tudo terá um final feliz. Queria dar-te as poucas forças que ainda me restam e me fazem continuar a lutar por ti, por nós… Queria que soubesses que não estás só nesse barco. Eu estou aqui para te ajudar a remar contra a maré e encontrares o teu porto seguro. Deixa-me mostrar-te o caminho. Deixa-me ser o teu porto de abrigo. A almofada onde todas noites depositas os teus sonhos e as tua lágrimas de fraqueza… Deixa-me mostrar-te que mesmo os dias mais frios de Inverno têm um calor especial… Que a neve derrete com o calor do teu olhar… Deixa-me fazer parte do teu caminho e verás que ele não será tão difícil de percorrer… 
Ah… se o tempo voltasse atrás, se tudo o que me fizeste sentir voltasse a acontecer… se o tempo parasse naquele dia naquela hora naquele momento… se voltássemos a dançar uma vez mais… se me voltasses a tocar uma vez mais como naquela vez…

 Xaninha Silva

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Amado da minha alma

Amado da minha alma,

Às vezes o estado de corpo-alma que se apodera de mim na tua ausência aparenta pertencer mais ao céu do que ao inferno. Chega de manso e é amenamente que plana e pousa sobre mim; entra-me pelos poros com a naturalidade de um perfume de ambiente, deposita-se nos interstícios da memória numa lentidão quase deliciosa. Eu fico quieta, a ver esse deslizar de imagens, de gestos, e de instantes que tendo sido de mim para ti ou de ti para mim se tornaram nossos ao nascer. Por momentos, fico assim suspensa entre o passado e o presente, entre a vida e um além, não sei se feliz, se apenas à beira de um torpor adquirido num vago flutuar do desejo. Nada me dói - nenhuma recordação, nenhum receio; nada me inflama. É um estado  de anestesia que eu imagino reinar no céu, um nada sentir em que o ser se deixa diluir. Mas eis que subitamente um frio ardente me penetra e então sacode-me a convulsão da saudade. É o gume da espada do anjo implacável que me expulsa deste paraíso em que, afinal não fui mais que Eva enganada pelas mil serpentes geradas no ventre doloroso da tua ausência.

Maria Ripichi

domingo, 20 de outubro de 2013

segunda carta

desarranjas-me a respiração

como se por um segundo não houvesse terra firme para os meus pés    quando me olhas

o sangue circula muito devagar nas veias lentas tudo descompassado, um esforço constante para me equilibrar, um esforço constante para não parecer tão pateta como sou.

são 07:39 em algum lugar do mundo. são muitas vezes 07:39 no lugar que sou.

escrevo-te e  não sei que horas são para além das 07:39 no lugar que sou, mas sei que não é a primeira vez que penso em ti hoje: pensei em ti antes de começar a escrever isto: agora enquanto escrevo e mesmo depois da última letra do último ponto da última respiração sei que vou pensar em ti, por isso esta carta não terminará na última letra ponto respiração, por isso esta carta não terminará, nem quando a estiveres a ler e me souberes a pensar em ti, cada palavra a pensar em ti, cada palavra a pensar que devias sorrir mais e que se o tempo existisse para lá da solidão quieta dos relógios devia parar nos instantes dos teus sorrisos

tão absolutamente linda ficas quando sorris.

hoje li a tua carta outra vez (´a primeira melhor carta de sempre`). leio muitas vezes a tua carta. às vezes leio a tua carta para me sentir mais perto de ti, como se a palavra escrita pudesse interromper os quilómetros a insónia a distância. hoje li a tua carta outra vez, não me canso de dizer: a tua carta, a tua carta que não poderia ser para mais ninguém, e eu sei que sabes disso como os pássaros sabem da chuva: antiquíssima, misteriosa e delicadamente.

também esta carta é para ti. e escrevo-te para que estas cartas possam ser um bocadinho como as tuas árvores de silêncio, onde podes encontrar refúgio, árvores de silêncio que podes cheirar e apertar contra o peito, o silêncio no meio das palavras, a comunicação primeira.

árvores de silêncio a existir por ti.

escrevo-te mas o que queria mesmo era coleccionar primaveras para ti segurar-te pela cintura falar-te ao ouvido poder dizer muitas vezes tu e eu e escrever e sentir a tua pulsação o solstício na nudez dos teus pulsos e ser Coimbra da tua janela: a alta o pátio da faculdade de direito, pequena fábrica onde se desenham as nuvens, as escadinhas de ruas estreitas e arcos a caminho do rio  e um esforço constante para me equilibrar quando tu me olhas as veias todas muito devagar o sangue devagar as constelações todas devagar e relâmpagos no peito, tudo descompassado 

quando me olhas.


