segunda-feira, 28 de maio de 2012

Agora estou dentro de ti, agora também sou tu


Contigo tenho amores havaianos em que danças para mim o ukelele nas noites de lua cheia, com soalhas nos quadris e nos tornozelos, imitando Dorothy Lamour.
E amores astecas, em que te sacrifico a deuses acobreados e ávidos, serpentinos e emplumados, no cimo de uma pirâmide de pedras ferruginosas, em torno da qual pulula a selva impenetrável.
Amores esquimós, em frios iglôs iluminados com archotes de gordura de baleia, e noruegueses, em que nos amamos enganchados sobre o esqui, despenhando-nos a cem quilómetros por hora pelas faldas de uma montanha branca erupcionada de tótemes com inscrições rúnicas.
A minha presunção desta noite, amada, é modernista, carniceira, africana.
Despir-te-ás diante do espelho, conservando as meias pretas e as ligas vermelhas, e esconderás a tua formosa cabeça debaixo da máscara de fera feroz, de preferência o tigre no cio de Ruben Darío de Azul..., ou uma leoa sudanesa.
Requebrarás a anca direita, flectirás a perna esquerda, apoiarás a mão na anca oposta, na pose mais selvagem e provocante.
Sentadinho na minha cadeira, amarrado ao espaldar, eu ficarei a olhar-te e a admirar-te, com o meu costumado servilismo.
Sem mexer nem uma pestana, sem gritar me ficarei, enquanto me cravas as tuas garras nos olhos e os teus brancos colmilhos me estraçalham a garganta e devoras a minha carne e sacias a tua sede com o meu sangue apaixonado.

Agora estou dentro de ti, agora também sou tu, amada recheada de mim.


Mario Vargas Llosa
 in Os Cadernos de Dom Rigoberto, pp. 207-208

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Quero-te


Ouço a chuva a bater na minha janela, mas nem consigo levantar os olhos para a ver... Tenho frio, mas não tenho como me aquecer... Tenho sede, mas não me apetece beber... Cubro-me com as lembranças de um passado que pesou... Sacio a minha sede com a esperança de que tudo passe...

Tenho vontade de ir em frente... seguir o teu caminho... subir a tua montanha... dobrar cada esquina da tua rua... e no fim encontrar-te... Correr de braços abertos para ti e no fim... abraçar-te como se o amanhã não existisse, como se só existíssemos nós dois... como se nada me separasse de ti...

Perder-me no teu olhar e nunca mais de lá sair... abraçar-te e nunca mais te largar...

Mas não é assim tão simples... muitas barreiras fortes e inquebráveis nos separam...  


Xaninha Silva

quarta-feira, 9 de maio de 2012

o mar quebrou-se


há portas que tens que abrir para eu saber entrar

perguntas-me: onde estão as estações?

dizes que o verão pôs o chapéu e vestiu o fato do inverno, que a primavera se escreve com minúscula porque inexistentes a cerejas desaparecidas as andorinhas, que precisas dos raios de sol que por vezes te envio por entre os lagos que se formam no ar entre as gotas de chuva que insistem em se despedir do céu

onde estão as estações, perguntas-me?

não sei se este é o raio de sol que precisas, mas estou a escrever esta carta para ti e esta carta não tem medo e não foge de ansiedade e diz que há um caminho para ti, um caminho feito de eternidades, séculos de incêndios, fios invisíveis por tecer

o teu sorriso acende estrelas, sabias?

e hoje senti falta do teu sorriso que acende estrelas e do teu olhar e de certas palavras inventadas e gostava tanto de sentir a tua respiração embaciar o vidro da janela quebrar o mar para poder dizer-te:

o mar quebrou-se na janela mais impossível do mundo, o mar quebrou-se

e dizer-te:
alimento-me das palavras que me inspiras de cometas delicados de flores despenhadas onde tudo é potência céu alto

e:
adoro os lugares fantásticos que descubro no teu sorriso mais o exacto instante que antecede o teu sorriso, aquele em que ele começa a nascer e se deixa adivinhar mais a tua clavícula despida

não acreditas?

conheço a geografia do teu riso a transparência do teu grito interior nos dias imperfeitos e não tenho medo, nem da roupa a queimar a pele  turbulência que precede a felicidade

existes. existes. existes. não há maior excesso.

atravessei séculos de incêndios e hoje sonho contigo e não tenho medo

atravessei séculos de incêndios e hoje sonho contigo e não tenho medo de te ver chegar.

encontramo-nos em Paris. um só segundo de perfeição. um adeus eterno à chuva.a cura.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Pele


Todo o corpo em estado de alerta quando sente o toque dele. Como uma emergência. Como se a chamasse. Inevitável.

