quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

e sempre esta casa vazia de saudades e de mar


escrevo-te de um lugar que não existe
escrevo-te de um lugar que não existe porque sem ti sou uma terra sem lugar uma casa vazia de saudades lua sem febres mar gaivotas nem casas para incendiar que a tua pele era um incêndio e por isso escrevo-te do pôr-do-sol que éramos e não existe e só a solidão

e a solidão não se desaprende, sabias? digo: a solidão não se desaprende nem na morte

por isso escrevo-te destes dias que pedem nevoeiro relâmpagos inteiros invernos por inventar em cidades saqueadas úteros vazios exércitos de orgasmos por resgatar e escrevo-te de todos os lugares, os nossos lugares, que não existem e de que voltei inteiro que só de ti não soube voltar e Veneza não existe Madrid não existe o Alentejo não existe nas planícies de superfície mais ou menos lunar de que soube voltar inteiro

só de ti não soube voltar

das tuas mãos pequeninas feitas para beijar o frio que só existia para eu te poder abraçar e beijar e os autocarros felizes comigo a ler para ti e as árvores felizes os bancos de jardins felizes contigo deitada e eu a ler para ti poemas cartas pequenos versos que nasceram de ti a mexer no meu cabelo

e o para sempre nas fotografias foi sempre teu

e eu: diz cheese e tu para sempre em vez de cheese por isso o para sempre nas fotografias foi sempre teu e o para sempre nas calçadas que gastámos foi sempre teu o para sempre em todos os para sempre nas mãos dadas nos beijos deixados nos vãos das escadas nos aeroportos nos estacionamentos dos aeroportos nas chegadas foi sempre teu

e esta casa a que estou sempre a chegar

e estou sempre a ver-te e não quero e não quero pensar nas calçadas e em quando nos deitámos e me disseste não preciso do mundo para nada e o fumo do teu cigarro é minha testemunha e tu disseste para sempre e o céu estrelado é minha testemunha mais as estrelas que já não existem

e respirar fazia sentido o amanhecer das flores fazia sentido e os equinócios do coração faziam sentido na sombra dos planetas e no voo magro das estações de todos os poemas por escrever

e sempre esta casa vazia de saudades e de mar

e continuo a adormecer depois de ti e só consigo dormir contigo para sempre e nenhuma outra, juro, que só consigo dormir contigo para sempre e este para sempre é meu que só consigo dormir contigo e acordar com os teus pés fósforos nos meus os teus beijos no meu ombro olhos fechados lábios secosmolhados no meu ombro os teus braços a expandirem o mundo na tua mão a minha cintura a acordar contigo

e respirar fazia sentido

e continuo a apanhar as cuecas que deixas pelo chão órfãs meias órfãs eu órfão deixado pelo chão para sempre a receber os teus beijos pintados num espelho de batom

e não pertenço a mais ninguém e não posso amar mais ninguém e nunca hei-de fazer ninguém feliz,

só dor tenho para dar dor e uma particular maneira de sofrer e ser infeliz e de morrer miseravelmente em alguns poemas tristes

por isso digo: não se desaprende a solidão da forma em que eu te pertenço completamente: por isso digo: devolve-me

6 comentários:

  1. A continuares a escrever assim ainda me inspiras a fazer o mesmo... :) Adorei!!!

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  2. espero que isso seja uma promessa...;)))

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  3. não sabes já que não me podem falar em francês!sou fraco para essas coisas!

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