quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Cartas de Outono

Enquanto dormes constrói-me um rosto de luz, no limbo do teu sonho. Toca-o e acorda-me. Caminha comigo, peço-te, na inquietação daquele rosto, e nesta alegria suspensa na solidão.

Há séculos que te esperava para fugirmos. E não sabia que a fuga era possível pelas estradas de giestas em direcção ao mar. Dorme e consente que o meu coração escute o teu. Quero arder contigo, nesta eternidade feita de pontes atravessadas, kms nocturnos e segundos de asfaltos.

Para trás ficou a cidade. E tu sabes que a cidade só existe no apanhar um táxi. E perdermo-nos até amanhã – sem querer podermos dizer adeus, porque não se pode dizer adeus à paixão.

Amanhã ou enquanto dormes – agora mesmo – vou pensar em ti. Intensamente: até que as horas me doam a pele, e o movimento dos dias passe como aves que perdem o sentido do voo – até que tudo o que me rodeia tome a forma do teu corpo.E em mim circules – quando estendo a mão por dentro da noite e te acordo, no fogo dos meus olhos.

No fim do sono existe um vulcão.
De repente a manhã. A bruma. Um pássaro. As coisas que me rodeiam com os seus segredos – mas as coisas, sabe-se lá, só existem porque as palavras dizem que existem. E os segredos das coisas estão em mim – e não nas coisas.

Quando subo pela haste da manhã, encontro uma cidade de cristal. Trouxeste-ma tu, na dádiva do corpo. E se conseguisse tocar-te com a respiração, ouvia-te dizer:

- É na desolação dos dias que o meu olhar segrega o mel com que te alimentas.

Penso no que te vou deixar: nomes de flores e de estrelas para refazeres os jardins e as constelações, e o peso etéreo da minha morte – para continuares a celebrar a vida.

Insónia. Noite fria, repleta de medos. Noite sem fim. Nada. Levanto-me e abro a janela. Respiro fundo. Um fio de sol embate na garrafa de gin abandonada ao lado da cama. Ponho os óculos e o dia torna-se nítido, focado, limpo, e cheira a violetas…

Às vezes, tenho a impressão de ter perdido a exactidão dos gestos e das palavras. Estive tempo a mais sozinho – reaprendo, com dificuldade, a ser cúmplice, amigo, amante.
Não me desagrada a ideia de viver num farol abandonado. Não me desagrada a ideia que a luz se apague. Não me desagrada pensar que posso perder a lucidez. Por isso bebo.
Beber ajuda a cicatrizar o olhar ferido da noite. Isola-nos do mundo, acende-nos os gestos, antes de nos perdermos de bar em bar.

Amantes e embriagados. Destinados à chuva das ruas, às cidades que ardem junto ao mar, ao silêncio azul das manhãs. - Aí vem o 28 dos Prazeres… e um táxi. - Não me abandones, fica… E o vinte e oito passa, e passa o táxi, enquanto olhamos A Dança de Matisse na capa dum livro.

Vamos pela manhã que se ergue, suja, enevoada – onde as palavras que digo se confundem com o teu sorriso. E os semáforos mudam de cor, inutilmente.

Rua da Rosa, Travessa da Espera, Calçada do Combro. Silêncio sobre silêncio. A vida suspensa no estremecer de um abraço.
- Até logo. Se te lembrares de mim, telefona.

Fecho por fim, as pálpebras. O teu rosto sobrepõe-se à imagem do meu rosto. A tua mão esconde-se na imagem da minha mão. E no espelho já não há imagens, nem corpos, nem mar…

Logo à noite, outra vez o olhar, os corpos, a chuva, o sono, a fuga, a alma, o dia, dos dias… o regresso. O telefone, e Lisboa a sussurrar no vento da tua ausência.

A vida é sacana. Sobretudo não é aquilo que nos disseram que era. Por vezes, quando nos sentimos a morrer, vemos como é disparatado saber que tudo vai acabar. Precisamente quando tínhamos descoberto alguém com quem podíamos falar. Passamos a vida numa espécie de silencio, numa mudez terrível que se quebra, ainda que raramente, diante de certas coisas que nos contaram e nos deslumbraram.

