segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Amado

Amado,

Resisti à tentação de te escrever desde que soube que eras o autor daquelas missivas ardentes que, de há duas semanas a esta parte, chegaram a esta casinha de chamas, de alegria, de nostalgia e esperança, e ao meu coração e às minhas entranhas de doce fogo que abrasa sem queimar, o do amor e o do desejo unidos em casamento feliz.
Para que havias de assinar cartas que só tu podias escrever? Quem me estudou, formou, inventou, como tu fizeste? Quem poderia falar dos pontinhos vermelhos das minhas axilas, das rosadas nervuras das cavidades ocultas entre os dedos dos meus pés, dessa «franzida boquinha circundada por uma circunferência em miniatura de alegres ruguinhas de carne viva, entre azulada e plúmbea, à qual é preciso chegar escalando as lisas e marmóreas colunas das tuas pernas?» só tu, amor meu.
Soube desde as primeiras linhas da primeira carta, que eras tu. Por isso, antes de a acabar de ler obedeci às tuas instruções. Despi-me e pousei para ti, diante do espelho, imitando a Dánae de Klimt. E voltei, como tantas noites saudosas na minha solidão actual, a voar contigo por esses reinos de fantasia que explorámos juntos, ao longo daqueles anos compartilhados que são, para mim, agora, uma fonte de consolo e de vida à qual volto para beber com a memória, a fim de suportar a rotina e o vazio que sucederam ao que, a teu lado, foi aventura e plenitude.
Na medida das minhas forças, segui ao pé da letra as exigências - não, as sugestões e pedidos - das tuas sete cartas. Vesti-me e despi-me, disfarcei-me e mascarei-me, deitei-me, dobrei-me, desdobrei-me, acocorei-me e encarnei - com o corpo e a alma - todos os caprichos das tuas cartas, pois que prazer maior, para mim, que comprazer-te? Para ti e por ti, fui Messalina e Leda, Madalena e Salomé, Diana com o seu arco e as suas flechas, a Maja Nua, a Casta Susana surpreendida pelos velhos luxuriosos e, no banho turco, a odalisca de Ingres. Fiz amor com Marte, Nabucodonosor, Sardanapalo, Napoleão, cisnes, sátiros, escravos e escravas, emergi do mar como uma sereia, aplaquei e aticei os amores de Ulisses. Fui uma marquesinha de Watteau, uma ninfa do Ticiano, uma virgem de Murillo, uma Madonna de Piero della Francesca, uma gueixa de Fujita e uma desgraça de Toulouse-Lautrec. Custou-me pôr-me em pontas como a bailarina de Degas, e, podes crer, para não te defraudar até tentei, à custa de cãibras, transformar-me naquilo a que chamas o voluptuoso cubo cubista de Juan Gris.
Jogar novamente contigo, ainda que à distância, fez-me bem, fez-me mal. Senti, de novo, que era tua e tu eras meu. Quando acabava o jogo, a minha solidão aumentava e entristecia-me ainda mais. Está perdido para sempre, o que se perdeu?
Desde que recebi a primeira carta, vivi à espera do dia seguinte, devorada pelas dúvidas, tentando adivinhar as tuas intenções. Querias que te respondesse? Ou o enviar-mas sem assinatura significa que não queres entabular diálogo, mas somente que eu escute o teu monólogo? Porém, a noite passada, depois de ter sido, docilmente, a laboriosa senhora burguesa de Vermeer, decidi responder-te. Qualquer coisa, do fundo obscuro da minha pessoa onde só tu mergulhaste, obrigou-me a pegar na caneta e no papel. Fiz bem? Não terei infringido essa lei não escrita que proíbe à figura de um retrato sair do quadro para falar com o seu pintor?
Tu, amado, sabes a resposta. Dá-ma a saber.


in Os Cadernos de Dom Rigoberto

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