quinta-feira, 19 de julho de 2012

Saudades: já chorei em aeroportos ao deixar quem não queria ver partir


Estou no autocarro a caminho de casa dos meus pais. Até aqui apanhei um taxi, um metro, um comboio, um avião, outro taxi e agora este autocarro. Numa das paragens vejo um filho ser recebido com gritos pela família, o pai a esfregar-lhe a barriga, o irmão a gargalhar e a mãe com os braços muito abertos. Sei imediatamente que ele vem de longe, como eu, de uma distância que não se pode atravessar sempre que se quer, uma distância que nos impede de pertencer à rotina.

Lembro a minha primeira grande despedida, há quase 4 anos. No aeroporto, entre família e amigos, aguentei com um nó na garganta as lágrimas alheias e percebi que a felicidade está directamente ligada ao amor destas pessoas que a vida fez o favor de colocar ao meu lado, pessoas que me amam e ao mesmo tempo compreendem que tenho de ir.

Desde então já vivi muitos reencontros e muitas despedidas, já chorei em aeroportos ao deixar quem não queria ver partir, já fui só abraços e alegria, e já vivi a solidão de chegar a sítios onde ninguém me espera. Enquanto eu transito, estas pessoas aguardam na repetição dos dias que a minha chegada os torne um bocadinho mais cheios.

A caminho, penso no conforto estrutural e inabalável do quotidiano, que a minha ausência não faz colapsar. Um sítio-amor a que posso voltar sempre, e onde sinto que nunca fui embora. Estou constantemente em dívida, de arma em riste contra a ausência, e ainda assim falho, porque não consigo melhor.

Chego pelo mesmo caminho de sempre, de que conheço todas as curvas e cruzamentos. Adivinho o sorriso e o abraço apertado, abraço por todos os abraços que ficaram por dar hoje, esta semana, este mês. Antecipo o cheiro a jantar, o ruído da televisão na sala, os desenhos da toalha na mesa. Sei de cor como será a minha chegada, de tantas vezes que a vivi. Sei-a tão bem que me parece sempre a mesma, uma eterna chegada a uns braços abertos.

A saudade, que só se tem em ausência, é ainda assim um saco que nunca se esvazia, mesmo quando estamos juntos todos os dias, porque são dias contados. Nunca poderei devolver a quem amo os dias que lhes retirei. Posso só tentar que os que partilhamos sejam grandes. Posso só ser mais amor, tentar ser menos falha, e pedir com a humildade da minha pequenez que a vida me permita dar-lhes muito mais.


Sónia Balacó

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Retrato de M


– eu escrevo poemas que se podem fumar

– não és o que eu procuro

– sou o alto mar

e vejo o tempo começar na sombra de uma janela que se abre na fotografia em que estás tu o Borges o Cortázar  Rua Florida Richmond ao fundo e em que te estou a dizer sou o alto mar e

– posso não ser o que tu procuras

– eu nunca soube chorar, por isso espero a chuva

– a chuva não é deste planeta, não me deves esperar

 que não regresso ao quarto feito de regressos a que regresso sempre, sexto andar,  livros com poemas a fazer de cabeceira, poemas no chão a fazer de chão e a anunciar a chuva que  sempre se demora por vir de longe, e nós bem longe também da Rua Florida onde nunca chovia e se chovia não era chuva e se era chuva não nos podia tocar

– tu existes ainda que eu precise de te inventar

– tu já me inventaste agora não existo

e não durmo embora continue a comer e não durmo e sobretudo bebo até as noites mais inteiras e vejo-te mesmo quando não te vejo e bebo para que me fales ao ouvido coisas que eu não consigo perceber e não foste a única porque houve outras mas foste a única que ainda te vejo até em certas palavras que são partes do teu corpo que eu não consigo tirar de mim

– estou aqui

e estás aqui mas já não sei pronunciar o teu nome
só a primeira inicial que se repete uns passos mais à frente como se a terra fosse toda mar e o mar fosse todo eu

e sinto frio e espero que o frio se esqueça de mim e abro de novo a janela da fotografia que não me reconhece e toco a chuva que veio de longe e não é deste planeta com a ponta dos dedos desço por ela e abro totalmente esta janela que não me reconhece e a chuva traz-me à cama onde ainda dormes entre os meus papéis confusos e não isto não são lágrimas embora o sal

– nos teus olhos vejo coisas que só existem nos teus olhos

– demoraste ou quiseste fazer-me esperar

– eu não sou quem se deva esperar

– provavelmente vou esperar-te até depois da morte

– a morte é só um outro tempo, um outro modo de dizer as coisas

e eu não sou quem se deva esperar, que me acabo antes à porta de um prostíbulo, Paris ou Buenos Aires, como um poeta deve acabar

– nunca te disse mas acho que não te posso deixar, detesto demasiado a tua poesia

– tu detestas toda a poesia

– na verdade não detesto toda a poesia, só tenho medo

– na verdade eu não faço bem poesia, só quando te escrevo ou te ponho nua

– já não fumo, escreve-me poemas que me possam matar