quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Cartas do Brasil II

Sinto que foste tu que foste embora e que eu nunca sai da zona de embarque do aeroporto. O beijo que me prometi não aconteceu e eu não parei de sentir frio desde então. Choro quando não consigo mais fingir que tu vais voltar. Tento falar com toda a gente, ser de toda a gente, perguntar se te conhecem.
Na última semana, os meus pesadelos tornaram-se mais reais. Belisco-me repetidamente para acordar, mas do lado de lá, eu ainda faço parte da tua vida - e do nosso imaginário.
A tua fantasia morreu, mas a minha ficou. Vive da dúvida de não saber para onde foste, porque é que não me procuras mais, porque é que o despeito se finge de amor, porque é que estavas naquela noite, naquele hostel, perguntando pelo meu nome e pelo meu destino.
De ti (agora, entendo) sei tão pouco que foi quase suicida dormir abraçada às tuas costas. E lembrar-me em ciclo de tudo o que podiamos ter sido, sem o consentimento de ninguém.
Enganei-me sobre o quase tudo que eras - esse quase nada engasgado na falta de jeito para me mentires. Tentei simplificar-te e não fazer perguntas. Vim embora sem saber o que fazer com a minha vida, sem saber o que fazer contigo, com a roupa que usei na tua cama, com as fotos que oportunamente esquecemos de tirar.
Hoje começo a minha vida do zero, pela enésima vez. Já desfiz as malas por completo. Já fiz o meu primeiro jantar. Vivo sozinha pela primeira vez - e trago-te minando o meu tempo, o meu sono, os meus lugares. Imagino-te repetidamente deitado do meu lado - mas depois lembro-me que tu não és assim, que talvez aqueles nem sejam os teus traços, que definitivamente aquele não é o teu jeito. 
E assim, finjo que avanço, arrastando-me por ruas que não são minhas, na expetativa de te perder por fim na próxima esquina. 

Beatriz

mais da muito maravilhosa Beatriz, aqui

quinta-feira, 26 de março de 2015

Carta a Paris 16 de Março de 2015

16 de Março 2015
10:07


Está frio. O céu, imenso e de um cinza quase branco, leva-me os sentidos e a minha vontade. Ainda assim decidi ir a Paris, onde te encontrei. Estás diferente. Não passou muito tempo desde a última vez que te vi mas estás  diferente. Quem disse que diferente é mau? Não, não é. Apenas te reencontrei na morada que me deste e no cinza esbranquiçado que me envolve sem o querer,  vou eu descobrindo-te noutras cores, umas mais quentes, outras mais frias. E sem te ver, pus-me a escrever na parte vazia do coração. Decidi não apanhar o comboio, o autocarro, não, desta vez decidi ir a pé. E sentido os movimentos do meu corpo, fui percorrendo essa tua cidade onde falas genuinamente de amor, do ter sem possuir, da compreensão sem contenção.  No caminho apeteceu-me pão quente, acabado de fazer. Sem me mexer, viajei no tempo e regressei a uma geração distante mas minha. Agarrei as memórias e sem as largar senti todos os cheiros, os sons, senti em mim um tempo que embora longe, permanece sempre com carinho e alguma saudade.

Passaram 15 minutos e ainda faltam outros tantos para a massa estar pronta e ir para o forno. É assim, quando desejamos algo, mesmo que pareça interminável e tortuosa a espera,... esperamos sem desesperar, porque sabemos o que ... ou quem vamos encontrar.

Saber esperar… Ninguém nos ensina, temos nós de aprender a reconhecer os tempos, os nossos e os dos outros.

Está frio, está mesmo frio. Vou continuar a esperar e depois mando entregar quente ou morno, uma fatia deste pão. Na minha recente morada chamam-lhe castanho, é saboroso e saudável, como as recordações que nos fazem parar e querer voltar, a elas.


Vou voltar. Mas foi bom encontrar-te na partilha de um gosto comum. Foi bom viajar mais uma vez e conhecer o teu lado mais sensível, mais verdadeiro. Ainda bem que somos só alguns, os loucos, que gritam o que são e o que querem ser, sem medo de viver, de sentir.

