gosto de te dizer que gosto de ti, porque é verdade e para mim nunca foi fácil dizê-lo. gosto de ti, sabes? e gosto de gostar de ti. e gosto de nós. gosto de como nós erámos. gosto de como tudo começou, quase como uma brincadeira de crianças. gosto do nosso primeiro beijo. acho que eras capaz de ouvir o meu coração bater quando te dei o nosso primeiro beijo. não estávamos sozinhos, mas estávamos sozinhos. eu só te via a ti. continua a ser assim. não me perguntes o que falámos, quem disse o quê, não sei. eu só te via a ti e continua a ser assim. se sabia o que aquele primeiro beijo ia significar? acho que nunca se sabe, muito menos quando o significado se tornou isto, esta coisa tão grande e deslocada do tempo e do espaço. gosto de ti e gosto de gostar de ti. gosto de ter saudades tuas, e tenho tantas e tantas vezes. gosto que me surpreendas. gosto que sejas de pormenores, pequenas coisinhas, mesmo que não pareças prestar atenção nenhuma às coisas. gosto da rotina contigo. aprendi a gostar da rotina contigo. gosto de estar contigo e sentir que só por estar contigo já estou noutro lugar, um lugar mágico a que só posso aceder estando contigo. gosto que coles em mim. não gosto quando deixas todo este espaço entre nós. gosto de me sentir teu. sou teu. gosto que gostes do meu ar de menino, que eu não sabia ter, e de me sentir mexer os dedinhos e os pezinhos antes de dormir. e ao acordar. gosto que gostes dos meus olhos, mesmo quando eles não têm nada para te dizer. gosto que gostes do meu carinho, que só existe para ti. gosto que gostes do meu colinho. gosto de todas as coisas que só tu consegues ver em mim, coisas que até eu desconhecia. gosto do teu coração grande e frágil e forte e frágil. gosto de sonhar contigo. gosto do teu cheiro e gosto quando o teu cheiro se demora na casa. gosto do que a tua presença faz à casa. gosto quando me acordas a meio da noite com beijinhos e miminhos. gosto de acordar e ter uma mensagem tua. gosto de acordar primeiro que tu. gosto de te ver dormir. gosto de te ver acordar. gosto de te dar a mão. em lisboa demos a mão. gosto do teu abraço, viveria para sempre dentro do teu abraço. lisboa foi muito boa para nós. gosto dos teus dentinhos tortos, deixam-te ainda mais linda e com mais graça os teus dentinhos tortos. gosto do teu rabo (macaquinhos com as mãos nos olhos), mas foi o teu sorriso quem te abriu a porta. gosto do teu jeito meigo, da tua ternura. gosto da tua paciência, até para pessoas, como eu, com quem não devias desperdiçar um grama da tua paciência. gosto dos teus passinhos curtos quando dizes alguma coisa engraçada, mas de que te queres redimir. gosto de te ver rir e gosto de te fazer rir. gosto de te ver rir. gosto quando vestes a minha t-shirt antes de dormir. gosto quando andas descalça pela casa. gosto de falar contigo antes de adormecer. gosto quando estás quase toda em cima de mim. não gosto quando te afastas com medo de me fazer calor. gosto de dormir contigo, eu que não gosto de dormir com ninguém. gosto de dormir contigo. gosto de te sentir ali ao lado. gosto que a minha cama seja a nossa cama. e gosto de acordar contigo. gosto do teu andar. e sim, gosto de ver o teu rabo quando andas (como é que consegues andar com esse rabo?). gosto de te chamar princesa, embora sejas muito mais do que isso. gosto de te dizer coisas bonitas. gosto de te dizer que estás linda. e estás sempre. gosto de te dizer que estás linda. gosto de saber que era capaz de continuar a gostar de ti mesmo que estivéssemos separados por muitos quilómetros. já estivemos separados por muitos quilómetros, mais ainda nos últimos tempos. gosto que mereças alguém muito melhor do que eu e ainda assim gostes de mim. gosto de acordar de manhã e saber que existes, perto ou longe de mim, que existes e por isso o mundo é um lugar mais respirável. gosto de tantas e tantas coisas em ti que nunca um papel será suficiente. gosto de estar a escrever para ti. gosto de pensar em ti. gosto de escrever para ti mesmo sabendo que esta pode ser a primeira e a última carta que escrevo para ti. a carta da despedida. não gosto de despedidas. gosto de ti. sempre gostei, desde o início. e gosto de gostar de ti.
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terça-feira, 10 de março de 2015
quinta-feira, 12 de junho de 2014
carta da insónia
sei que vou morrer. sei que vou morrer contra o mundo. sei que a matemática será sempre matemática. números disfarçados de gente.
vejo o tempo que não passa passar. não estamos juntos por um qualquer erro do mundo. o mundo gosta de errar subitamente. estúpido. quase sempre há uma música que não sabe o que dizer. nem no intervalo. o coração não devia parar tantas vezes.
palavras escritas em paredes que só deviam servir para coisas úteis. solidão e outros ofícios. homens que se podem amar muito. cidades. rios. o galopar de um pássaro. números disfarçados de gente. bombas-relógio. coisas definitivas. inclinações. ontem. coisas de que se pode gostar para além do possível. saudades minhas. para te dizer boa noite. um ponto de exclamação no dia. a vida pronta. um pouco de cinza. a ilha. a tua fragilidade. não digo inteira. acontecimentos únicos. gostar de ti. fragmentos de gostar de ti. fragmentos.
dizem que nunca sabemos até sabermos. eu sei.
sonhos. casas vazias. casas que não se movem na memória. palavras. palavras no termómetro da memória. palavras como febre ou casas que não se movem na memória. uma oração: a distância sobre a pele quebra tão prontamente.
sei-te a olhar para mim. não sei o que vês. se vês o mesmo que eu quando olho para mim. não falo do espelho. não sei o que vês. pequenas folhas a teimar humanidade ou solstícios ou noites mal adormecidas. dormir às pingas. trânsito nos sonhos. não sei. não sei se vês o porto. acho que o porto é a primeira coisa que se vê. a pele da cidade. depois a cidade a crescer. o coração das árvores. o cheiro das árvores do porto a sobressaltar a calçada. como tu me sobressaltas a mim. de uma maneira boa. a calçada vazia. acho que o porto é a primeira coisa que se vê. as pontes. os erros do passado a abrirem caminho para ti. como se tudo fizesse parte de tudo. tu só a precisares de chegar. a vida. virá a vida. o estremecer das estrofes. tudo é como morrer um bocadinho. a luz acesa. inútil como uma língua que não é a nossa no centro de um relâmpago. um sussurro muito branco. um murmúrio a meio milímetro de ti. a curva suave da tua voz. todos os passos errados subitamente. se eu pudesse o céu. não digo o azul, o céu só. se eu pudesse recuperar todos os teus passos. não estás onde deves. não estás. e para mim és sempre hoje. as tuas mãos. nunca me vou cansar de falar das tuas mãos. os dias do teu sorriso de criança feliz onde cabe tudo o que a beleza contempla. a nossa forma de comunicação. só nossa. é tão bom estar onde o teu sorriso acontece. nas tardes de início de primavera onde o teu sorriso acontece. e as amoras acontecem. e a sombra exacta e delicada das amoras. a nudez do vale no seu fim. a nudez da linha. por trás este vento. por trás este vento que arrasta novelos e fere as asas e as horas e os silêncios da distância.
