domingo, 29 de setembro de 2013

Hei-de amar-te mais

Cristina,

Agora que os contornos deste amor são públicos - e que me pedem este texto - e tornar público não passa de comunicar com mais antenas, pergunto como nos lerão nesta sociedade do espetáculo que tudo reduz a novelas e exibicionismos descartáveis? Quis dar notícias ao mundo, um discurso meu, interior, o mais fundo e mais alto que fui capaz, sem ambição a regra universal. Os fragmentos do discurso amoroso dizem pouco de um amor, do amor, esse enigma que nunca saberemos dizer porque não é importante reduzi-lo a fórmulas, encerrá-lo, aprisioná-lo. Ouvi já chamarem-lhes, às coisas que te escrevi, um elogio do amor e da loucura, como se amar e ser louco fossem fios inseparáveis da mesma meada, um novelo de emoções e sentimentos possuídos por energias descontroladas, sinapses (arcaicas) em sobressalto, intuições puras nascidas no instante do êxtase que poderão ser instantes de graça e não devaneios confundidos com arte.
Vim aqui falar de amor, do meu amor, da minha ideia de amor e de como o sofrimento é inevitável, de como nenhuma criação se faz sem a dor do esforço. Talvez não saibam mas comecei logo a escrever-te. A primeira vez escrevi sobre ti e logo ali puderam ler da minha fascinação, numa deslocada prática de jornalismo comprometido. Entrevistei-te e dei ao artigo o título suspeito de «Voto em Branco».
A circunstância de jogar fácil com o trocadilho do apelido escondia a minha admiração profunda por teres sido capaz de te entregar à conversa íntima sem qualquer manobra de convencimento de diva no seu pedestal. Logo ali foste a pessoa generosa, franca, humilde como sempre és diante de qualquer pessoa que te procure através dos tempos. Não fomos um caso de amor à primeira vista, um coup de foudre , uma canção do bandido ou da bandida. Por muitas e variadas circunstâncias derramadas neste diário posso achar (e gosto de pensar) que somos um reencontro, que és sempre tu a mesma em todas as vidas, a dos ensinamentos maiores, a do livro dos prazeres e da aprendizagem. Dizes que quando me viste chegar disseste ao teu botão esquerdo, «pronto, lá mandaram mais um estagiário», ainda por cima fraca figura, aloirado, esquálido e com corpulência de faquir. Não fiz pose, não te seduzi, não procurei dar-me ares. Pouco ou nada sabia de ti até ouvir o teu Ulisses que todas as vezes que o escutava me fazia chorar de forma inexplicável, que me punha com pele de galinha e me fazia pensar em outonos em Berlim. Ainda pensei começar a conversa com um «diz-me agora o teu nome» só para ver do efeito poético dessa passagem inspirada do mestre Fausto Bordalo Dias, mas não tínhamos ainda dito que sim. Perguntei-me, disso lembro-me bem, porque me olhavas assim, porque me falavas assim, tu que quase nunca te permites derramar o teu ser para lá do canto e da voz do silêncio. Tu, a tímida, a insegura, a mulher das eternas desculpas por estares onde quer que estejas para além da tua casa, a falares do teu interior com uma cumplicidade desarmante. E eu, a entrar pelos teus olhos potáveis adentro, a renovar o meu espanto a cada frase deslocada de tudo o que fosse matéria publicável. Tu, indiferente à possibilidade de a confissão mais sofrida ser tornada pública, de que tinhas a vida sacudida, e como o sucesso, a glória e o reconhecimento eram grandes ilusões. Apenas te importavas naquele instante em seres tu, como te ocupas seja onde for. A tua maior riqueza nunca serão os stacattos e os vibratos e as maravilhas do teu canto limpo como é limpa a tua vida. Esse tesouro, essa tua roda da fortuna habita nos teus modos de rapariga simples, distraída de tudo o que seja carreira, propaganda, pão e circo, estrelato, sempre à procura do caminho de volta ao camarim ou de preferência à tua casa e aos teus filhos, pois se cantas assim, e tocas assim (a muitos que tocarás) é porque a tua voz é a de uma Mãe que canta.
Trouxe-me aqui, à escrita, e traz-me todos os dias a ti apenas isso, a possibilidade da comunicação perfeita que a «mãe» Clarice disse estar no cordão umbilical. O esbarrar numa frase (num olhar, num trecho musical) como quem esbarra num paredão de felicidade. Deve-se ou não procurar entender o que acontece no amor, uma compreensão inteligível, como o ato de criar o que quer que seja, uma frase, um poema, um livro, uma música, uma coreografia? Vivo nessa procura inglória de casar o pensamento e o sentimento, de encontrar o caminho entre isto, a alegria de estar a escrever para ti e as emoções sempre intensas que me convocas. Escrever é dar tudo o que temos. Penso se por estar a escrever-te porque és quem és - não sendo nós nada mais para além de seres à procura de um entendimento amoroso, um caminho para o espírito e a compreensão - não dirão os brutos e os judas estar aqui apenas um oportunismo. Amei outras mulheres e muito lhes escrevi e levei-o a público noutros registos e ninguém me excomungou. Qual a diferença entre um pintor que retrata as suas musas, um poeta que as canta ou um escritor viajante que fala da sua saudade insuportável por não poder partilhar a sua viagem com aquela que ama? Não há aquele filme do Woody Allen onde toda a gente te diz que te amo? Podia ter embrulhado as muitas páginas escritas nestes anos e deixar-tas na cabeceira ou enfiar-tas nos teus «sarcófagos» para que lesses tudo o que te escrevi e soubesses como te amo, como te admiro, como a minha obsessão é apenas um caso que a ciência e a poesia explicam, do amador que se tornou na coisa amada.