T.

terça-feira, 10 de março de 2015

carta a k

gosto de te dizer que gosto de ti, porque é verdade e para mim nunca foi fácil dizê-lo. gosto de ti, sabes? e gosto de gostar de ti. e gosto de nós. gosto de como nós erámos. gosto de como tudo começou, quase como uma brincadeira de crianças. gosto do nosso primeiro beijo. acho que eras capaz de ouvir o meu coração bater quando te dei o nosso primeiro beijo. não estávamos sozinhos, mas estávamos sozinhos. eu só te via a ti. continua a ser assim. não me perguntes o que falámos, quem disse o quê, não sei. eu só te via a ti e continua a ser assim. se sabia o que aquele primeiro beijo ia significar? acho que nunca se sabe, muito menos quando o significado se tornou isto, esta coisa tão grande e deslocada do tempo e do espaço. gosto de ti e gosto de gostar de ti. gosto de ter saudades tuas, e tenho tantas e tantas vezes. gosto que me surpreendas. gosto que sejas de pormenores, pequenas coisinhas, mesmo que não pareças prestar atenção nenhuma às coisas. gosto da rotina contigo. aprendi a gostar da rotina contigo. gosto de estar contigo e sentir que só por estar contigo já estou noutro lugar, um lugar mágico a que só posso aceder estando contigo. gosto que coles em mim. não gosto quando deixas todo este espaço entre nós. gosto de me sentir teu. sou teu. gosto que gostes do meu ar de menino, que eu não sabia ter, e de me sentir mexer os dedinhos e os pezinhos antes de dormir. e ao acordar. gosto que gostes dos meus olhos, mesmo quando eles não têm nada para te dizer. gosto que gostes do meu carinho, que só existe para ti. gosto que gostes do meu colinho. gosto de todas as coisas que só tu consegues ver em mim, coisas que até eu desconhecia. gosto do teu coração grande e frágil e forte e frágil. gosto de sonhar contigo. gosto do teu cheiro e gosto quando o teu cheiro se demora na casa. gosto do que a tua presença faz à casa. gosto quando me acordas a meio da noite com beijinhos e miminhos. gosto de acordar e ter uma mensagem tua. gosto de acordar primeiro que tu. gosto de te ver dormir. gosto de te ver acordar. gosto de te dar a mão. em lisboa demos a mão. gosto do teu abraço, viveria para sempre dentro do teu abraço. lisboa foi muito boa para nós. gosto dos teus dentinhos tortos, deixam-te ainda mais linda e com mais graça os teus dentinhos tortos. gosto do teu rabo (macaquinhos com as mãos nos olhos), mas foi o teu sorriso quem te abriu a porta. gosto do teu jeito meigo, da tua ternura. gosto da tua paciência, até para pessoas, como eu, com quem não devias desperdiçar um grama da tua paciência. gosto dos teus passinhos curtos quando dizes alguma coisa engraçada, mas de que te queres redimir. gosto de te ver rir e gosto de te fazer rir. gosto de te ver rir. gosto quando vestes a minha t-shirt antes de dormir. gosto quando andas descalça pela casa. gosto de falar contigo antes de adormecer. gosto quando estás quase toda em cima de mim. não gosto quando te afastas com medo de me fazer calor. gosto de dormir contigo, eu que não gosto de dormir com ninguém. gosto de dormir contigo. gosto de te sentir ali ao lado. gosto que a minha cama seja a nossa cama. e gosto de acordar contigo. gosto do teu andar. e sim, gosto de ver o teu rabo quando andas (como é que consegues andar com esse rabo?). gosto de te chamar princesa, embora sejas muito mais do que isso. gosto de te dizer coisas bonitas. gosto de te dizer que estás linda. e estás sempre. gosto de te dizer que estás linda. gosto de saber que era capaz de continuar a gostar de ti mesmo que estivéssemos separados por muitos quilómetros. já estivemos separados por muitos quilómetros, mais ainda nos últimos tempos. gosto que mereças alguém muito melhor do que eu e ainda assim gostes de mim. gosto de acordar de manhã e saber que existes, perto ou longe de mim, que existes e por isso o mundo é um lugar mais respirável. gosto de tantas e tantas coisas em ti que nunca um papel será suficiente. gosto de estar a escrever para ti. gosto de pensar em ti. gosto de escrever para ti mesmo sabendo que esta pode ser a primeira e a última carta que escrevo para ti. a carta da despedida. não gosto de despedidas. gosto de ti. sempre gostei, desde o início. e gosto de gostar de ti.