sete meses serão. saberemos ser tudo.
quarta-feira, 14 de maio de 2014
carta da espera
15:16
15:16 de um sábado qualquer. os sábados sempre me pareceram dias quaisquer, dias sem história. é sábado e chove lá fora. chove sobre um dia qualquer. lá fora chove o dia, chove uma alegria miudinha e as coisas alegres sempre me pareceram demasiado póstumas.
da minha janela vejo passar aviões e fumo cigarros. a chuva cai e faz música ao cair. o céu fica sem cor e é tão bonito esse teu olhar triste. és tão bonita. essa espécie de alheamento. tão bonita. essa espécie de altivez delicada.
queimo cigarros. observo o fumo. penso em ti. começa a ser tão viva a tua presença em mim. as tuas ausências também. às vezes não sei muito bem como agir quando estás comigo. então fico só parado a olhar para ti. e tenho a impressão de sorrir muitas vezes. e parece-me sempre que o tempo passa muito depressa. isto deve significar alguma coisa.
ontem apeteceu-me dançar contigo. apeteceu-me. a mim que nunca me apetece dançar. passam-se tantas coisas na minha cabeça quando estou contigo que acho que não posso afirmar com toda a certeza que me tenha apetecido dançar. sei lá. é tudo tão rápido. tantas coisas. mas ontem apeteceu-me dançar contigo. apeteceu-me que ficasses. ver-te acordar depois de te ver dormir. a minha camisa em ti. deves ser ainda mais bonita ao acordar. a tua voz deve ser ainda mais doce. deves ficar linda na minha camisa.
e gosto tanto de te ver rir. penso nisso. fumo o último cigarro. o barulho do cigarro a queimar céu. o céu de coimbra tão mais próximo. gosto tanto de te ver rir.
e de repente parece-me que não faz sentido toda esta merda. é demasiado. gostar de ti. não faz sentido. demasiado cedo. tudo tão demasiado cedo, o teu sorriso tão cedo tão cedo o teu nome a tua fotografia. os teus passos. esta carta e os voos nocturnos. os teus passos. e pensar que me podes salvar. e saber que te posso salvar.
ainda não parou de chover. as coisas às vezes são assim. prolongam-se até chegar dentro de nós. depois demoram-se. depois ficam. depois ficam e já não sabemos se são nossas. só nossas.
e no final do dia já não sabemos se são só nossas. e no final do dia voltamos a não ter nada para dizer um ao outro. a não ter nada para dizer. e saber que isso não importa. e saber que o teu cabelo curto não importa. o vestido branco. o vestido branco que nasce de ti.
sentir o coração a falhar o sangue.
o teu umbigo. o teu ombro. chuva no teu ombro. o amanhecer desperta um segredo. um segredo. a tua cintura. a doçura misteriosa da tua cintura. para lá da dúvida. a forma como o sol queima ao fazer o caminho das tuas pernas. dentro mundo. estamos dentro do mundo.
e eu sei de ti. o eclipse. o mapa. a rebentação em ti. sei de ti.
beijo a chuva nua no teu ombro. sinto que estou onde devo estar. e tu, tu estás onde deves estar também. tu, tu que és um pequeno milagre.
terça-feira, 22 de abril de 2014
carta a v
de que são feitos os teus lábios?
podias ter salvado coimbra. eu podia até ter chegado a gostar de coimbra: o mondego a ser o meu rio, as tristes capas a minha pele, a estação nova primavera e outono de todos os meus dias, a sé velha, os arcos do jardim, a porta de almedina mais os cafés da baixa
podias ter salvado coimbra e todas as pessoas que conheci. poderias ter salvado coimbra e eu não esqueceria nem pedro e inês o número do eléctrico o primeiro dia das repúblicas.
podias estar a acordar agora e podias dançar aos saltos na cama, o gato a um canto a olhar eu a um canto a olhar e ver coisas que só eu consigo ver, eu e o gato.
não sei se sobreviveria a um instante do teu corpo, não sei se sobreviveria a esse murmúrio de flor murmúrio de tempo a essa viagem para sul, não sei se sobreviveria aos teus lábios perfeitos.
ainda me lembro da primeira vez que te vi, as coisas todas a fazerem-se pequeninas: as pedras da calçada o teatro ao fundo a cidade de ruas e pedras de calçada e escadas de namorados lentissimamente a desaparecer.
agora vejo-te muitas vezes e chegas-me cada vez mais inteira,
e eu não sei se sobreviveria à vertigem do teu corpo, provavelmente morreria na troca repetido.
agora apareces-me muitas vezes,
e eu escrevo-te muitas vezes na pele a maresia os perfumes da noite um crepúsculo antigo as constelações todas e tu falas de ti das tuas mãos do silêncio da casa do vento que entra pela janela seguindo os passos da lua.
o teu sorriso faz nascer coisas bonitas flores raras primeiros dias. o teu sorriso.
não sei se nos encontraremos mais vezes, para além das últimas frases desta carta,
não sei se nos encontraremos mais vezes,
mas sinto que estarei sempre aqui, na fronteira da tua anatomia
sempre aqui, onde o mar se põe.
quarta-feira, 2 de abril de 2014
carta ao esquecimento
para onde foram os dias? os nossos dias. para onde foram? sei que a noite recomeça um pouco mais à frente. é sempre assim. dizem. não sabem do espelho. o espelho que é agora uma mera possibilidade. uma probabilidade. um abandono. não significa nada. não pode significar. já não guarda palavras para ti. já não guarda o mar para ti. as marcas do teu batom. as paredes continuam a encontrar-me. não as procuro. juro. não as procuro que já não sei dizer o teu calor. o teu calor. como se diz? parece tão simples. acho que já não saberia o que fazer com o teu calor. invernos e guarda-chuvas e nós a atravessar aquela ponte. talvez. os guarda-chuvas sempre me pareceram românticos. as pontes também. nós os dois debaixo de um guarda-chuva distante. a atravessar uma ponte distante. e nevoeiro de postal. como o caminho insiste em se fazer longe de nós. talvez os invernos venham. talvez os invernos também venham despidos de pássaros. eu continuo a despenhar-me. respiro entre acidentes. às vezes consigo respirar. talvez tenhas tido filhos. talvez tenhas aprendido a ser feliz. eu nunca tive talento para a felicidade. talvez tenhas aprendido a respirar devagar. sabes, às vezes falha-me a memória que tenho de ti. mesmo quando me concentro muito. o tempo não cura nada. a única coisa que faz é ir tirando-me a memória que tenho de ti. o tempo não cura e esqueço-me tantas vezes de sonhar contigo. não estás. às vezes olho para o lado e tu não estás. se ao menos soubesse o significado disso. se ao menos as horas não me fizessem perguntas ou não existissem tantas cidades ou aquela porta. a lua cheia. a lua tão cheia. poesia é entrar dentro das coisas e ser as coisas que se dizem e sobretudo as coisas que não se dizem. a poesia é entrar em ti. e tu não és uma coisa. ontem passei na tua rua e tu não estavas onde sempre estás. fica tão vazia a tua rua sem ti. e custa muito ar respirar. ontem falei de ti. não perguntes a quem. não saberia responder. estou sempre só. sobretudo quando falo de ti. ontem falei de ti: do que gosto em ti: de tudo o que gosto em ti: a irlanda: um certo bosque: o teu vestido. e li-te a aquela passagem daquele livro. gosto de ler para ti. devias aparecer mais vezes. gosto de ler para ti. ver adormecer os teus ombros nus. no mundo há janelas que ninguém vê. gosto de olhar para ti de muito perto.por dentro. há tanto azul em ti: dias bonitos: coisas que me fazem demorar. quando fores velhinha serás ainda mais adorável. consegues imaginar-me a dizer-te: quando fores velhinha serás ainda mais adorável. e será milfontes ou o douro. tudo feito de água feliz e mãos infinitas.