Para mim serás sempre a Cristina, sem o Branco.

Tiago

Almeirim, 4 de Junho, 2013

em Hei-de amar-te mais, Tiago Salazar, Oficina do Livro

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Carta a Mário Sá-Carneiro - 14 Mar. 1915

Lisboa, 14 de Março de 1916

Meu querido Sá-Carneiro:

Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.
Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no «Livro do Desassossego». Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.
As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.
Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.
De que cor será sentir?

Milhares de abraços do seu, sempre muito seu

Fernando Pessoa


P. S. — Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si próprio que dele são tão características...
Você acha-me razão, não é verdade?


in Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas . Fernando Pessoa. (Introduções, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Publ. Europa-América, 1986.

sábado, 14 de setembro de 2013

Se eu quiser

“I’m up all night to get lucky”, dizem os Daft Punk. Porque todos nós precisamos de sorte. Nós, pessoas, às quais intitulam de animais (ir)racionas, que se limitam a viver o dia-a-dia, lamentando-se dos caprichos que ocupam o seu tempo livre, falando deste e daquele, relembrando o passado e ansiando o futuro, “Se Deus quiser”. Mas bem, isso é outro assunto que não vem nada a calhar agora. 
Voltando ao assunto: nós, pessoas, que temos sentimentos. Sentimentos por outras pessoas, tão ou mais estúpidas que nós, por animais (certamente mais inteligentes que nós), por coisas, por músicas, por momentos, por comidas, por tradições, por roupas, por fotografias, por tudo aquilo que nos faz sentir bem e que por vezes deixamos fugir como um canário foge quando vê a porta da gaiola onde está enclausurado há anos aberta. Escolhi o canário porque lembro-me dos canários quando era pequena. Lembro-me de os ter no parapeito da janela, e de eles serem hiperativos. Também me lembro de querer sempre limpar-lhes a casa e de a minha mãe não deixar. O último canário que tive morreu. Os outros também morreram, mas não da mesma forma que o último canário morreu para mim. O último canário quando morreu deixou um vazio no meu coração. O meu dia-a-dia deixou de fazer sentido por alguns tempos sem o último canário. Sim tu, aquele que já fazia parte da minha rotina. Chegar a casa, pousar as tralhas, lanchar, e poder olhar para o lado e ver-te feliz, a saltitar de arame em arame. Adorava quando cantavas. Era sinal de felicidade. E eu gostava de te ver feliz. A tua felicidade transmitia-me felicidade a mim. E quando eu e tu estávamos felizes, então o mundo todo, pelo menos o nosso, estava feliz. Há noite, antes de dormir, ia sempre ver como estavas. Curioso… Estavas sempre igual: embrulhado em ti próprio, como que se protegesses todas as tuas forças durante a noite para depois, quando o sol, de manhã, entrasse pelos vidros cheios de dedadas minhas, acordasses com aquela vontade de me reencontrar que tanto te caracterizava. O teu cantarolar soava-me como um alegre “Bom dia!”, que me fazia realmente acordar. Se calhar, “realmente” não é a palavra certa, porque eu nunca chego a acordar. Mas pelo menos as tuas palavras eram a primeira coisa que conseguia, e agora sim, realmente ouvir. Soavam bem no meu ouvido. Às vezes, faziam cócegas, como quando nos dão um beijo no ouvido, sabes? Aquela sensação estranha que fica aqui a remoer durante uns segundos e que te faz ter vontade de espancar amorosamente o causador de tanto arrepio. Digo amorosamente por razões óbvias. Ou então não. Mas porquê questionar-me? Tenho dúvidas? Devo? É moralmente, eticamente, politicamente, e mais coisas acabadas em “mente” correto? Afinal, o que é que isso interessa? Interessa. E muito. Não a história da moral ou da ética, mas sim a história, e não querendo menosprezar o assunto usando como analogia a história, da consciência tranquila e o estar bem comigo própria. Momento de retrospeção profunda, análise de sentimentos, turbilhão de emoções, brainstorm, finalmente