quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Cartas do Brasil II

Sinto que foste tu que foste embora e que eu nunca sai da zona de embarque do aeroporto. O beijo que me prometi não aconteceu e eu não parei de sentir frio desde então. Choro quando não consigo mais fingir que tu vais voltar. Tento falar com toda a gente, ser de toda a gente, perguntar se te conhecem.
Na última semana, os meus pesadelos tornaram-se mais reais. Belisco-me repetidamente para acordar, mas do lado de lá, eu ainda faço parte da tua vida - e do nosso imaginário.
A tua fantasia morreu, mas a minha ficou. Vive da dúvida de não saber para onde foste, porque é que não me procuras mais, porque é que o despeito se finge de amor, porque é que estavas naquela noite, naquele hostel, perguntando pelo meu nome e pelo meu destino.
De ti (agora, entendo) sei tão pouco que foi quase suicida dormir abraçada às tuas costas. E lembrar-me em ciclo de tudo o que podiamos ter sido, sem o consentimento de ninguém.
Enganei-me sobre o quase tudo que eras - esse quase nada engasgado na falta de jeito para me mentires. Tentei simplificar-te e não fazer perguntas. Vim embora sem saber o que fazer com a minha vida, sem saber o que fazer contigo, com a roupa que usei na tua cama, com as fotos que oportunamente esquecemos de tirar.
Hoje começo a minha vida do zero, pela enésima vez. Já desfiz as malas por completo. Já fiz o meu primeiro jantar. Vivo sozinha pela primeira vez - e trago-te minando o meu tempo, o meu sono, os meus lugares. Imagino-te repetidamente deitado do meu lado - mas depois lembro-me que tu não és assim, que talvez aqueles nem sejam os teus traços, que definitivamente aquele não é o teu jeito. 
E assim, finjo que avanço, arrastando-me por ruas que não são minhas, na expetativa de te perder por fim na próxima esquina. 

Beatriz

mais da muito maravilhosa Beatriz, aqui