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Amado

Amado,

Resisti à tentação de te escrever desde que soube que eras o autor daquelas missivas ardentes que, de há duas semanas a esta parte, chegaram a esta casinha de chamas, de alegria, de nostalgia e esperança, e ao meu coração e às minhas entranhas de doce fogo que abrasa sem queimar, o do amor e o do desejo unidos em casamento feliz.
Para que havias de assinar cartas que só tu podias escrever? Quem me estudou, formou, inventou, como tu fizeste? Quem poderia falar dos pontinhos vermelhos das minhas axilas, das rosadas nervuras das cavidades ocultas entre os dedos dos meus pés, dessa «franzida boquinha circundada por uma circunferência em miniatura de alegres ruguinhas de carne viva, entre azulada e plúmbea, à qual é preciso chegar escalando as lisas e marmóreas colunas das tuas pernas?» só tu, amor meu.
Soube desde as primeiras linhas da primeira carta, que eras tu. Por isso, antes de a acabar de ler obedeci às tuas instruções. Despi-me e pousei para ti, diante do espelho, imitando a Dánae de Klimt. E voltei, como tantas noites saudosas na minha solidão actual, a voar contigo por esses reinos de fantasia que explorámos juntos, ao longo daqueles anos compartilhados que são, para mim, agora, uma fonte de consolo e de vida à qual volto para beber com a memória, a fim de suportar a rotina e o vazio que sucederam ao que, a teu lado, foi aventura e plenitude.
Na medida das minhas forças, segui ao pé da letra as exigências - não, as sugestões e pedidos - das tuas sete cartas. Vesti-me e despi-me, disfarcei-me e mascarei-me, deitei-me, dobrei-me, desdobrei-me, acocorei-me e encarnei - com o corpo e a alma - todos os caprichos das tuas cartas, pois que prazer maior, para mim, que comprazer-te? Para ti e por ti, fui Messalina e Leda, Madalena e Salomé, Diana com o seu arco e as suas flechas, a Maja Nua, a Casta Susana surpreendida pelos velhos luxuriosos e, no banho turco, a odalisca de Ingres. Fiz amor com Marte, Nabucodonosor, Sardanapalo, Napoleão, cisnes, sátiros, escravos e escravas, emergi do mar como uma sereia, aplaquei e aticei os amores de Ulisses. Fui uma marquesinha de Watteau, uma ninfa do Ticiano, uma virgem de Murillo, uma Madonna de Piero della Francesca, uma gueixa de Fujita e uma desgraça de Toulouse-Lautrec. Custou-me pôr-me em pontas como a bailarina de Degas, e, podes crer, para não te defraudar até tentei, à custa de cãibras, transformar-me naquilo a que chamas o voluptuoso cubo cubista de Juan Gris.
Jogar novamente contigo, ainda que à distância, fez-me bem, fez-me mal. Senti, de novo, que era tua e tu eras meu. Quando acabava o jogo, a minha solidão aumentava e entristecia-me ainda mais. Está perdido para sempre, o que se perdeu?
Desde que recebi a primeira carta, vivi à espera do dia seguinte, devorada pelas dúvidas, tentando adivinhar as tuas intenções. Querias que te respondesse? Ou o enviar-mas sem assinatura significa que não queres entabular diálogo, mas somente que eu escute o teu monólogo? Porém, a noite passada, depois de ter sido, docilmente, a laboriosa senhora burguesa de Vermeer, decidi responder-te. Qualquer coisa, do fundo obscuro da minha pessoa onde só tu mergulhaste, obrigou-me a pegar na caneta e no papel. Fiz bem? Não terei infringido essa lei não escrita que proíbe à figura de um retrato sair do quadro para falar com o seu pintor?
Tu, amado, sabes a resposta. Dá-ma a saber.