terça-feira, 18 de março de 2014
carta a coimbra
o atrito. todo o atrito. todo e qualquer atrito. todo e qualquer atrito pode ser vencido. a minha mão a cobrir a tua, o caule bonito de uma rosa, olisipo. todo o atrito pode ser vencido. a primeira vez que me disseste boa noite, a tua alma de flor, as pequenas coisas de que és feita.
todo e qualquer atrito. as tuas cartas. todos os telhados de lisboa. um pequeno pedaço de luz. a rotina dos teus braços à volta do meu pescoço. coimbra. évora. s. paulo. todos os lugares onde amanhece a tua geografia. a geometria dos teus passos. os teus silêncios. as tuas demoras. as tuas ausências.
o gesto que desenhavas ao apertar o casaco mais as coisas insignificantes que me dizias.
a distância existe. o atrito. a rotina perde-se sem a rotina. e a rotina é uma coisa boa. quem diz o contrário não sabe o que são os dias sem ti. a rotina é boa porque é feita de milhares de coisas muito pequeninas e boas. mas a rotina perde-se com a distância. na verdade talvez nada permaneça. talvez esse seja o segredo do mundo. talvez nada do que possas fazer para salvar o teu coração tenha importância. mesmo que sobrevivas.
não devias ter partido. e não devias ter evitado a despedida com a desculpa de que não gostas de despedidas. as despedidas são reencontros que se demoram. as despedidas são o sal da pele. a própria pele. a tua pele. os teus cotovelos. o medo de te perder. que estúpido me parece tudo agora que a distância existe. o estúpido medo de te perder.
e a distância existe. por isso esta cama que não é a tua. este cheiro que não é o teu. um cheiro de que só lembro porque não é o teu. por isso esta língua. estes dedos nos meus lábios. estes lábios nos meus lábios. por isso todos os amanheceres que o teu corpo me nega. por isso todos os amanheceres.
a primeira vez que me disseste boa noite.
eu nunca te pedi que existisses. que fosses a minha metade. que fosses janela de chuva em tarde de mantas e livros. nunca pedi a tua mão no meu ombro. que me abraçasses por trás. que me acordasses com beijos cheiro a café silêncios ou outro qualquer milagre do quotidiano. eu não te escolhi. nunca vi nos teus olhos laranjeiras a multiplicar o sol nem pétalas de jardim. não devias ter deixado para trás todas as horas que esperei por ti. devias ter levado tudo. mais as promessas que eu nunca quis, aquele banco de jardim, o teu lado da cama. que eu nunca te pedi explicações que tivesses que inventar. nunca te exigi mentiras. nunca te pedi que chegasses à hora certa. que viesses sequer. nem a tua respiração no meu ouvido. a tua rua inteira.
e estou tão farto dessa história de que as histórias tristes dão boas cartas.
quero que chegues. já não sei chorar. tenho as mãos vazias e sobrou tanto tempo.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
o que vês quando fechas os olhos, o que esqueces?
o que vês quando fechas os olhos, o que esqueces?
quero acreditar que tudo foi real, que fomos mesmo, que me deste mesmo a mão naquela rua, em todas as ruas, que houve sorrisos e orgasmos e sorrisos entre os orgasmos e lágrimas e música entre os gritos. que o amor foi real e foi febril, embora eu não goste da palavra, que houve história, que eras tu quem eu via adormecer ao meu lado, que era eu quem te via adormecer, que eu era mesmo eu e era quem tu vias ver-te adormecer.
sinto a tua falta e quero tanto crer que sinto a tua falta,
sinto a tua falta, mas o vazio já cá estava.
e escrevo-te porque sinto a tua falta. sinto a tua falta e escrevo-te porque sinto a tua falta e porque não te resolves a morrer nunca, porque decides sempre ficar mais um bocadinho.
e podias ter ficado. e podias ter insistido. e não precisavas sequer de ter insistido muito: um pequeno gesto: uma palavra feliz: a breve aparição de uma lágrima.
e podias ter ficado e talvez os meses tivessem nomes de gente ou de cidade: maio teria sempre o teu nome, como barcelona, e agosto o teu nome e fevereiro seria sempre o nosso primeiro fevereiro, e não uma cidade queimada, uma rua sozinha, um cinzeiro abandonado.
esta impossível mania da idade. este esquecimento que não chega.
nunca te menti. ou nunca te menti depois do sexo. e nunca te menti depois de abraçar. nunca te menti naquela fotografia. não te minto. quem parte não tem mentiras para deixar. tudo é não saber dizer: talvez eu não fosse para ti,
mas lembras-te que éramos felizes?
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
terceira carta
neste quarto onde passo as noites mais inteiras, onde o céu chove muito com a distância, onde chove o céu e tu não estás procuro-te: na vertigem da pele: na possibilidade de fotografias antigas: no cheiro das coisas simples.
todos os vossos começos não chegaram. todos os vossos começos não seriam nunca suficientes. todos os vossos começos seriam sempre recomeços, apenas isso, recomeços: a porta entreaberta: as pegadas mal apagadas: as folhas a falhar a queda.
eu nunca fui muito bom a deixar a porta entreaberta, por isso custa-me um bocadinho a perceber como tu não consegues dizer adeus, e nunca fui muito bom a deixar pegadas, a ficar a ver a queda,
a não querer tudo para além de uma página quebrada.
sei que um dia vais acordar. sei que um dia vais acordar e já não vais sentir o sabor dele na tua boca, naquele fundo de mundo quase esquecido, e sei que nesse dia vais sorrir, um sorriso feito de azul e especiarias, o teu sorriso das coisas bonitas. sei, e sei que vou estar aqui nesse dia, aqui mesmo, na fronteira do teu pulso, nas cores do teu outono, na vocação imóvel com que te ofereço as chaves deste lugar tão próximo do coração.
não falta muito.