Tudo vibra quando o som que sai daquela boca é captado pela audição dela, que parece mais apurada. Como se o ruído à sua volta desaparecesse. Como se o mundo parasse. Asfixiante.
Na vida que vivem, não se podem conhecer. Não se podem tocar nem sentir o cheiro um do outro. Porque a vida nem sempre é como queremos, não é? Dizem que sim. O que eles não sabem é que eu sei que há lugares secretos, recantos escondidos, espaços invisíveis. Há sítios de que mais ninguém sabe e que podem descobrir juntos. E quando cederem, quando viverem para lá da vida que vivem, quando se deixarem conduzir pelos sentidos e se perderem na pele um do outro, quando ela sentir o cheiro dele, quando ele acariciar os cabelos dela, quando entrelaçarem os dedos e se conseguirem olhar nos olhos, quando se despirem do que são lá fora, quando sorrirem juntos, quando se abraçarem, quando se beijarem, quando ela adormecer com a cabeça no peito dele, quando doer a partida, então viveram.

Menina Lamparina

quarta-feira, 2 de maio de 2012

One last cigarette, and I'm gone*


Dizias-me, sempre que te escrevia, que as coisas que desejamos tarde ou nunca as conseguimos.

Dizias-me, sempre que te escrevia, que não sabias se a minha alma te pertencia mais do que te pertenciam as minhas palavras, que teimava em te escrever num pedaço de folha qualquer, num talão de supermercado, num ticket para aguardar a vez, a minha vez, num bilhete de teatro.

E dizias, sempre que te escrevia, que o amor não se devia servir das palavras, que morrem jovens, quando são ditas da boca para fora ou escritas num pedaço de papel qualquer.

Que ridículo! Dizia-te eu quando nunca me escrevias.

Os amores são ultimatos, preces vitais para a urgência de viver, para o sentido de morrer. Mas nunca será: o amor ou a vida!

Por isso devíamos poder escrever Amo-te na pele como no papel. Dizia-te eu. Quando nunca me escrevias.

Gostava de poder dizer que te dei ouvidos. Mas insisto que também se pode amar quando se escreve. E amei-te melhor quando escrevi. E tu, tu tiveste-me melhor, quando escrevia!

Ouve: só por palavras se pode ser em tudo quanto se amou. Dizia-te eu quando não te escrevi. Nunca mais.

Ali reconstruímos vezes sem conta essa dança primitiva entre o sim e o não.

Agora já não há o arrepio por não ter corpo que os dedos irresponsáveis pudessem descobrir, e que foi solidão por já não haver!

Que já não é.

Aqui. Agora.

Há ausências que são felicidades!

Agora já só tenho memórias ridículas de coisas que pelos vistos foram feitas para ser ridículas. Ou muito ridículas. Como as palavras com que se prostitui o papel que se gasta em cartas. Qualquer pedaço de papel.

Esqueci a tua voz: segredo asilado em fendas que me esqueci de fechar.

O segredo já não é nada. Agora.

As palavras não eram nada? Ignoro o que isso seja, ser nada. Palavras que são nada. Palavras que não devem?

 Só as que nunca te consegui dizer podiam ter sido tudo. Agora. E que nunca mais te escrevi.

Se te encontrasse hoje não me lembraria da tua face. E já tinha esquecido a tua voz. Apercebi-me por fim que o esquecimento não é nenhuma ferida.

Só lamento ter-me apaixonado por caminhos por onde não fui. Mas agora sou outras coisas. Também sou outras coisas.

E foi assim a brincar que partimos o coração, que perdeu peças e agora não quer funcionar. E à força de não funcionar, se não se consertam pessoas, não podíamos ser pequeninos para sempre? Que loucura!

E não há sempre alguma razão na loucura?

Foram beijos aliterados as Palavras escritas num pedaço de papel qualquer. Agora.

Poema verdadeiro, que atravesse muros, de alto risco, é ser para sempre. Loucura.

Além-palavra é só e apenas um novo começo.


Outro algum.


Maria Supertramp


*anteriormente sob o título ´o amor não se devia servir das palavras`