Mas é tarde. As coisas que nos deslumbraram eram efémeras, breves. E não se pode voltar atrás.

Tenho um amigo que disse:
- Sabes, a verdade nunca acaba.
Mas o que será a verdade quando estivermos mortos?

Penso no lugar secreto do Caos e da Ordem que se erguem, subitamente, diante daquele que ama, e escreve.

Um dia, disseste:
- A paixão serve para te mostrar os fogos da noite.
Acreditei no que me dizias, mas já não consigo dormir, só morrer. O teu sorriso colou-se-me à boca.

Passo os dias a espiar as paisagens diluídas na memória que tenho de ti. Atravesso continentes que se transformam em minúsculas dores, pequenos territórios que cabem no fundo duma algibeira, ou em meia dúzia de palavras.

Lembro-me que numa viagem de comboio podemos encontrar gente cúmplice do silêncio – mas dificilmente um amigo de olhos cor-de amêndoa que te diga:
- O teu olhar é belo.
Espantado, respondes:
- O meu olhar só é belo porque se deixou aprisionar pelo teu. Nesse lugar profundo onde nos cruzamos e o mundo faz sentido. E quando a distância nos separar, e Lisboa for apenas uma impressão vaga de mal-estar, uma parte de mim pertencer-te-á.

Mentir é necessário. É a melhor maneira de esconder o que há de doloroso na verdade.

Repara, através dos meus olhos descobrirás como é a grande tristeza do mundo. Apenas isso. E, quando aqui não estiveres, espetarei todas as facas que encontrar nas paredes febris da noite.

Talvez sangre dos pulsos. Talvez te escreva. Talvez…

Olho atentamente as fissuras do tecto. Desloco-me através delas, alcanço a noite. O teu rosto, de quando em quando, pousa na minha solidão. Há vinte anos que a vida se apagou nas linhas da mão, e os jardins da cidade permaneceram, todo esse tempo, envoltos na bruma. O Tejo não deixou o tempo correr.

Mas um dia, talvez agora, abrirei as mãos no escuro do quarto, e o teu rosto incendiar-se-á.

As mãos queimadas, memória da tua passagem.
Por isso te escrevo, com esta luz encostada à boca. E espalho a cinza destas palavras pelo escuro da noite. Perder-te, levar-me-ia ao zumbido ensanguentado duma bala. A paixão, a nossa, foi construída com a lentidão das obras-primas. E nela não há equívocos, nem erros. O teu rosto é perfeito e intenso – brilha, assim que o nomeio ou toco: sinal de vida, estremecer do mundo na melancolia das mãos.

Assim te raptei uma noite – com ansiedade e susto. E assim te mantenho vivo, e amo, dentro e fora do poema. Hoje, tudo me parece novo e antigo, em simultâneo, como se já soubesse que havias de chegar e mudar-me a vida, o rumo dela, e depois partir.

Lá fora chove. Chove sem parar. E Lisboa parece encolher-se dentro do teu sono.

Al Berto

in Dispersos

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

primeira carta

há tantas dores diferentes. tantas cores.

às vezes baixar os braços é bom, sabes?

às vezes baixar os braços é deixar cair quem já não nos segura. às vezes baixar os braços é saber que há braços que foram feitos para nós, para nos agarrar. às vezes baixar os braços não é só baixar os braços, é tudo: um anúncio de partida: um bilhete na porta com a porta a fechar-se atrás de ti: um lugar a que nunca pertenceste a fechar-se atrás da porta que se fecha atrás de ti

e há tantas coisas de que se pode gostar em ti para além das mãos

e no horizonte já todas as coisas que ainda não sabes que eu sei. coisas que talvez não saibas que existem. coisas que talvez não existam. coisas que talvez não existam para além dos meus olhos: pequenos gestos algumas palavras o teu sorriso.

alguma coisa importante consegues tocar dentro de mim. alguma coisa esquecida: a noite adormecida: uma língua morta: a solidão do rio.