já te apercebeste disso. não falta muito: o tempo que finalmente voltou à sua cadência normal, esquecendo-se da eternidade de todos os segundos, as tuas coisas que já não se lembram dele, a voz dele a ser menos dele, o cheiro dele a ser menos teu, menos da tua pele dos teus lábios do contorno perfeito dos teus lábios dos teus dedos de tocar pianos dos teus cabelos acabados de apanhar,
ficas linda com o cabelo acabado de apanhar, mesmo não sendo por minha causa,
e menos dele a parte de trás do teu pescoço, a parte de trás do teu pescoço, as costas das tuas mãos, a tua respiração.
não falta muito. as coisas dele não existem subitamente para além do fundo daquela gaveta que não existe. não falta muito e os domingos poderão voltar a ser dos puzzles e dos lençóis enrugados, das horas tardias e das chávenas de chá de que vens aprendendo a gostar, e das mantas e dos livros, da casa e dos pássaros, dos teus pássaros, com a manhã a fazer-se para lá da ausência para lá da memória para lá de tudo o que foi e vai deixando de ser porque nunca foi verdadeiramente.
e sim, haverá dias em que as coisas não farão sentido, as coisas todas estúpidas como um carro em contramão, as coisas todas mais estúpidas do que um carro em contramão, em que a resposta parecerá mais certa com a proximidade das lágrimas, mas nada disso será por culpa dele, que nunca te escondeu poemas para que os encontrasses às horas em que pensas que o silêncio é tudo, que nunca te deixou um livro aberto numa página em que estava uma frase que lhe parecia ter sido escrita para ti , que nunca se importou com os teus livros ou percebeu o que querias dizer com os livros têm cheiro e é possível viver dentro dos livros, ainda que só por um bocadinho, ele que nunca percebeu, ainda que tenha dito que percebia. quem percebe não parte, ainda que o caminho teime em se fazer longo. quem percebe levanta-se às 3 da manhã com a urgência de te dizer: és tão bonita: serão sempre todas minhas as saudades tuas: chega-te para aqui, ainda que depois volte a adormecer e de manhã só se lembre que acordou às 3 da manhã com a urgência de te dizer alguma coisa de que depende todo o amanhecer do mundo.
quem percebe não parte
talvez não o saibas, estás aqui agora. estás aqui agora e eu vou aproveitar para te dizer baixinho ao ouvido: vais gostar do meu abraço, do meu chega-te para aqui, das minhas saudades tuas.
estás aqui agora e eu vou aproveitar para te dizer baixinho ao ouvido: gosto das tuas pernas surpreendentemente bonitas e isso é tão pouco importante, apesar das tuas pernas surpreendentemente bonitas, porque tu gostas de nuvens e de relâmpagos e de citar lord henry em vão e isso sempre seria suficiente.
e gosto das nossas conversas. devíamos estar a conversar agora, agora-agora não, depois de leres esta carta pela segunda vez. gosto das nossas conversas e gosto das coisas inteligentes que dizes, sem precisares de parecer inteligente, e da tua falta de tolerância e que saibas da importância dos pormenores, mesmo não gostando de horas certas.
é por causa dos pormenores que ao leres as minhas-cartas-tuas vou imaginar-te sempre menina completamente de preto, sapatos amarelos, sentada debaixo de uma romãzeira, o sol a tomar os pés, um vento bom, que anuncia o outono, a tocar os braços
e um sorriso que se inicia às 10:35 e espera, não, estende-se até às 11.47.
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
carta do futuro
Milfontes, 15 de Novembro
gosto de gostar de ti. não gosto
quando penso que posso vir a deixar de gostar de ti. gosto de coisas simples e
gosto de ti. acho que és a única complicação de que gosto. gosto de aprender a
voar contigo. não gosto do natal. gosto do natal contigo. gosto de jogar às
cartas no natal. não gosto do natal. gosto de fazer o pinheiro contigo. gosto
de parar e olhar o mundo contigo. só parar e olhar. gosto de janeiro e de dias
frios contigo. e não gosto de janeiro mas gosto de dias frios. gosto de ter
saudades tuas. a saudade às vezes magoa. gosto de ter saudades tuas e gosto
quando dizes saudade. gosto de sonhar contigo e de pensar em ti. gosto dos teus
vestidos em ti. gosto dos teus pés. os teus pés são feios mas gosto dos teus pés.
gosto das tuas palavras. gosto das cores que dizes que cabem no peito. gosto de
casas e gosto que gostes de casas. gosto que saibas o que dizem os pássaros.
gosto que sejas tão especial. gosto que a tua presença na minha vida me torne
tão especial. gosto das tuas unhas finas de pianista. gosto dos teus lábios.
são mais bonitos do que pensas os teus lábios. gosto que não saibas que gosto
destas coisas todas em ti. gosto que me tenhas dado tanto trabalho a
conquistar-te. podias ter-te poupado um pouco no esforço de me teres
dado tanto trabalho a conquistar-te. gosto quando dizes que és uma pessoa
pouco recomendável embora nunca to vá dizer nem perceba bem o que queres
dizer com isso. gosto de dióspiros. parece-me sempre que os dióspiros trazem
muito sol dentro. gosto de dióspiros e gosto que os dióspiros me lembrem a primeira carta. gosto de dióspiros contigo dentro. gosto que gostes de dias calmos. gosto da tua fragilidade que não expões.
gosto da tua força. gosto dos teus ombros e sim sei que é fácil gostar de
ombros. gosto das tuas costas. gosto de cada centímetro da tua pele. gosto que sejas tão
picuinhas com certos detalhes. gosto de te ouvir ler baixinho no quarto. gosto
de falar de ti e gosto de ouvir falar de ti. gosto que saibas que nem todas as
palavras são bonitas. gosto dos teus ombros e sim sei que é fácil gostar de
ombros. gosto dos teus ombros. gosto do anel no teu indicador
direito. gosto do anel no teu indicador esquerdo. gosto que saibas apreciar a
letra das pessoas mais velhas. gosto quando lemos ao mesmo tempo o mesmo livro. gosto que sejas distraída para algumas coisas. gosto
da tua intolerância. já disse na terceira carta que gostava da tua intolerância. gosto de te abraçar. gosto
de te abraçar enquanto dormes. gosto de te ver dormir. gosto de te ver dormir e
gosto de te ver acordar. gosto de te dizer que estou a escrever para ti. gosto de te escrever. vou gostar sempre.
domingo, 20 de outubro de 2013
segunda carta
desarranjas-me
a respiração
como
se por um segundo não houvesse terra firme para os meus pés quando
me olhas
o
sangue circula muito devagar nas veias lentas tudo descompassado, um esforço constante
para me equilibrar, um esforço constante para não parecer tão pateta como sou.
são
07:39 em algum lugar do mundo. são muitas vezes 07:39 no lugar que sou.
escrevo-te
e não sei que horas são para além das
07:39 no lugar que sou, mas sei que não é a primeira vez que penso em ti hoje: pensei
em ti antes de começar a escrever isto: agora enquanto escrevo e mesmo depois da
última letra do último ponto da última respiração sei que vou pensar em ti, por
isso esta carta não terminará na última letra ponto respiração, por isso esta
carta não terminará, nem quando a estiveres a ler e me souberes a pensar em ti,
cada palavra a pensar em ti, cada palavra a pensar que devias sorrir mais e que
se o tempo existisse para lá da solidão quieta dos relógios devia parar nos
instantes dos teus sorrisos
tão
absolutamente linda ficas quando sorris.
hoje
li a tua carta outra vez (´a primeira melhor carta de sempre`). leio muitas
vezes a tua carta. às vezes leio a tua carta para me sentir mais perto de ti,
como se a palavra escrita pudesse interromper os quilómetros a insónia a distância.
hoje li a tua carta outra vez, não me canso de dizer: a tua carta, a tua carta
que não poderia ser para mais ninguém, e eu sei que sabes disso como os
pássaros sabem da chuva: antiquíssima, misteriosa e delicadamente.
também
esta carta é para ti. e escrevo-te para que estas cartas possam ser um
bocadinho como as tuas árvores de silêncio, onde podes encontrar refúgio, árvores
de silêncio que podes cheirar e apertar contra o peito, o silêncio no meio das
palavras, a comunicação primeira.
