quinta-feira, 12 de junho de 2014

carta da insónia

sei que vou morrer. sei que vou morrer contra o mundo. sei que a matemática será sempre matemática. números disfarçados de gente. 

vejo o tempo que não passa passar. não estamos juntos por um qualquer erro do mundo. o mundo gosta de errar subitamente. estúpido. quase sempre há uma música que não sabe o que dizer. nem no intervalo. o coração não devia parar tantas vezes. 

palavras escritas em paredes que só deviam servir para coisas úteis. solidão e outros ofícios. homens que se podem amar muito. cidades. rios. o galopar de um pássaro. números disfarçados de gente. bombas-relógio. coisas definitivas. inclinações. ontem. coisas de que se pode gostar para além do possível. saudades minhas. para te dizer boa noite. um ponto de exclamação no dia. a vida pronta. um pouco de cinza. a ilha. a tua fragilidade. não digo inteira. acontecimentos únicos. gostar de ti. fragmentos de gostar de ti. fragmentos.

dizem que nunca sabemos até sabermos. eu sei.

sonhos. casas vazias. casas que não se movem na memória. palavras. palavras no termómetro da memória. palavras como febre ou casas que não se movem na memória. uma oração: a distância sobre a pele quebra tão prontamente.

sei-te a olhar para mim. não sei o que vês. se vês o mesmo que eu quando olho para mim. não falo do espelho. não sei o que vês. pequenas folhas a teimar humanidade ou solstícios ou noites mal adormecidas.  dormir às pingas. trânsito nos sonhos. não sei. não sei se vês o porto. acho que o porto é a primeira coisa que se vê. a pele da cidade. depois a cidade a crescer. o coração das árvores. o cheiro das árvores  do porto a sobressaltar a calçada. como tu me sobressaltas a mim. de uma maneira boa. a calçada vazia. acho que o porto é a primeira coisa que se vê. as pontes. os erros do passado a abrirem caminho para ti. como se tudo fizesse parte de tudo. tu só a precisares de chegar. a vida. virá a vida. o estremecer das estrofes. tudo é como morrer um bocadinho. a luz acesa. inútil como uma língua que não é a nossa no centro de um relâmpago. um sussurro muito branco. um murmúrio a meio milímetro de ti. a curva suave da tua voz. todos os passos errados subitamente. se eu pudesse o céu. não digo o azul, o céu só. se eu pudesse recuperar todos os teus passos. não estás onde deves. não estás. e para mim és sempre hoje. as tuas mãos. nunca me vou cansar de falar das tuas mãos. os dias do teu sorriso de criança feliz onde cabe tudo o que a beleza contempla. a nossa forma de comunicação. só nossa. é tão bom estar onde o teu sorriso acontece. nas tardes de início de primavera onde o teu sorriso acontece. e as amoras acontecem. e a sombra exacta e delicada das amoras. a nudez do vale no seu fim. a nudez da linha. por trás este vento. por trás este vento que arrasta novelos e fere as asas e as horas e os silêncios da distância.

sete meses serão. saberemos ser tudo.