segunda-feira, 5 de novembro de 2012

carta a Lord Alfred Douglas

Courtfield Gardens, 20 de Maio de 1895

Minha criança,
Hoje foi pedido para que as sentenças fossem dadas em separado. Taylor será julgado neste momento, por isso pude vir até aqui. Minha doce rosa, minha flor delicada, meu lírio dos lírios, parece ser na prisão que vou testar o poder do amor. Vou ver se consigo amaciar a rudeza dos guardas com a intensidade do meu amor por ti. Houve alturas em que pensei que era melhor a separação. Ah! momentos de fraqueza e loucura! Agora vejo que teria mutilado a minha vida, arruinado a minha arte, quebrado as cordas musicais que fazem uma alma perfeita. Mesmo enlameado te louvarei, desde os abismos mais profundos chamarei por ti. Estarás comigo na minha solidão. Estou pronto a me não revoltar, aceitando qualquer ultraje por amor, deixar que o meu corpo seja desonrado enquanto a minha alma guardar a tua imagem. Desde o teu cabelo sedoso até aos teus delicados pés, para mim és a perfeição. O prazer esconde-nos do amor, mas a dor revela-o na sua essência. Ó mais adorada das criaturas, se alguém ferido pelo silêncio e solidão vier até ti, desonrado, alvo de zombaria, oh! podes sarar as suas feridas tocando-as e curar a sua alma que a infelicidade havia asfixiado. Nada te será difícil, lembra-te, é essa esperança que me faz viver, essa única esperança. O que o saber é para o filósofo, o que Deus é para o santo, tu és para mim. Manter-te no coração, tal é o meu objectivo desta dor a que os homens chamam vida. Ó meu amor, tu a quem acarinho acima de todas as coisas, narciso branco num campo de ceifar, pensa no fardo que sobre ti recai, um fardo que apenas o amor pode tornar leve. Mas não te entristeças, antes sente-te feliz por teres preenchido com um amor imortal a alma do homem que agora chora no inferno, e mesmo assim leva o céu no coração. Amo-te, amo-te, o meu coração é uma rosa que o teu amor fez desabrochar, a minha vida um deserto tocado pela deliciosa brisa do teu hálito, e cuja fresca primavera são os teus olhos. A marca dos teus pequenos pés faz vales de sombra em mim, o perfume do teu cabelo é como mirra, e onde quer que vás, exalas os odores da acácia.
Ama-me sempre, ama-me sempre. Tens sido o supremo, o perfeito amor da minha vida, não pode haver outro.
Decidi que ficar era o mais nobre e o mais belo. Não podemos estar juntos. Não quero ser apelidado de cobarde ou desertor. Um nome falso, um disfarce, uma vida a monte, tudo isso não é para mim, para quem tu foste revelado no cimo da montanha onde as coisas belas se transfiguram. 
Ó mais doce dos rapazes, mais amado de todos os amores, a minha alma une-se à tua, a minha vida é a tua, e no meio de toda a dor e prazer tu és o meu ideal de admiração e alegria.

Oscar

in Cartas de Amor de Grandes Homens, Ursula Doyle

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