árvores de silêncio a existir por ti.
escrevo-te
mas o que queria mesmo era coleccionar primaveras para ti segurar-te pela
cintura falar-te ao ouvido poder dizer muitas vezes tu e eu e escrever e sentir
a tua pulsação o solstício na nudez dos teus pulsos e ser Coimbra da tua
janela: a alta o pátio da faculdade de direito, pequena fábrica onde se
desenham as nuvens, as escadinhas de ruas estreitas e arcos a caminho do
rio e um esforço constante para me
equilibrar quando tu me olhas as veias todas muito devagar o sangue devagar as
constelações todas devagar e relâmpagos no peito, tudo descompassado
quando me olhas.
quando me olhas.
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
primeira carta
há tantas dores diferentes.
tantas cores.
às vezes baixar os braços é bom,
sabes?
às vezes baixar os braços é deixar
cair quem já não nos segura. às vezes baixar os braços é saber que há braços que
foram feitos para nós, para nos agarrar. às vezes baixar os braços não é só
baixar os braços, é tudo: um anúncio de partida: um bilhete na porta com a
porta a fechar-se atrás de ti: um lugar a que nunca pertenceste a fechar-se
atrás da porta que se fecha atrás de ti
e há tantas coisas de que se pode
gostar em ti para além das mãos
e no horizonte já todas as coisas
que ainda não sabes que eu sei. coisas que talvez não saibas que existem.
coisas que talvez não existam. coisas que talvez não existam para além dos meus
olhos: pequenos gestos algumas palavras o teu sorriso.
alguma coisa importante consegues
tocar dentro de mim. alguma coisa esquecida: a noite adormecida: uma língua
morta: a solidão do rio.
às vezes baixar os braços é bom,
sabes?
é deixar cair o medo. é deixar
cair o medo e esperar pela nossa pessoa. não existe mais ninguém. é
imaginar a aproximação. é partilhar pensamentos trocar olhares dar as mãos
cheirar frutas e livros e saber da primavera e do outono e dizer dióspiro e
gostar de dizer dióspiro porque os dióspiros guardam muito sol lá dentro e tu
és um bocadinho como os dióspiros.
às vezes são 07:39 e tenho a
urgência de te dizer algo que esqueci, algo que lembrei e depois esqueci,
são agora 07:39 e tenho a
urgência de te dizer
às vezes baixar os braços é saber
as exactas coordenadas do coração, é saber que a Amèlie nos espera no des 2
Moulins, que livrarias muito antigas em ruas desertas de carros e casas nos esperam
e um gira-discos a desenhar os móveis e livros, muitos livros, a mostrar-me o caminho
para casa, a dizer-me que o teu corpo tem a beleza natural das romãs e o cheiro
bom das romãs e que não é verdade que se
tu te apaixonasses e eu me apaixonasse tornaríamos a vida um do outro exactamente
miserável, e é claro que haverá silêncios e é claro que assistiremos calados ao
nascimento desses silêncios e as horas teimarão em atrasar o tempo e o tempo
teimará em não ter nome, mas no lugar mais profundo desses silêncios os meus braços
feitos para segurar proteger abraçar o teu corpo inteiro abraçar-te-ão
os silêncios não serão mais do
que casas onde apetece morar, bancos virados para o mar e cartas e poemas e
post-its nas almofadas nos espelhos das casas de banho nos quartos de hotel a atestar amor mais ´pateta` do mundo.
às vezes baixar os braços é bom
quarta-feira, 10 de julho de 2013
as mãos
as mãos. as tuas mãos. as mãos.
são minhas as tuas mãos. são
perfeitas.
vou gostar de ver acender-se cada
ruga das tuas mãos, porque cada ruga trará um pouco mais de perfeição, um pouco
mais de tempo, um pouco mais de nós.
os teu pulsos. o impossível equador.
os teus pulsos são meus. o interior dos teus pulsos. os domingos com pássaros
no parapeito da janela a anunciar os domingos e a chegada da primavera, as
cerejas, as flores. no interior dos teus pulsos que cabem na minha mão fechada
as flores, a estação inteira.
o teu nome. esse que repito
baixinho. o teu nome. gosto tanto do teu nome. a transparência do teu nome que é
perfeito como as tuas mãos. o teu nome de que gosto tanto. por isso o repito
tantas vezes, por isso baixinho para que ninguém o roube ou te esqueças de mim. o teu nome que é uma oração delicada um
delicado beijo a lembrar a ternura da casa inteira.
o teu sorriso. a forma como se
desenha o teu sorriso nas fotografias. nós nas fotografias nós fotografias das
viagens que fazemos para lá dos livros para lá do teu sorriso, nós por dentro
das músicas que nos descobrem e a minha cabeça nos teus joelhos a sonhar poemas
tão bonitos como o sorriso que escondes e se desenha nas fotografias, nas
minhas mãos, na pele, dentro de mim. eu parado a olhar para ti, eu parado, eu a
olhar para ti e a gostar de ti. eu só parado a gostar de ti. a gostar de ti.
os teus livros. os teus livros
que têm cheiro, que quando nos tocam ficamos com o seu cheiro na ponta dos
dedos, os teus livros que nos perfumam a ponta dos dedos e a cama e os lábios
quando os cheiramos tão de perto. os teus livros que são todo o azul do mar mais o
azul do céu mais o azul que se encontra em todas as coisas de que se pode
gostar, até nas mais pequeninas: portas azuis: janelas azuis: sonhos azuis de
manhãs azuis e céu, muito céu, e horas, muitas as horas, e flores e coisas
simples e as coisas simples e belas de que se fazem os corações mais bonitos e
a felicidade. os teus livros que são pequenas viagens às cores dos fins de
tarde: aos laranjas à transcendência ténue dos amarelos aos risos e às conversas
com pessoas que apetecem muito. e por isso os teus livros são também um grande
amor, uma esplanada ou alguém de quem se pode gostar muito, ter saudades,
apertar contra o peito. alguém que esperamos. porque o delicadamente
maravilhoso faz-se esperar.
sei que há um banco virado para o
mar. sei que é nesse banco que vou estar.
terça-feira, 4 de junho de 2013
e quem precisa de flores
não mais os domingos sairão para a rua, eu sei.
