quarta-feira, 2 de maio de 2012

One last cigarette, and I'm gone*


Dizias-me, sempre que te escrevia, que as coisas que desejamos tarde ou nunca as conseguimos.

Dizias-me, sempre que te escrevia, que não sabias se a minha alma te pertencia mais do que te pertenciam as minhas palavras, que teimava em te escrever num pedaço de folha qualquer, num talão de supermercado, num ticket para aguardar a vez, a minha vez, num bilhete de teatro.

E dizias, sempre que te escrevia, que o amor não se devia servir das palavras, que morrem jovens, quando são ditas da boca para fora ou escritas num pedaço de papel qualquer.

Que ridículo! Dizia-te eu quando nunca me escrevias.

Os amores são ultimatos, preces vitais para a urgência de viver, para o sentido de morrer. Mas nunca será: o amor ou a vida!

Por isso devíamos poder escrever Amo-te na pele como no papel. Dizia-te eu. Quando nunca me escrevias.

Gostava de poder dizer que te dei ouvidos. Mas insisto que também se pode amar quando se escreve. E amei-te melhor quando escrevi. E tu, tu tiveste-me melhor, quando escrevia!

Ouve: só por palavras se pode ser em tudo quanto se amou. Dizia-te eu quando não te escrevi. Nunca mais.

Ali reconstruímos vezes sem conta essa dança primitiva entre o sim e o não.

Agora já não há o arrepio por não ter corpo que os dedos irresponsáveis pudessem descobrir, e que foi solidão por já não haver!

Que já não é.

Aqui. Agora.

Há ausências que são felicidades!

Agora já só tenho memórias ridículas de coisas que pelos vistos foram feitas para ser ridículas. Ou muito ridículas. Como as palavras com que se prostitui o papel que se gasta em cartas. Qualquer pedaço de papel.

Esqueci a tua voz: segredo asilado em fendas que me esqueci de fechar.

O segredo já não é nada. Agora.

As palavras não eram nada? Ignoro o que isso seja, ser nada. Palavras que são nada. Palavras que não devem?

 Só as que nunca te consegui dizer podiam ter sido tudo. Agora. E que nunca mais te escrevi.

Se te encontrasse hoje não me lembraria da tua face. E já tinha esquecido a tua voz. Apercebi-me por fim que o esquecimento não é nenhuma ferida.

Só lamento ter-me apaixonado por caminhos por onde não fui. Mas agora sou outras coisas. Também sou outras coisas.

E foi assim a brincar que partimos o coração, que perdeu peças e agora não quer funcionar. E à força de não funcionar, se não se consertam pessoas, não podíamos ser pequeninos para sempre? Que loucura!

E não há sempre alguma razão na loucura?

Foram beijos aliterados as Palavras escritas num pedaço de papel qualquer. Agora.

Poema verdadeiro, que atravesse muros, de alto risco, é ser para sempre. Loucura.

Além-palavra é só e apenas um novo começo.


Outro algum.


Maria Supertramp


*anteriormente sob o título ´o amor não se devia servir das palavras`

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