sexta-feira, 23 de agosto de 2013

primeira carta

há tantas dores diferentes. tantas cores.

às vezes baixar os braços é bom, sabes?

às vezes baixar os braços é deixar cair quem já não nos segura. às vezes baixar os braços é saber que há braços que foram feitos para nós, para nos agarrar. às vezes baixar os braços não é só baixar os braços, é tudo: um anúncio de partida: um bilhete na porta com a porta a fechar-se atrás de ti: um lugar a que nunca pertenceste a fechar-se atrás da porta que se fecha atrás de ti

e há tantas coisas de que se pode gostar em ti para além das mãos

e no horizonte já todas as coisas que ainda não sabes que eu sei. coisas que talvez não saibas que existem. coisas que talvez não existam. coisas que talvez não existam para além dos meus olhos: pequenos gestos algumas palavras o teu sorriso.

alguma coisa importante consegues tocar dentro de mim. alguma coisa esquecida: a noite adormecida: uma língua morta: a solidão do rio.

às vezes baixar os braços é bom, sabes?

é deixar cair o medo. é deixar cair o medo e esperar pela nossa pessoa. não existe mais ninguém. é imaginar a aproximação. é partilhar pensamentos trocar olhares dar as mãos cheirar frutas e livros e saber da primavera e do outono e dizer dióspiro e gostar de dizer dióspiro porque os dióspiros guardam muito sol lá dentro e tu és um bocadinho como os dióspiros.

às vezes são 07:39 e tenho a urgência de te dizer algo que esqueci, algo que lembrei e depois esqueci,

são agora 07:39 e tenho a urgência de te dizer
às vezes baixar os braços é saber as exactas coordenadas do coração, é saber que a Amèlie nos espera no des 2 Moulins, que livrarias muito antigas em ruas desertas de carros e casas nos esperam e um gira-discos a desenhar os móveis e livros, muitos livros, a mostrar-me o caminho para casa, a dizer-me que o teu corpo tem a beleza natural das romãs e o cheiro  bom das romãs e que não é verdade que se tu te apaixonasses e eu me apaixonasse tornaríamos a vida um do outro exactamente miserável, e é claro que haverá silêncios e é claro que assistiremos calados ao nascimento desses silêncios e as horas teimarão em atrasar o tempo e o tempo teimará em não ter nome, mas no lugar mais profundo desses silêncios os meus braços feitos para segurar proteger abraçar o teu corpo inteiro abraçar-te-ão

os silêncios não serão mais do que casas onde apetece morar, bancos virados para o mar e cartas e poemas e post-its nas almofadas nos espelhos das casas de banho nos quartos de hotel  a atestar amor mais ´pateta` do mundo.


às vezes baixar os braços é bom

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