e não sei se sei estar sozinha, sem os suspiros que me arrancavas do peito, sem os teus gritos à porta da vizinha, sem os teus passos bêbados de matar a sede na cozinha. não sei estar sozinha. e sou tua e tu sempre foste meu e fomos sempre um do outro e de sempre um para o outro, eu sei
que nunca foste dos cigarros que não existiram noites inteiras por dentro da noite nem do vinho que não existiu na rotina da tua mão a levantar-se noites inteiras por dentro da noite e no ar rastos de cometas com perfumes tão baratos como o meu, mas não o meu, no ar perfumes baratos e a tua mão que não
só as flores existiram, só as flores que desapareceram com a rotina da tua mão que não existiu a levantar-se e o fumo e o vinho na tua respiração e os perfumes baratos como o meu a vestir-te a roupa.
e quem precisa de flores?
os cigarros e o vinho até tarde, os cigarros, o vinho, os perfumes baratos a vestir-te o corpo e os amigos até tarde todos os dias
e o peso dos teus passos a arrastar a casa contra o espaço da minha almofada, o peso da tampa na casa de banho sempre por levantar a crescer com as pinceladas do amarelo que sobra das tuas noites
e as reclamações à mesa às horas certas e o resmungar imperceptível na cama quando eu de olhos fechados a fingir o mais pesado dos sonos.
e a bruxa que nas cartas viu, como eu, o demónio que te ganhou o corpo, tu boneco desse maldito demónio que te ganhou o corpo e a alma, mas não te ganhará de mim, que na sexta-feira num cruzamento com uma vela
a bruxa a dizer nunca mais os domingos nem as manhãs em que foste fornadas de sol, nunca mais eu com o vestido que me punha linda quando me conheceste e demasiado curto depois, demasiado decotado, demasiado tudo,
a bruxa a dizer que não mais se eu não às 24h00 de uma sexta-feira, quando a lua estiver em touro, a consagrar uma vela onde o teu nome e o meu gravados e rezas e orações a horas certas como as tuas reclamações e mezinhas e novas visitas com a minha irmã que diz que tu não prestas, com a minha mãe que dizes que tu não prestas
e que sabe do amor a minha irmã que diz que tu não prestas e que eu uma burra por te abrir sempre a porta, e que sabe do amor a minha mãe que diz que tu não prestas e minha filha não sejas burra, e o meu pai, que deus o tenha, que pode saber do nosso amor, que podem saber todos deste amor que de ser tão nosso não nos pertence?
e podem até os domingos não mais sair à rua mas
aproxima-se mais uma sexta-feira
e quem precisa de flores?
quarta-feira, 24 de abril de 2013
carta breve ao meu pai
esta carta é para ti que me ensinaste a olhar, a prestar atenção, a querer conhecer, a querer tocar e sentir sem tocar e sentir, a querer o mundo e os mundos para lá dos meus braços agarrados aos teus joelhos.
não morreste pai, não morreste. estás vivo e não só nas fotografias e nos meus gestos que te repetem e nos sonhos onde continuamos a ter conversas de melhores amigos. não morreste.
e Leça foi primeiro contigo Leça
e eu fui primeiro contigo eu
em pequenos gestos que te repetem
e ainda hoje gosto quando as pessoas que te conheceram me dizem que sou parecido contigo, embora nunca saiba muito bem o que querem dizer com isso.
como gosto de me ver anotar tudo como tu em papéis soltos que nunca hão-de servir para nada e que dificilmente visitaremos porque não passam de isso mesmo papéis soltos que nunca hão-de servir para nada. nos dias felizes ainda visito os teus que vou apanhando e juntando e visitando e visitando sempre como se fosse a primeira vez.
não morreste. tu que me meteste os livros na pele, na pele o vício pelas enciclopédias todas, que em ensinaste a ler deitado de costas a olhar para o céu, porque é isso que um livro é, um céu, mais real mais puro mais nosso. não morreste tu que me deste o Gilé o Limpopo o porto de Nampula mais o Douro, o nosso Douro, com o Tua, o nosso Tua, muito bem escondido.
e gosto sobretudo que me tenhas dado a minha mãe, que tenhas escolhido para minha mãe a minha mãe.
e continuo muitas vezes agarrado à tua perna enquanto tentas andar. e sei que muitas vezes é a tua perna que me segura, que me ampara, que me ensina a caminhar. e sei que nesses momentos serei sempre criança e irei sempre contigo para todo o lado como quando era criança e que estarás sempre comigo.
e Leça foi primeiro contigo, pai Leça foi primeiro contigo
o farol, a marginal, a casa de chá, as rochas da pequena capela onde muitos anos mais tarde me encontravas a namorar e a Petrogal, as horas na praia a imaginar que quando crescesse gostaria de ter o emprego daquele gigante que se dedicava a fabricar ondas, todas as ondas do mundo, a fabricar a música que toca nos dias de maior tempestade.
e o Porto primeiro contigo, a Pesqueira, o Pinhão, a Régua e o Mutaca que me mostrou quantas eternidades uma gargalhada pode ter, Lisboa e o Barata, e a sua caldeirada de marisco que ficava quase tão boa como a do Michel com a diferença deste lamber a colher de pau na televisão, o Silva e o Vieira, Torres Vedras e o Vilas, o Dinis e Campo de Jales de que nunca conheci mais do que a casa do Dinis e onde nunca mais voltei, e o Couto e os verões em Afife e os rebuçados e os gelados da fábrica de Afife, o Couto que também não morreu, pai e não morrerá nunca.
lembro-me desses grandes amigos muitas vezes e desse maravilhoso hábito antigo de os grandes amigos se trataram pelo sobrenome e sacana e uma gargalhada, o sacana do Silva, o Neves o sacana locomotiva a ressonar, e o sacana do tio Augusto sempre com as suas histórias, os ataques cardíacos de deixar o seu cigarro e o seu comunismo secular, o sacana do tio Augusto que me visita tantas vezes como tu que estás sempre aqui.
e o futebol primeiro contigo, as Antas, os recortes nos jornais, a dragões, os relatos e o vinho para festejar com o Madjer, o Futre, o Gomes o Geraldão
obrigado por existires, pai. e obrigado por semeares África no meu coração. obrigado por existires e seres tu, pai. e obrigado por me ensinares da importância das lágrimas, até das que não choramos, sobretudo das que não choramos. obrigado também pelas madrugadas no golfo, pelas tardes da malha e da sueca, as tardes a viajar. e obrigado pela cebola o sal e o pão, divindade tríplice, a ovas de bacalhau de que só gostei enquanto comias comigo, pela melhor sopa de cebola do mundo, o melhor abraço do mundo num difícil dia de ressaca. obrigado por tudo isto e sobretudo obrigado por tudo o que não está aqui escrito, mas está aqui.
fazes-me muita falta, pai. fazes muita falta.
segunda-feira, 18 de março de 2013
começou a chover no princípio do mundo
será que lhe falaste de mim?
quando tenho soluços penso que vai ser para sempre. sustenho a respiração para sempre.
