quarta-feira, 8 de agosto de 2012

o mar é um planeta inconfessável


eu chorei primeiro. chorei um corpo inteiro.

depois o teu abraço o teu soluço o teu medo inteiro. depois a despedida. não sei se dissemos alguma coisa. não sei se disse: o céu não é dos pássaros, o teu corpo desafia a voar, sinto o sol sempre que o teu olhar ousa riscar o meu olhar. não sei se sorriste.

eu chorei primeiro.  eu chorei primeiro cada dia sem ti.

é sempre mais difícil do que parece, é sempre mais difícil do que quando treinamos e só vemos as lágrimas longínquas do espelho   não molham   as mãos tremem menos

é sempre mais difícil porque os finais têm a tua cara e não têm música e alguém se esqueceu de fazer um filme sobre nós em que eu à chuva atiro versos e flores comovidas  à tua varanda comovida e tu corres descalça pele colada ao vestido e os meus braços. alguém se esqueceu e nem músicas nem poetas tristes amanhecerão, só esta carta, que não há finais felizes que os finais são territórios para a distância para súplicas tardias para suicídios de improviso em olhares cheios de nada lugares onde não se deve regressar

e ainda que quisesse não saberia regressar à tua carne vidro na memória

e ainda que quisesse não saberia regressar ao azul às estações de framboesa aos barcos despidos de língua  às noites que não precisam de tradução


o mar é um planeta inconfessável que se deixa despir e tocar


tu és um planeta inconfessável que se deixa despir e tocar  
e enquanto o Porto me olha amadurecem tempestades nas esquinas o silêncio despede-se de plutão os cinzeiros ficam misteriosamente vazios

e nos hospitais de cinza de Eugénio as primeiras luzes das colinas amam pequenos poemas pequenas cartas como esta pequenos nadas

e neste momento a claridade toca todos os espanta-espíritos do mundo

e neste momento o meu telemóvel toca e a solidão é apenas  uma promessa que se apaga na promessa de outros corpos de outros incêndios de outros naufrágios de luz projectada noutras camas

e estou deitado e o cigarro estende-me passadeiras de fumo. finalmente sinto que tenho idade suficiente para fugir do mundo. e ainda assim não fujo. velo-te.

Nenhum comentário:

Postar um comentário