in Os Cadernos de Dom Rigoberto

domingo, 29 de setembro de 2013

Hei-de amar-te mais

Cristina,

Agora que os contornos deste amor são públicos - e que me pedem este texto - e tornar público não passa de comunicar com mais antenas, pergunto como nos lerão nesta sociedade do espetáculo que tudo reduz a novelas e exibicionismos descartáveis? Quis dar notícias ao mundo, um discurso meu, interior, o mais fundo e mais alto que fui capaz, sem ambição a regra universal. Os fragmentos do discurso amoroso dizem pouco de um amor, do amor, esse enigma que nunca saberemos dizer porque não é importante reduzi-lo a fórmulas, encerrá-lo, aprisioná-lo. Ouvi já chamarem-lhes, às coisas que te escrevi, um elogio do amor e da loucura, como se amar e ser louco fossem fios inseparáveis da mesma meada, um novelo de emoções e sentimentos possuídos por energias descontroladas, sinapses (arcaicas) em sobressalto, intuições puras nascidas no instante do êxtase que poderão ser instantes de graça e não devaneios confundidos com arte.
Vim aqui falar de amor, do meu amor, da minha ideia de amor e de como o sofrimento é inevitável, de como nenhuma criação se faz sem a dor do esforço. Talvez não saibam mas comecei logo a escrever-te. A primeira vez escrevi sobre ti e logo ali puderam ler da minha fascinação, numa deslocada prática de jornalismo comprometido. Entrevistei-te e dei ao artigo o título suspeito de «Voto em Branco».
A circunstância de jogar fácil com o trocadilho do apelido escondia a minha admiração profunda por teres sido capaz de te entregar à conversa íntima sem qualquer manobra de convencimento de diva no seu pedestal. Logo ali foste a pessoa generosa, franca, humilde como sempre és diante de qualquer pessoa que te procure através dos tempos. Não fomos um caso de amor à primeira vista, um coup de foudre , uma canção do bandido ou da bandida. Por muitas e variadas circunstâncias derramadas neste diário posso achar (e gosto de pensar) que somos um reencontro, que és sempre tu a mesma em todas as vidas, a dos ensinamentos maiores, a do livro dos prazeres e da aprendizagem. Dizes que quando me viste chegar disseste ao teu botão esquerdo, «pronto, lá mandaram mais um estagiário», ainda por cima fraca figura, aloirado, esquálido e com corpulência de faquir. Não fiz pose, não te seduzi, não procurei dar-me ares. Pouco ou nada sabia de ti até ouvir o teu Ulisses que todas as vezes que o escutava me fazia chorar de forma inexplicável, que me punha com pele de galinha e me fazia pensar em outonos em Berlim. Ainda pensei começar a conversa com um «diz-me agora o teu nome» só para ver do efeito poético dessa passagem inspirada do mestre Fausto Bordalo Dias, mas não tínhamos ainda dito que sim. Perguntei-me, disso lembro-me bem, porque me olhavas assim, porque me falavas assim, tu que quase nunca te permites derramar o teu ser para lá do canto e da voz do silêncio. Tu, a tímida, a insegura, a mulher das eternas desculpas por estares onde quer que estejas para além da tua casa, a falares do teu interior com uma cumplicidade desarmante. E eu, a entrar pelos teus olhos potáveis adentro, a renovar o meu espanto a cada frase deslocada de tudo o que fosse matéria publicável. Tu, indiferente à possibilidade de a confissão mais sofrida ser tornada pública, de que tinhas a vida sacudida, e como o sucesso, a glória e o reconhecimento eram grandes ilusões. Apenas te importavas naquele instante em seres tu, como te ocupas seja onde for. A tua maior riqueza nunca serão os stacattos e os vibratos e as maravilhas do teu canto limpo como é limpa a tua vida. Esse tesouro, essa tua roda da fortuna habita nos teus modos de rapariga simples, distraída de tudo o que seja carreira, propaganda, pão e circo, estrelato, sempre à procura do caminho de volta ao camarim ou de preferência à tua casa e aos teus filhos, pois se cantas assim, e tocas assim (a muitos que tocarás) é porque a tua voz é a de uma Mãe que canta.
Trouxe-me aqui, à escrita, e traz-me todos os dias a ti apenas isso, a possibilidade da comunicação perfeita que a «mãe» Clarice disse estar no cordão umbilical. O esbarrar numa frase (num olhar, num trecho musical) como quem esbarra num paredão de felicidade. Deve-se ou não procurar entender o que acontece no amor, uma compreensão inteligível, como o ato de criar o que quer que seja, uma frase, um poema, um livro, uma música, uma coreografia? Vivo nessa procura inglória de casar o pensamento e o sentimento, de encontrar o caminho entre isto, a alegria de estar a escrever para ti e as emoções sempre intensas que me convocas. Escrever é dar tudo o que temos. Penso se por estar a escrever-te porque és quem és - não sendo nós nada mais para além de seres à procura de um entendimento amoroso, um caminho para o espírito e a compreensão - não dirão os brutos e os judas estar aqui apenas um oportunismo. Amei outras mulheres e muito lhes escrevi e levei-o a público noutros registos e ninguém me excomungou. Qual a diferença entre um pintor que retrata as suas musas, um poeta que as canta ou um escritor viajante que fala da sua saudade insuportável por não poder partilhar a sua viagem com aquela que ama? Não há aquele filme do Woody Allen onde toda a gente te diz que te amo? Podia ter embrulhado as muitas páginas escritas nestes anos e deixar-tas na cabeceira ou enfiar-tas nos teus «sarcófagos» para que lesses tudo o que te escrevi e soubesses como te amo, como te admiro, como a minha obsessão é apenas um caso que a ciência e a poesia explicam, do amador que se tornou na coisa amada.