a 2700 pés de altitude o meu coração arde a cidade arde
quem disse que o tempo cura não sabe que o tempo mata. um bocadinho hoje um bocadinho amanhã. quem disse que o tempo cura não sabe. quem disse que a altitude salva não sabe que a noite é uma oração sem mar.
quando tenho soluços penso
será que ele sabe que são os meus versos que descobrem as tatuagens da tua pele: que aprendemos juntos a contar as ondas dos mares de inverno: que parti tantas vezes desta cidade em navios inexistentes que só nós víamos, navios que me levaram a beijar todos os mares que se recolhem na concha do teu corpo: que os domingos eram para o amor e a poesia e as segundas e as terças mais todos os outros dias que sem nós só calendários vazios: que tu és apenas o que restou depois dos calendários vazios e que eu não sou nada
não sei das flores e dos caminhos que me abrem as estações
quando tenho soluços penso que vai ser para sempre. sustenho a respiração para sempre. penso
será que ele sabe das vezes que tive que chantagear deus, antecipar-me a ele, instrumentalizá-lo, gritar-lhe quando ele surdo aos meus apelos, desafiá-lo para um duelo em campo aberto, corações ao vento, mortais os dois, ele mais mortal do que eu pela promessa do teu amor.
do mais profundo lugar do esquecimento sei que estou em cada gesto teu a cada segundo em cada respiração. as tuas fronteiras não são mais do que a geografia acabada das minhas lágrimas, da minha língua, da minha vida.
devias sentir mais a minha falta: devia doer-te mais: devias aparecer menos vezes: as tuas mãos deviam suar mais ao lembrares-te de mim ao respirares ao respirares embora eu em cada gesto teu segundo respiração.
a 2700 pés de altitude
a luz daquele barco acendeu-se de novo. a luz daquele barco acendeu de novo uma espécie de silêncio de gaivotas nocturnas que teima em pousar lentissimamente nas mãos a terrível evidência do amor: só por cima do mar nas varandas mais altas se pode tocar o céu para lá dos enganos. estamos a tocar o céu agora e por cima das nuvens a chuva queima novembros adormecidos.
do nosso quarto também se podia tocar o céu mover a palavra vencer o erro. do nosso quarto de onde partiam barcos partiu um barco
e ainda assim sei que estou em cada gesto teu a cada segundo em cada respiração. sei. e às vezes torna-se difícil respirar. e às choro. às vezes choro e torna-se ainda mais difícil respirar. às vezes escrevo. às vezes como hoje choro e não gosto. às vezes minto. e às vezes ainda te ouço e rio e esqueço-me de chorar.
às vezes esqueço-me de morrer baixinho. e às vezes esqueço-me que sabes.
começou a chover no princípio do mundo
e sei que ele não sabe, mas espero que te faça feliz
mesmo que me apagues de ti
sexta-feira, 8 de março de 2013
haverá sempre as ruas em que o Porto não existiu
haverá sempre as ruas em que o Porto não existiu
à velocidade com que te ponho nua aqui e reinvento o papel da literatura e da mulher
— e troco toda a poesia por uma vida feita de rotinas de ti
e terás sempre nome, serão sempre para ti os dias, ainda que os pássaros se calem nas persianas que se fecham atrás do mar
— e não volto a dizer amo-te
— já não me dizes amo-te
nas noites em que volto ao entardecer de signos e dedos que se tocam e perpetuam a saudade (até a que não se têm às horas certas do nada) e fazem nascer o grito e gritam o grito que fizeram nascer temerariamente, assim como quem diz amo-te digo
amo-te
tão temerariamente como se o grito parisse a noite que se pare sozinha enquanto volto ao entardecer de signos e dedos que se tocam e perpetuam as cinzas da saudade de ver nascer o mundo naquela noite em que mudei o nome a Barcelona, salvei Gaudí, vi Istanbul como veio ao mundo
— e sei que já não me escreves
e continuo sem saber porquê, como se precisasse de saber porque não volto a dizer amo-te, nem Istanbul, nem te mudo o nome que os meus braços serão sempre o teu bunker, ainda que não os queiras na vertigem dos segundos em que persigo o rasto das gaivotas a apagar-se no rasto das memórias de um orgasmo que inventaste para mim enquanto te olho e penso que nunca mais digo amo-te porque a palavra já não significa nada quando se torna menor que o Amor
— e não volto a ser Fevereiro, e tu sabes porquê e não to digo, nem Março, não volto a ser Fevereiro nem Março
— serás sempre Novembro
e também não quero ser Novembro e não volto a ser Fevereiro nem Março nem BarcelonanasruasemqueoPortonãoexistiu
no suor da poesia entre as pernas, versos derrotados por cima das roupas que descobrem dois corpos esgotados pela luz num improvável campo de batalha que revela beijos tatuados por debaixo do céu da pele e que se esquecem no tremor das pernas que confirma o inevitável
— não volto a dizer amo-te…
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
só no final sabemos do primeiro amor
onde começa o arco-íris e todas as coisas mágicas que acontecem no teu corpo?
a memória é o futuro a mostrar-nos o caminho, sabes?
e ficamos diferentes à medida que o percorremos e nos vamos encontrando com o tempo: o primeiro dia só têm significado porque estamos aqui, aqui onde tu és o Verão dos meus dias a canção que ilumina a última estrela, a palavra plena
desejo-te em todas as coisas. e quero-te. desejo-te e quero-te e não tenho carne nem sangue nem boca que não planeiem amar-te a cada segundo. e amo-te em todos os lugares do mundo que o meu coração está onde tu estás e não há distância que nos possa separar
e ainda que às vezes a banheira de pétalas tenha que esperar as manhãs de sol a nascer na nossa cama tenham que esperar os poemas e os livros e os risos tenham que esperar não haverá distância que nos possa separar, não haverá mar que possa apagar da minha pele o teu beijo de terra quente de flor nascida da erupção de um vulcão
e vou sonhar-te sempre até nos instantes mais breves e vou inventar dias de chuva apenas para que possamos dançar
que não haverá mar que possa apagar o teu primeiro toque o teu primeiro beijo o teu primeiro sussurro de unhas na minha pele e não haverá mar que me impeça de imaginar-te nua, de te ver nua como naquela noite em que fizemos do chão a nossa cama e te vi nua e pensei: a minha vida acabou de começar: a minha vida pode acabar: a minha vida já não é minha
apaixonei-me por ti em certas escadas de luar e hoje as tuas mãos seguram o meu coração
tu és o meu calendário o meu primeiro verso o mais puro a minha cidade e eu ardo constantemente de saudades tuas
e, prometo-te, em Paris Barcelona Veneza ver-se-á o pôr-do-sol da nossa cama
a vida inteira a esperar por ti
só no final sabemos do primeiro amor
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
a minha cidade és tu
são
23:57, precisamente, e escrevo-te à distância desta cama vazia deste outono
vazio de todas as coisas que descobrimos juntos, tu e eu Porto, e sei que vamos
ser felizes para sempre.
