domingo, 20 de outubro de 2013

segunda carta

desarranjas-me a respiração

como se por um segundo não houvesse terra firme para os meus pés    quando me olhas

o sangue circula muito devagar nas veias lentas tudo descompassado, um esforço constante para me equilibrar, um esforço constante para não parecer tão pateta como sou.

são 07:39 em algum lugar do mundo. são muitas vezes 07:39 no lugar que sou.

escrevo-te e  não sei que horas são para além das 07:39 no lugar que sou, mas sei que não é a primeira vez que penso em ti hoje: pensei em ti antes de começar a escrever isto: agora enquanto escrevo e mesmo depois da última letra do último ponto da última respiração sei que vou pensar em ti, por isso esta carta não terminará na última letra ponto respiração, por isso esta carta não terminará, nem quando a estiveres a ler e me souberes a pensar em ti, cada palavra a pensar em ti, cada palavra a pensar que devias sorrir mais e que se o tempo existisse para lá da solidão quieta dos relógios devia parar nos instantes dos teus sorrisos

tão absolutamente linda ficas quando sorris.

hoje li a tua carta outra vez (´a primeira melhor carta de sempre`). leio muitas vezes a tua carta. às vezes leio a tua carta para me sentir mais perto de ti, como se a palavra escrita pudesse interromper os quilómetros a insónia a distância. hoje li a tua carta outra vez, não me canso de dizer: a tua carta, a tua carta que não poderia ser para mais ninguém, e eu sei que sabes disso como os pássaros sabem da chuva: antiquíssima, misteriosa e delicadamente.

também esta carta é para ti. e escrevo-te para que estas cartas possam ser um bocadinho como as tuas árvores de silêncio, onde podes encontrar refúgio, árvores de silêncio que podes cheirar e apertar contra o peito, o silêncio no meio das palavras, a comunicação primeira.

árvores de silêncio a existir por ti.

escrevo-te mas o que queria mesmo era coleccionar primaveras para ti segurar-te pela cintura falar-te ao ouvido poder dizer muitas vezes tu e eu e escrever e sentir a tua pulsação o solstício na nudez dos teus pulsos e ser Coimbra da tua janela: a alta o pátio da faculdade de direito, pequena fábrica onde se desenham as nuvens, as escadinhas de ruas estreitas e arcos a caminho do rio  e um esforço constante para me equilibrar quando tu me olhas as veias todas muito devagar o sangue devagar as constelações todas devagar e relâmpagos no peito, tudo descompassado 

quando me olhas.


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