Para mim serás sempre a Cristina, sem o Branco.

Tiago

Almeirim, 4 de Junho, 2013

em Hei-de amar-te mais, Tiago Salazar, Oficina do Livro

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Carta a Mário Sá-Carneiro - 14 Mar. 1915

Lisboa, 14 de Março de 1916

Meu querido Sá-Carneiro:

Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.
Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no «Livro do Desassossego». Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.
As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.
Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.
De que cor será sentir?

Milhares de abraços do seu, sempre muito seu

Fernando Pessoa


P. S. — Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si próprio que dele são tão características...
Você acha-me razão, não é verdade?


in Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas . Fernando Pessoa. (Introduções, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Publ. Europa-América, 1986.

sábado, 14 de setembro de 2013

Se eu quiser

“I’m up all night to get lucky”, dizem os Daft Punk. Porque todos nós precisamos de sorte. Nós, pessoas, às quais intitulam de animais (ir)racionas, que se limitam a viver o dia-a-dia, lamentando-se dos caprichos que ocupam o seu tempo livre, falando deste e daquele, relembrando o passado e ansiando o futuro, “Se Deus quiser”. Mas bem, isso é outro assunto que não vem nada a calhar agora. 
Voltando ao assunto: nós, pessoas, que temos sentimentos. Sentimentos por outras pessoas, tão ou mais estúpidas que nós, por animais (certamente mais inteligentes que nós), por coisas, por músicas, por momentos, por comidas, por tradições, por roupas, por fotografias, por tudo aquilo que nos faz sentir bem e que por vezes deixamos fugir como um canário foge quando vê a porta da gaiola onde está enclausurado há anos aberta. Escolhi o canário porque lembro-me dos canários quando era pequena. Lembro-me de os ter no parapeito da janela, e de eles serem hiperativos. Também me lembro de querer sempre limpar-lhes a casa e de a minha mãe não deixar. O último canário que tive morreu. Os outros também morreram, mas não da mesma forma que o último canário morreu para mim. O último canário quando morreu deixou um vazio no meu coração. O meu dia-a-dia deixou de fazer sentido por alguns tempos sem o último canário. Sim tu, aquele que já fazia parte da minha rotina. Chegar a casa, pousar as tralhas, lanchar, e poder olhar para o lado e ver-te feliz, a saltitar de arame em arame. Adorava quando cantavas. Era sinal de felicidade. E eu gostava de te ver feliz. A tua felicidade transmitia-me felicidade a mim. E quando eu e tu estávamos felizes, então o mundo todo, pelo menos o nosso, estava feliz. Há noite, antes de dormir, ia sempre ver como estavas. Curioso… Estavas sempre igual: embrulhado em ti próprio, como que se protegesses todas as tuas forças durante a noite para depois, quando o sol, de manhã, entrasse pelos vidros cheios de dedadas minhas, acordasses com aquela vontade de me reencontrar que tanto te caracterizava. O teu cantarolar soava-me como um alegre “Bom dia!”, que me fazia realmente acordar. Se calhar, “realmente” não é a palavra certa, porque eu nunca chego a acordar. Mas pelo menos as tuas palavras eram a primeira coisa que conseguia, e agora sim, realmente ouvir. Soavam bem no meu ouvido. Às vezes, faziam cócegas, como quando nos dão um beijo no ouvido, sabes? Aquela sensação estranha que fica aqui a remoer durante uns segundos e que te faz ter vontade de espancar amorosamente o causador de tanto arrepio. Digo amorosamente por razões óbvias. Ou então não. Mas porquê questionar-me? Tenho dúvidas? Devo? É moralmente, eticamente, politicamente, e mais coisas acabadas em “mente” correto? Afinal, o que é que isso interessa? Interessa. E muito. Não a história da moral ou da ética, mas sim a história, e não querendo menosprezar o assunto usando como analogia a história, da consciência tranquila e o estar bem comigo própria. Momento de retrospeção profunda, análise de sentimentos, turbilhão de emoções, brainstorm, finalmente uma conclusão. O último canário já não era o mesmo. O último canário já não cantarolava da mesma forma. A hiperatividade passou-lhe. A forma aconchegada como dormia já não transmitia tranquilidade. As manhãs não eram as mesmas e eu não chegava, num dia inteiro, a ouvir o que quer que fosse. Vinte e quatro horas por dia sempre a mesma monotonia. Um ciclo vicioso que teimava em viciar-se em vícios insaciáveis. Cansada de uma rotina sem sentido e sedenta de qualidade de vida, assim vi o último canário partir. Partiu de um mundo fútil, sujo e obscuro, para um mundo cheio de oportunidades. E partiu na palma da minha mão, como alguém que transporta nas mãos, em concha, aquilo que mais preservou durante alegres e entusiasmantes dias de uma jovem vida. A reação das pessoas, aquelas coisas estranhas e estúpidas, foi