sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Amado da minha alma

Amado da minha alma,

Às vezes o estado de corpo-alma que se apodera de mim na tua ausência aparenta pertencer mais ao céu do que ao inferno. Chega de manso e é amenamente que plana e pousa sobre mim; entra-me pelos poros com a naturalidade de um perfume de ambiente, deposita-se nos interstícios da memória numa lentidão quase deliciosa. Eu fico quieta, a ver esse deslizar de imagens, de gestos, e de instantes que tendo sido de mim para ti ou de ti para mim se tornaram nossos ao nascer. Por momentos, fico assim suspensa entre o passado e o presente, entre a vida e um além, não sei se feliz, se apenas à beira de um torpor adquirido num vago flutuar do desejo. Nada me dói - nenhuma recordação, nenhum receio; nada me inflama. É um estado  de anestesia que eu imagino reinar no céu, um nada sentir em que o ser se deixa diluir. Mas eis que subitamente um frio ardente me penetra e então sacode-me a convulsão da saudade. É o gume da espada do anjo implacável que me expulsa deste paraíso em que, afinal não fui mais que Eva enganada pelas mil serpentes geradas no ventre doloroso da tua ausência.

Maria Ripichi

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