és
a minha cidade. tu és a minha cidade. e és minha lista de sonhos por cumprir e
a minha lista de lugares por cumprir e de livros e filmes e músicas e vinhos.
nasci
para ti, para as tuas ruas de pedras e calçadas e s. bento em partidas e
chegadas em abraços mais ou menos perdidos e para o piolho o setenta e sete o
contagiarte às quartas e o gesto agora apagado e o pinguim o mau mau a tendinha
o armazém mais as tardes do solar a tasca de santo antónio o senhor fernando o
fado no boteko e para todas as pessoas que puseste no meu caminho, tantas e
tantas que vão ficar,
e para os teus velhos, que gosto quando o sol
se põe nos olhos dos teus velhos, e para o teu sotaque e a tua autenticidade de
cordas nas varandas e cuecas e soutiens e o peluche dos meninos e para o carago
para o chega-te à minha beira e para as tuas mulheres, a Sophia a Agustina, que
tens as mulheres mais bonitas do mundo e as varandas mais bonitas do mundo e a
curva de rio mais bonita do mundo
e
para a tua voz de nevoeiro para as manhãs de chuva e olhar breve da ribeira, para
o rio a molhar os pés das casas a molhar os pés das pontes a molhar os pés do
mar, e para as casas, para as tuas casas a nascer das outras casas, umas dentro
das outras e em cima e ao lado pequenas escadas a nascer e pequenas ruas e
pequenos vãos de escadas onde os namorados
que
és a cidade mais romântica do mundo e ninguém é mais feliz do que nós que te
amamos
e
gosto que tenhamos horas marcadas, sítios, dias no calendário
e
gosto de te deixar mensagens e de encontrar as mensagens que te deixei e saber
que não mudámos, eu e tu
e
gosto das viagens no teu corpo. e de te tocar, gosto tanto de te tocar. e gosto
das noites de viagens no teu corpo e dos amanheceres de frio e poucas flores e
alegria, só frio e uma alegria sem flores que o frio também pode ser alegre em manhãs de aconchego e mantas e poemas
de muitas cores.
e
gosto de voltar a ti. gosto de voltar
e
são 00:46 e continuo a escrever-te e
continuo à espera que uma janela se abra e te traga até mim, qualquer janela
e
de repente só o teu cheiro e esta falta de ar
a minha cidade és tu.
e
continuo a escrever-te à espera que uma janela se abra
e
de repente esta frágil sede a tua fotografia lúcida o teu mar alto encostado ao
meu mar
e
de repente só a tua respiração só o teu sorriso de cidade feliz só a fotografia
do teu mar alto a encostar o peito ao meu mar
e
hoje sonhei contigo. estavas muito bonita.
vou
ter todas as saudades do mundo
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
o mar é um planeta inconfessável
eu
chorei primeiro. chorei um corpo inteiro.
depois
o teu abraço o teu soluço o teu medo inteiro. depois a despedida. não sei se
dissemos alguma coisa. não sei se disse: o céu não é dos pássaros, o teu corpo
desafia a voar, sinto o sol sempre que o teu olhar ousa riscar o meu olhar. não
sei se sorriste.
eu
chorei primeiro. eu chorei primeiro cada
dia sem ti.
é sempre mais difícil do que parece, é sempre
mais difícil do que quando treinamos e só vemos as lágrimas longínquas do espelho
não molham as mãos tremem menos
é sempre mais difícil porque os finais têm a
tua cara e não têm música e alguém se esqueceu de fazer um filme sobre nós em
que eu à chuva atiro versos e flores comovidas à tua varanda comovida e tu corres descalça
pele colada ao vestido e os meus braços. alguém se esqueceu e nem músicas nem
poetas tristes amanhecerão, só esta carta, que não há finais felizes que os
finais são territórios para a distância para súplicas tardias para suicídios de
improviso em olhares cheios de nada lugares onde não se deve regressar
e ainda que quisesse não saberia regressar à
tua carne vidro na memória
e ainda que quisesse não saberia regressar ao
azul às estações de framboesa aos barcos despidos de língua às noites que não precisam de tradução
o mar é um planeta inconfessável que se deixa
despir e tocar
tu és um planeta inconfessável que se deixa
despir e tocar
e enquanto o Porto me olha amadurecem
tempestades nas esquinas o silêncio despede-se de plutão os cinzeiros ficam
misteriosamente vazios
e
nos hospitais de cinza de Eugénio as primeiras luzes das colinas amam pequenos poemas
pequenas cartas como esta pequenos nadas
e
neste momento a claridade toca todos os espanta-espíritos do mundo
e
neste momento o meu telemóvel toca e a solidão é apenas uma promessa que se apaga na promessa de
outros corpos de outros incêndios de outros naufrágios de luz projectada noutras camas
e estou deitado e o cigarro estende-me passadeiras de fumo. finalmente sinto que
tenho idade suficiente para fugir do mundo. e ainda assim não fujo. velo-te.
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Retrato de M
– eu escrevo poemas que se podem fumar
– não és o que eu procuro
– sou o alto mar
e vejo o tempo começar na sombra de uma janela que se abre na fotografia em que estás tu o Borges o Cortázar Rua Florida Richmond ao fundo e em que te estou a dizer sou o alto mar e
– posso não ser o que tu procuras
– eu nunca soube chorar, por isso espero a chuva
– a chuva não é deste planeta, não me deves esperar
que não regresso ao quarto feito de regressos a que regresso sempre, sexto andar, livros com poemas a fazer de cabeceira, poemas no chão a fazer de chão e a anunciar a chuva que sempre se demora por vir de longe, e nós bem longe também da Rua Florida onde nunca chovia e se chovia não era chuva e se era chuva não nos podia tocar
– tu existes ainda que eu precise de te inventar
– tu já me inventaste agora não existo
e não durmo embora continue a comer e não durmo e sobretudo bebo até as noites mais inteiras e vejo-te mesmo quando não te vejo e bebo para que me fales ao ouvido coisas que eu não consigo perceber e não foste a única porque houve outras mas foste a única que ainda te vejo até em certas palavras que são partes do teu corpo que eu não consigo tirar de mim
– estou aqui
e estás aqui mas já não sei pronunciar o teu nome
só a primeira inicial que se repete uns passos mais à frente como se a terra fosse toda mar e o mar fosse todo eu
e sinto frio e espero que o frio se esqueça de mim e abro de novo a janela da fotografia que não me reconhece e toco a chuva que veio de longe e não é deste planeta com a ponta dos dedos desço por ela e abro totalmente esta janela que não me reconhece e a chuva traz-me à cama onde ainda dormes entre os meus papéis confusos e não isto não são lágrimas embora o sal
– nos teus olhos vejo coisas que só existem nos teus olhos
– demoraste ou quiseste fazer-me esperar
– eu não sou quem se deva esperar
– provavelmente vou esperar-te até depois da morte
– a morte é só um outro tempo, um outro modo de dizer as coisas
e eu não sou quem se deva esperar, que me acabo antes à porta de um prostíbulo, Paris ou Buenos Aires, como um poeta deve acabar
– nunca te disse mas acho que não te posso deixar, detesto demasiado a tua poesia
– tu detestas toda a poesia
– na verdade não detesto toda a poesia, só tenho medo
– na verdade eu não faço bem poesia, só quando te escrevo ou te ponho nua
– já não fumo, escreve-me poemas que me possam matar
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