surpreendente. Por um lado sentiram pena, e até impressão, por ver o último canário adormecido para sempre nas mãos de quem o fez tão feliz. Por outro lado, sentiram a espécie um déjavu. Eu, senti que apesar de ele partir para outro mundo, continuava a pertencer ao meu, que não era fútil, não era sujo, não era obscuro. Porque no final, o que importa são as recordações, os momentos. Porque no final, podem tirar-nos tudo, menos as coisas boas que fizemos por aqueles que amamos, que protegemos, que veneramos. Aqueles sem os quais não conseguimos viver. E digo viver, porque eu hoje não vivo. Hoje, as recordações passam a tristeza. Os momentos a vazio. E não falo no tempo em que eu acordava com vontade de viver um novo dia, mesmo sem acordar a cem por cento para a vida. Falo no tempo depois disso. Naquele em que as oportunidades surgem, em que a vida dá voltas de cento e oitenta graus, em que nós evoluímos e nos tornamos pessoas diferentes, mas no qual jamais nos esquecemos daquilo que faz de nós genuinamente simples. Ou simplesmente genuínos, como um português de Portugal, que não se limita, felizmente, ao “sinto a tua falta”. Porque se há sítio onde existe a saudade é aqui. Aqui, bem pertinho de mim, bem junto ao meu angustiado coração. Angustiado, mas consciente. E enerva-me tamanha consciência! Pois só esta maldita nos dá uma chapada de realidade e nos faz tirar a venda escura que nos escurece aquilo que está mais que nítido no nosso pensamento. Esse, é outro com quem a minha relação está longe de ser perfeita, mas que, tal como a história de Deus, não interessa para o assunto. Ou será que interessa? Damn, outra vez! Chega de interrogações, chega de dúvidas, chega de inquietações. Chega de esconder aquilo que toda a gente já sabe. Aquilo que me tira noites de sono, que me dá dores de cabeça, que deixa sem fome, que me deixa com vontade de me afastar de tudo aquilo que até hoje me fez ser feliz. Até hoje. Mas porquê só até hoje? Porquê?! E amanhã?… Merda, parece que tenho mesmo profundas saudades dos meus canários. E o último canário? Esse, ontem uma prioridade alcançada, hoje uma prioridade a alcançar, algo que só depende desta mente tresloucada e altamente necessitada de reparação, como os carros que vão ao mecânico trocar uma peça que se partiu. Bem, se calhar do que eu preciso mesmo é que me troquem o coração. E uma valente lufada de ar fresco também era Benvinda. Que é para finalmente poder recuperar tudo aquilo que fui um dia e voltar a ser aquilo do qual me orgulhei desde que me lembro: ser feliz. E isso, é “Se Eu quiser”.


Love, 
Ygritte

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Carta da Corcunda para o Serralheiro

Senhor António:

O senhor nunca ha de ver esta carta. Nem eu a hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o nao saiba, porque se não escrevo abafo.

O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto á janella quando o senhor passa para a officina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarella, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquella rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja d’ella mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir á rua e fallar comsigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecel-o de fallar.

O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguem que gostasse de mim como se gosta das pessoas que teem o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e tambem tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguem.

Eu gostava de morrer depois de lhe fallar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe fallar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.

Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quiz mal a ninguem. Alem d’isso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove annos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta edade, e doente, e sem ninguem que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me doe, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.

Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter – e agora menos que nem vida tenho – gostava de saber tudo.

Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vae ler isto, e mesmo que lesse nem sabia que era comsigo e nao ligava importancia em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só á janella, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguem que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a familia, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos ás avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.

Houve um dia que o senhor vinha para a officina e um gato se pegou á pancada com um cão aqui defronte da janella, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim para a janella, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a unica vez que o senhor esteve a sós commigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.

