terça-feira, 27 de novembro de 2012

Vêm de muito longe e chegam incompletamente


Vêm de muito longe e chegam 

incompletamente 

ao pequeno vulnerável sítio entre o meu coração e a minha vontade

coração ateu (nessas coisas dos amores em part-time), vontade 

dividida, que quase acreditou

em amigos.

Inconstantes nas cores como no percurso

Adoro como passas por mim 

e sorris.

Adoro como passas por mim

e não sorris.

Adoro como passas por mim.

Incompletamente.

Não se perseguem borboletas!

Fossem outros, de outras pessoas, outras pessoas, de outros 
modos, outras coisas?
Passam incompletamente. Passam…

Elas pousam, se quiserem…

Perfeito desacerto pensar possuir alguém se nem a própria vida 

possuímos…

E no entanto nunca me apeteceu faltar ao encontro fatal da areia

com o mar!

Sempre me serviu para visitar últimos amigos e

A solidão sempre me restou como companhia.

Sítios desertos, continuarão sempre

À nossa espera.

Maria Supertramp


Itálico correspondente ao texto de Manuel António Pina, «Farewell Happy Fields» in Poesia Reunida, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001

Um comentário:

  1. Adoro ter passado por este segmento:

    «Adoro como passas por mim

    e sorris.

    Adoro como passas por mim

    e não sorris.

    Adoro como passas por mim.

    Incompletamente.»


    E eu que sou dada à estética do incompleto, espero ter-lhe apreendido completamente o sentido. Senão, que sabor a beleza é este que me ficou pegado ao palato?

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