uma conclusão. O último canário já não era o mesmo. O último canário já não cantarolava da mesma forma. A hiperatividade passou-lhe. A forma aconchegada como dormia já não transmitia tranquilidade. As manhãs não eram as mesmas e eu não chegava, num dia inteiro, a ouvir o que quer que fosse. Vinte e quatro horas por dia sempre a mesma monotonia. Um ciclo vicioso que teimava em viciar-se em vícios insaciáveis. Cansada de uma rotina sem sentido e sedenta de qualidade de vida, assim vi o último canário partir. Partiu de um mundo fútil, sujo e obscuro, para um mundo cheio de oportunidades. E partiu na palma da minha mão, como alguém que transporta nas mãos, em concha, aquilo que mais preservou durante alegres e entusiasmantes dias de uma jovem vida. A reação das pessoas, aquelas coisas estranhas e estúpidas, foi surpreendente. Por um lado sentiram pena, e até impressão, por ver o último canário adormecido para sempre nas mãos de quem o fez tão feliz. Por outro lado, sentiram a espécie um déjavu. Eu, senti que apesar de ele partir para outro mundo, continuava a pertencer ao meu, que não era fútil, não era sujo, não era obscuro. Porque no final, o que importa são as recordações, os momentos. Porque no final, podem tirar-nos tudo, menos as coisas boas que fizemos por aqueles que amamos, que protegemos, que veneramos. Aqueles sem os quais não conseguimos viver. E digo viver, porque eu hoje não vivo. Hoje, as recordações passam a tristeza. Os momentos a vazio. E não falo no tempo em que eu acordava com vontade de viver um novo dia, mesmo sem acordar a cem por cento para a vida. Falo no tempo depois disso. Naquele em que as oportunidades surgem, em que a vida dá voltas de cento e oitenta graus, em que nós evoluímos e nos tornamos pessoas diferentes, mas no qual jamais nos esquecemos daquilo que faz de nós genuinamente simples. Ou simplesmente genuínos, como um português de Portugal, que não se limita, felizmente, ao “sinto a tua falta”. Porque se há sítio onde existe a saudade é aqui. Aqui, bem pertinho de mim, bem junto ao meu angustiado coração. Angustiado, mas consciente. E enerva-me tamanha consciência! Pois só esta maldita nos dá uma chapada de realidade e nos faz tirar a venda escura que nos escurece aquilo que está mais que nítido no nosso pensamento. Esse, é outro com quem a minha relação está longe de ser perfeita, mas que, tal como a história de Deus, não interessa para o assunto. Ou será que interessa? Damn, outra vez! Chega de interrogações, chega de dúvidas, chega de inquietações. Chega de esconder aquilo que toda a gente já sabe. Aquilo que me tira noites de sono, que me dá dores de cabeça, que deixa sem fome, que me deixa com vontade de me afastar de tudo aquilo que até hoje me fez ser feliz. Até hoje. Mas porquê só até hoje? Porquê?! E amanhã?… Merda, parece que tenho mesmo profundas saudades dos meus canários. E o último canário? Esse, ontem uma prioridade alcançada, hoje uma prioridade a alcançar, algo que só depende desta mente tresloucada e altamente necessitada de reparação, como os carros que vão ao mecânico trocar uma peça que se partiu. Bem, se calhar do que eu preciso mesmo é que me troquem o coração. E uma valente lufada de ar fresco também era Benvinda. Que é para finalmente poder recuperar tudo aquilo que fui um dia e voltar a ser aquilo do qual me orgulhei desde que me lembro: ser feliz. E isso, é “Se Eu quiser”.


Love, 
Ygritte

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Carta da Corcunda para o Serralheiro

Senhor António:

O senhor nunca ha de ver esta carta. Nem eu a hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o nao saiba, porque se não escrevo abafo.

O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto á janella quando o senhor passa para a officina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarella, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquella rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja d’ella mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir á rua e fallar comsigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecel-o de fallar.