Tantas vezes, o senhor não imagina, andei á espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.

Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar á altura da janella.. passo todo o dia a ver illustrações e revistas de modas que emprestam á minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquella saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu ás vezes me envergonha de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.

Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguem julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distrahida.

Ainda me lembro d’aquelle dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o proprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ella mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi porisso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.

Não é por ser corcunda que estou aqui sempre á janella, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de rheumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralytica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me acceitar que o senhor não imagina. Eu ás vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janella abaixo, mas eu que figura teria a cahir da janella? Até  quem me visse cahir ria e a janella é tam baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas á vela e a corcunda a sahir pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é não como tinha vontade de ser.

(…)

- e emfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta? [texto não lido]

O senhor que anda de um lado para o outro não sabr qual é o peso de a gente não ser ninguem. Eu estou á janella todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gosar e fallar a esta e áquella, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui á janella por tirar de lá.

O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saude o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornaes o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e teem baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos medicos, e outros partem para as suas casas aqui e alli, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e ha artigos assignados por outros e retratos e annuncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isso o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janella de limpar o signal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da agua.

Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de de vez em quando me dizer adeus na rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vae se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.

A Margarida costureira diz que lhe fallou uma vez, que lhe fallou torto porque o senhor se metteu com ella na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque metter-se alguem comnosco é a gente ser mulher, e eu não sou mulher nem homem, porque ninguem acha que eu sou nada a não ser uma especie de gente que está para aqui a encher o vão da janella e a aborrecer tudo que me vê, valha me Deus.

O Antonio (é o mesmo nome que o seu, mas que differença!) o Antonio da officina de automoveis disse uma vez a meu pae que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não ha direito a viver, que quem não trabalha não come e não ha direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar á janella com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralytica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir á vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.

Adeus senhor Antonio, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.

Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.

Ahi tem e estou a chorar.

Maria José*

*Respeita a um dos heterónimos de Fernando Pessoa, publicado pela primeira vez em Pessoa por Conhecer. Visto pela primeira vez no maravilhoso de tanto bater o meu coração parou @parou.blogspot.pt

terça-feira, 3 de setembro de 2013

O Feiticismo dos Nomes

Tenho o feiticismo dos nomes, e o teu enleva-me e enlouquece-me. Rigoberto! É viril, é elegante, é brônzeo, é italiano. Quando o pronuncio, em voz baixa, corre-me uma cobrazinha pelas costas e gelam-se-me os calcanhares rosados que Deus (ou, se preferes, a Natureza, descrente) me deu. Rigoberto! Ridente cascata de águas transparentes. Rigoberto! amarela alegria de pintassilgo a celebrar o sol. Onde estiveres, estou eu. Quietinha e apaixonada, eu aí. Assinas uma letra de câmbio, uma livrança, com o teu nome quadríssilabo? Eu sou o pontinho sobre o i, o rabinho do g e o tracinho do t. A nodoazinha de tinta que fica no teu polegar. Desalteras-te do calor com um copinho de água mineral? Eu, a bolinha que te refresca o palato e o cubinho de gelo que arrepia a tua língua-viborazinha. Eu, Rigoberto, sou o cordão dos teus sapatos e a obreia de extracto de ameixas que tomas todas as noites contra a obstipação. Como sei esse pormenor da tua vida gastrenterológica? Quem ama, sabe, e tem por sabedoria tudo o que concerne ao seu amor, sacralizando o mais trivial da sua pessoa. Diante do teu retrato, persigno-me e rezo. Para conhecer a tua vida tenho o teu nome, a numerologia dos cabalistas e as artes adivinhatórias do Nostradamo. Quem sou? Alguém que te quer como a espuma à onda e a nuvem ao rosicler.
Procura, procura e encontra-me, amado.

Tua, tua, tua
A feiticista dos nomes


Mario Vargas Llosa, in Os Cadernos De Dom Rigoberto, pp. 21-22

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Cartas de Outono

Enquanto dormes constrói-me um rosto de luz, no limbo do teu sonho. Toca-o e acorda-me. Caminha comigo, peço-te, na inquietação daquele rosto, e nesta alegria suspensa na solidão.

Há séculos que te esperava para fugirmos. E não sabia que a fuga era possível pelas estradas de giestas em direcção ao mar. Dorme e consente que o meu coração escute o teu. Quero arder contigo, nesta eternidade feita de pontes atravessadas, kms nocturnos e segundos de asfaltos.

Para trás ficou a cidade. E tu sabes que a cidade só existe no apanhar um táxi. E perdermo-nos até amanhã – sem querer podermos dizer adeus, porque não se pode dizer adeus à paixão.

