quarta-feira, 17 de outubro de 2012

a minha cidade és tu


são 23:57, precisamente, e escrevo-te à distância desta cama vazia deste outono vazio de todas as coisas que descobrimos juntos, tu e eu Porto, e sei que vamos ser felizes para sempre.

és a minha cidade. tu és a minha cidade. e és minha lista de sonhos por cumprir e a minha lista de lugares por cumprir e de livros e filmes e músicas e vinhos.

nasci para ti, para as tuas ruas de pedras e calçadas e s. bento em partidas e chegadas em abraços mais ou menos perdidos e para o piolho o setenta e sete o contagiarte às quartas e o gesto agora apagado e o pinguim o mau mau a tendinha o armazém mais as tardes do solar a tasca de santo antónio o senhor fernando o fado no boteko e para todas as pessoas que puseste no meu caminho, tantas e tantas que vão ficar,

 e para os teus velhos, que gosto quando o sol se põe nos olhos dos teus velhos, e para o teu sotaque e a tua autenticidade de cordas nas varandas e cuecas e soutiens e o peluche dos meninos e para o carago para o chega-te à minha beira e para as tuas mulheres, a Sophia a Agustina, que tens as mulheres mais bonitas do mundo e as varandas mais bonitas do mundo e a curva de rio mais bonita do mundo

e para a tua voz de nevoeiro para as manhãs de chuva e olhar breve da ribeira, para o rio a molhar os pés das casas a molhar os pés das pontes a molhar os pés do mar, e para as casas, para as tuas casas a nascer das outras casas, umas dentro das outras e em cima e ao lado pequenas escadas a nascer e pequenas ruas e pequenos vãos de escadas onde os namorados

que és a cidade mais romântica do mundo e ninguém é mais feliz do que nós que te amamos

e gosto que tenhamos horas marcadas, sítios, dias no calendário
e gosto de te deixar mensagens e de encontrar as mensagens que te deixei e saber que não mudámos, eu e tu

e gosto das viagens no teu corpo. e de te tocar, gosto tanto de te tocar. e gosto das noites de viagens no teu corpo e dos amanheceres de frio e poucas flores e alegria, só frio e uma alegria sem flores que o frio também pode ser alegre em manhãs de aconchego e mantas e poemas de muitas cores.
 
e gosto de voltar a ti. gosto de voltar

e são 00:46 e continuo a escrever-te  e continuo à espera que uma janela se abra e te traga até mim, qualquer janela

e de repente só o teu cheiro e esta falta de ar

 a minha cidade és tu.

e continuo a escrever-te à espera que uma janela se abra

e de repente esta frágil sede a tua fotografia lúcida o teu mar alto encostado ao meu mar  

e de repente só a tua respiração só o teu sorriso de cidade feliz só a fotografia do teu mar alto a encostar o peito ao meu mar

e hoje sonhei contigo. estavas muito bonita.

vou ter todas as saudades do mundo

8 comentários:

  1. Be-lí-ssi-mo!
    Depois, deste texto, qualquer mulher gostaria de ser cidade e de se chamar Porto. Porta de entrada de portos onde exclusivamente ancoram paraísos impossíveis.

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  2. Tu deves ter algum interesse especial em me pôr a chorar logo de manhã certamente...

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  3. @Ripichi:Obrigado!Na verdade, tudo se dev à Cidade e às MARAVILHOSAS pessoas que pôs no meu caminho...

    @Angie:É a nossa cidade...podia ser de outra forma?;))

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  4. está tão, tão bonito, que me apetece ler e ler!

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  5. adorei este texto, expressa de forma maravilhosa esta linda cidade! muitos parabens ao autor e a todos os que contribuem para este blog cheio de palavras marcantes!

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  6. @Rita Laranja:Obrigado, Rita!;))))Ainda estou à espera da tua, que sabes que gosto muito do que escreves e da maneira como escreves.

    @Ana Bastos Vieira:Obrigado, pelo que me toca e por todos os que fazem deste blog uma coisa tão bonita!E ainda bem que gostaste...por outro lado,é fácil falar de um tão grande amor!

    @Todas:Vocês são FANTÁSTICAS!;)))

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  7. e eu que cresci aí, e que até nem costumo ter saudades... de repente até tenho.

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  8. Obrigado, Ana! Aposto que é uma saudade boa...

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