O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguem que gostasse de mim como se gosta das pessoas que teem o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e tambem tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguem.

Eu gostava de morrer depois de lhe fallar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe fallar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.

Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quiz mal a ninguem. Alem d’isso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove annos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta edade, e doente, e sem ninguem que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me doe, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.

Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter – e agora menos que nem vida tenho – gostava de saber tudo.

Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vae ler isto, e mesmo que lesse nem sabia que era comsigo e nao ligava importancia em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só á janella, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguem que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a familia, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos ás avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.

Houve um dia que o senhor vinha para a officina e um gato se pegou á pancada com um cão aqui defronte da janella, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim para a janella, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a unica vez que o senhor esteve a sós commigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.

Tantas vezes, o senhor não imagina, andei á espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.

Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar á altura da janella.. passo todo o dia a ver illustrações e revistas de modas que emprestam á minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquella saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu ás vezes me envergonha de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.

Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguem julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distrahida.

Ainda me lembro d’aquelle dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o proprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ella mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi porisso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.

Não é por ser corcunda que estou aqui sempre á janella, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de rheumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralytica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me acceitar que o senhor não imagina. Eu ás vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janella abaixo, mas eu que figura teria a cahir da janella? Até  quem me visse cahir ria e a janella é tam baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas á vela e a corcunda a sahir pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é não como tinha vontade de ser.

(…)

- e emfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta? [texto não lido]

O senhor que anda de um lado para o outro não sabr qual é o peso de a gente não ser ninguem. Eu estou á janella todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gosar e fallar a esta e áquella, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui á janella por tirar de lá.

O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saude o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornaes o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e teem baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos medicos, e outros partem para as suas casas aqui e alli, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e ha artigos assignados por outros e retratos e annuncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isso o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janella de limpar o signal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da agua.

Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de de vez em quando me dizer adeus na rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vae se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.

A Margarida costureira diz que lhe fallou uma vez, que lhe fallou torto porque o senhor se metteu com ella na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque metter-se alguem comnosco é a gente ser mulher, e eu não sou mulher nem homem, porque ninguem acha que eu sou nada a não ser uma especie de gente que está para aqui a encher o vão da janella e a aborrecer tudo que me vê, valha me Deus.

O Antonio (é o mesmo nome que o seu, mas que differença!) o Antonio da officina de automoveis disse uma vez a meu pae que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não ha direito a viver, que quem não trabalha não come e não ha direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar á janella com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralytica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir á vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.

Adeus senhor Antonio, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.

Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.

Ahi tem e estou a chorar.

Maria José*

*Respeita a um dos heterónimos de Fernando Pessoa, publicado pela primeira vez em Pessoa por Conhecer. Visto pela primeira vez no maravilhoso de tanto bater o meu coração parou @parou.blogspot.pt

terça-feira, 3 de setembro de 2013

O Feiticismo dos Nomes

Tenho o feiticismo dos nomes, e o teu enleva-me e enlouquece-me. Rigoberto! É viril, é elegante, é brônzeo, é italiano. Quando o pronuncio, em voz baixa, corre-me uma cobrazinha pelas costas e gelam-se-me os calcanhares rosados que Deus (ou, se preferes, a Natureza, descrente) me deu. Rigoberto! Ridente cascata de águas transparentes. Rigoberto! amarela alegria de pintassilgo a celebrar o sol. Onde estiveres, estou eu. Quietinha e apaixonada, eu aí. Assinas uma letra de câmbio, uma livrança, com o teu nome quadríssilabo? Eu sou o pontinho sobre o i, o rabinho do g e o tracinho do t. A nodoazinha de tinta que fica no teu polegar. Desalteras-te do calor com um copinho de água mineral? Eu, a bolinha que te refresca o palato e o cubinho de gelo que arrepia a tua língua-viborazinha. Eu, Rigoberto, sou o cordão dos teus sapatos e a obreia de extracto de ameixas que tomas todas as noites contra a obstipação. Como sei esse pormenor da tua vida gastrenterológica? Quem ama, sabe, e tem por sabedoria tudo o que concerne ao seu amor, sacralizando o mais trivial da sua pessoa. Diante do teu retrato, persigno-me e rezo. Para conhecer a tua vida tenho o teu nome, a numerologia dos cabalistas e as artes adivinhatórias do Nostradamo. Quem sou? Alguém que te quer como a espuma à onda e a nuvem ao rosicler.
Procura, procura e encontra-me, amado.

Tua, tua, tua
A feiticista dos nomes


Mario Vargas Llosa, in Os Cadernos De Dom Rigoberto, pp. 21-22