Amanhã ou enquanto dormes – agora mesmo – vou pensar em ti. Intensamente: até que as horas me doam a pele, e o movimento dos dias passe como aves que perdem o sentido do voo – até que tudo o que me rodeia tome a forma do teu corpo.E em mim circules – quando estendo a mão por dentro da noite e te acordo, no fogo dos meus olhos.

No fim do sono existe um vulcão.
De repente a manhã. A bruma. Um pássaro. As coisas que me rodeiam com os seus segredos – mas as coisas, sabe-se lá, só existem porque as palavras dizem que existem. E os segredos das coisas estão em mim – e não nas coisas.

Quando subo pela haste da manhã, encontro uma cidade de cristal. Trouxeste-ma tu, na dádiva do corpo. E se conseguisse tocar-te com a respiração, ouvia-te dizer:

- É na desolação dos dias que o meu olhar segrega o mel com que te alimentas.

Penso no que te vou deixar: nomes de flores e de estrelas para refazeres os jardins e as constelações, e o peso etéreo da minha morte – para continuares a celebrar a vida.

Insónia. Noite fria, repleta de medos. Noite sem fim. Nada. Levanto-me e abro a janela. Respiro fundo. Um fio de sol embate na garrafa de gin abandonada ao lado da cama. Ponho os óculos e o dia torna-se nítido, focado, limpo, e cheira a violetas…

Às vezes, tenho a impressão de ter perdido a exactidão dos gestos e das palavras. Estive tempo a mais sozinho – reaprendo, com dificuldade, a ser cúmplice, amigo, amante.
Não me desagrada a ideia de viver num farol abandonado. Não me desagrada a ideia que a luz se apague. Não me desagrada pensar que posso perder a lucidez. Por isso bebo.
Beber ajuda a cicatrizar o olhar ferido da noite. Isola-nos do mundo, acende-nos os gestos, antes de nos perdermos de bar em bar.

Amantes e embriagados. Destinados à chuva das ruas, às cidades que ardem junto ao mar, ao silêncio azul das manhãs. - Aí vem o 28 dos Prazeres… e um táxi. - Não me abandones, fica… E o vinte e oito passa, e passa o táxi, enquanto olhamos A Dança de Matisse na capa dum livro.

Vamos pela manhã que se ergue, suja, enevoada – onde as palavras que digo se confundem com o teu sorriso. E os semáforos mudam de cor, inutilmente.

Rua da Rosa, Travessa da Espera, Calçada do Combro. Silêncio sobre silêncio. A vida suspensa no estremecer de um abraço.
- Até logo. Se te lembrares de mim, telefona.

Fecho por fim, as pálpebras. O teu rosto sobrepõe-se à imagem do meu rosto. A tua mão esconde-se na imagem da minha mão. E no espelho já não há imagens, nem corpos, nem mar…

Logo à noite, outra vez o olhar, os corpos, a chuva, o sono, a fuga, a alma, o dia, dos dias… o regresso. O telefone, e Lisboa a sussurrar no vento da tua ausência.

A vida é sacana. Sobretudo não é aquilo que nos disseram que era. Por vezes, quando nos sentimos a morrer, vemos como é disparatado saber que tudo vai acabar. Precisamente quando tínhamos descoberto alguém com quem podíamos falar. Passamos a vida numa espécie de silencio, numa mudez terrível que se quebra, ainda que raramente, diante de certas coisas que nos contaram e nos deslumbraram.

Mas é tarde. As coisas que nos deslumbraram eram efémeras, breves. E não se pode voltar atrás.

Tenho um amigo que disse:
- Sabes, a verdade nunca acaba.
Mas o que será a verdade quando estivermos mortos?

Penso no lugar secreto do Caos e da Ordem que se erguem, subitamente, diante daquele que ama, e escreve.

Um dia, disseste:
- A paixão serve para te mostrar os fogos da noite.
Acreditei no que me dizias, mas já não consigo dormir, só morrer. O teu sorriso colou-se-me à boca.

Passo os dias a espiar as paisagens diluídas na memória que tenho de ti. Atravesso continentes que se transformam em minúsculas dores, pequenos territórios que cabem no fundo duma algibeira, ou em meia dúzia de palavras.

Lembro-me que numa viagem de comboio podemos encontrar gente cúmplice do silêncio – mas dificilmente um amigo de olhos cor-de amêndoa que te diga:
- O teu olhar é belo.
Espantado, respondes:
- O meu olhar só é belo porque se deixou aprisionar pelo teu. Nesse lugar profundo onde nos cruzamos e o mundo faz sentido. E quando a distância nos separar, e Lisboa for apenas uma impressão vaga de mal-estar, uma parte de mim pertencer-te-á.