às vezes baixar os braços é bom, sabes?

é deixar cair o medo. é deixar cair o medo e esperar pela nossa pessoa. não existe mais ninguém. é imaginar a aproximação. é partilhar pensamentos trocar olhares dar as mãos cheirar frutas e livros e saber da primavera e do outono e dizer dióspiro e gostar de dizer dióspiro porque os dióspiros guardam muito sol lá dentro e tu és um bocadinho como os dióspiros.

às vezes são 07:39 e tenho a urgência de te dizer algo que esqueci, algo que lembrei e depois esqueci,

são agora 07:39 e tenho a urgência de te dizer
às vezes baixar os braços é saber as exactas coordenadas do coração, é saber que a Amèlie nos espera no des 2 Moulins, que livrarias muito antigas em ruas desertas de carros e casas nos esperam e um gira-discos a desenhar os móveis e livros, muitos livros, a mostrar-me o caminho para casa, a dizer-me que o teu corpo tem a beleza natural das romãs e o cheiro  bom das romãs e que não é verdade que se tu te apaixonasses e eu me apaixonasse tornaríamos a vida um do outro exactamente miserável, e é claro que haverá silêncios e é claro que assistiremos calados ao nascimento desses silêncios e as horas teimarão em atrasar o tempo e o tempo teimará em não ter nome, mas no lugar mais profundo desses silêncios os meus braços feitos para segurar proteger abraçar o teu corpo inteiro abraçar-te-ão

os silêncios não serão mais do que casas onde apetece morar, bancos virados para o mar e cartas e poemas e post-its nas almofadas nos espelhos das casas de banho nos quartos de hotel  a atestar amor mais ´pateta` do mundo.


às vezes baixar os braços é bom

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Carta Póstuma de Tsvétaïeva a Rilke

O ano acaba com a tua morte. Um fim? Um começo. Caríssimo, sei agora - Rainer, enquanto choro - que podes ler-me sem correio, e que começaste já a ler-me. Meu caro, sem ti, que estás morto, não existe morte, a vida - também não há. O que há então? A pequena cidade de Sabóia - quando? onde? Rainer, e o ninho (a rede) de sono? Agora sabes também o russo, sabes que ninho se diz gnezdó, e muitas outras coisas mais.
Não quero reler as tuas cartas, pois deixaria de querer «viver» (não «poderia» mais? Eu «posso» tudo - e isto não é um jogo), queria juntar-me a ti, não queria ficar aqui. Rainer, eu sei que estarás já à minha direita, quase posso sentir a tua fronte clara. Pensaste alguma vez em mim? Amanhã começa o Ano Novo, Rainer - 1927.7. O teu número preferido. Nasceste em 1875 (pelo diário) 51 anos? Jovem.
A tua pobre neta, que nunca te viu.
Pobre de mim.
Mas não se pode ficar triste! Hoje, à meia-noite, brindarei (oh! Silenciosamente, nem tu nem eu gostamos de barulho) contigo.
Meu querido, faz com que eu sonhe contigo algumas vezes.
Nunca acreditámos num encontro aqui; e a não ser aqui, não é verdade? Precedeste-me para pores as coisas um pouco em ordem - não no quarto, nem na cama - na paisagem, para me receber.
Beijo-te a boca? As têmporas? A fronte? Talvez a boca (porque tu não estás morto), como autêntico vivo.
Meu muito querido, amam-me doutra maneira e mais que qualquer outro. Não fiques zangado comigo - habitua-te a mim, é assim que sou.
Que mais ainda?
Demasiado alto, talvez? Nem alto, nem distante
... um pouco demasiado em frente deste espectáculo comovente,
ainda não, ainda próximo, a fronte pousada no ombro.
Não, meu querido rapaz grande - ó
Rainer, escreve-me (é tão estúpido este pedido!)
Os melhores votos e uma bela paisagem de ano novo aí no céu!

Marina

in Rilke/Pasternak/Tsvétaïeva, Correspondência a Três.