Mentir é necessário. É a melhor maneira de esconder o que há de doloroso na verdade.

Repara, através dos meus olhos descobrirás como é a grande tristeza do mundo. Apenas isso. E, quando aqui não estiveres, espetarei todas as facas que encontrar nas paredes febris da noite.

Talvez sangre dos pulsos. Talvez te escreva. Talvez…

Olho atentamente as fissuras do tecto. Desloco-me através delas, alcanço a noite. O teu rosto, de quando em quando, pousa na minha solidão. Há vinte anos que a vida se apagou nas linhas da mão, e os jardins da cidade permaneceram, todo esse tempo, envoltos na bruma. O Tejo não deixou o tempo correr.

Mas um dia, talvez agora, abrirei as mãos no escuro do quarto, e o teu rosto incendiar-se-á.

As mãos queimadas, memória da tua passagem.
Por isso te escrevo, com esta luz encostada à boca. E espalho a cinza destas palavras pelo escuro da noite. Perder-te, levar-me-ia ao zumbido ensanguentado duma bala. A paixão, a nossa, foi construída com a lentidão das obras-primas. E nela não há equívocos, nem erros. O teu rosto é perfeito e intenso – brilha, assim que o nomeio ou toco: sinal de vida, estremecer do mundo na melancolia das mãos.

Assim te raptei uma noite – com ansiedade e susto. E assim te mantenho vivo, e amo, dentro e fora do poema. Hoje, tudo me parece novo e antigo, em simultâneo, como se já soubesse que havias de chegar e mudar-me a vida, o rumo dela, e depois partir.

Lá fora chove. Chove sem parar. E Lisboa parece encolher-se dentro do teu sono.

Al Berto

in Dispersos

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

primeira carta

há tantas dores diferentes. tantas cores.

às vezes baixar os braços é bom, sabes?

às vezes baixar os braços é deixar cair quem já não nos segura. às vezes baixar os braços é saber que há braços que foram feitos para nós, para nos agarrar. às vezes baixar os braços não é só baixar os braços, é tudo: um anúncio de partida: um bilhete na porta com a porta a fechar-se atrás de ti: um lugar a que nunca pertenceste a fechar-se atrás da porta que se fecha atrás de ti

e há tantas coisas de que se pode gostar em ti para além das mãos

e no horizonte já todas as coisas que ainda não sabes que eu sei. coisas que talvez não saibas que existem. coisas que talvez não existam. coisas que talvez não existam para além dos meus olhos: pequenos gestos algumas palavras o teu sorriso.

alguma coisa importante consegues tocar dentro de mim. alguma coisa esquecida: a noite adormecida: uma língua morta: a solidão do rio.

às vezes baixar os braços é bom, sabes?

é deixar cair o medo. é deixar cair o medo e esperar pela nossa pessoa. não existe mais ninguém. é imaginar a aproximação. é partilhar pensamentos trocar olhares dar as mãos cheirar frutas e livros e saber da primavera e do outono e dizer dióspiro e gostar de dizer dióspiro porque os dióspiros guardam muito sol lá dentro e tu és um bocadinho como os dióspiros.

às vezes são 07:39 e tenho a urgência de te dizer algo que esqueci, algo que lembrei e depois esqueci,

são agora 07:39 e tenho a urgência de te dizer
às vezes baixar os braços é saber as exactas coordenadas do coração, é saber que a Amèlie nos espera no des 2 Moulins, que livrarias muito antigas em ruas desertas de carros e casas nos esperam e um gira-discos a desenhar os móveis e livros, muitos livros, a mostrar-me o caminho para casa, a dizer-me que o teu corpo tem a beleza natural das romãs e o cheiro  bom das romãs e que não é verdade que se tu te apaixonasses e eu me apaixonasse tornaríamos a vida um do outro exactamente miserável, e é claro que haverá silêncios e é claro que assistiremos calados ao nascimento desses silêncios e as horas teimarão em atrasar o tempo e o tempo teimará em não ter nome, mas no lugar mais profundo desses silêncios os meus braços feitos para segurar proteger abraçar o teu corpo inteiro abraçar-te-ão

os silêncios não serão mais do que casas onde apetece morar, bancos virados para o mar e cartas e poemas e post-its nas almofadas nos espelhos das casas de banho nos quartos de hotel  a atestar amor mais ´pateta` do mundo.


às vezes baixar os braços é bom