domingo, 12 de fevereiro de 2012

E no final nem o teu nome terá existido


Há noites que são um oceano que apetece muito mas não afoga

Ouves o vento lá fora, ouves enquanto dormes?

Não sei se a Primavera volta para lá das rosas, não sei

Mas parto

Deixo-te hoje, mas já tinha começado a deixar-te há muito tempo. Fui-te esquecendo em pequenos gestos de esquecimento, pequenos nadas

Deixo-te e deixo-te completamente, esqueço-te, apago-te e no fim nunca terás existido. E não haverá mais corpo para reconciliações, novas tentativas, para as promessas de sempre. E não haverá mais sul para mensagens a todas as horas, mensagens depois do bip, flores no tapete de minha casa, que descobrirás, e no trabalho e no carro e em todos os meus passos.

Estou a deixar-te. E deixo-te porque te quero deixar, porque não te quero mais, porque sempre estiveste destinado a não teres existido. E deixarás de existir tranquilamente e a respiração não acelerará quando te vir trazer outra pela mão, quando me disseres olá não engolirei em seco, não sentirei o meu coração cheio de pássaros a rasgar-me o sangue, porque no final não terás existido e não serás tu quem vejo sempre e quem me faz correr para o telefone e ao primeiro sinal de chuva um gostinho a ti, não

Não será o teu nome que gritarei quando só puder gritar, não serão para ti as meias novas, a lingerie, o cabelo por apanhar e nem os lábios pintados as unhas pintadas as lágrimas, a boca, as mãos muito exactas, o medo, a solidão das noites frias, de mar mais alto

E não terás mais abraços que o teu, não será para ti a fome

Os sonhos mais altos, as noites de maior pele, as noites de pele o desespero os ciúmes os cabelos arrancados às horas vagas de certeza, e nem a desconfiança a monotonia a rotina das paixões, os nãos às noites com as amigas, os nãos aos dias com as amigas, os nãos às noites comigo aos dias comigo, os nãos 

E não serás tu do outro lado da cama

Não serão para ti as mentiras sempre que chego tarde ou não venho ou me preocupo porque chego tarde ou não venho, e porque é que nunca quiseste saber se eu com outro, se eu não como te contava a mentira, se eu nada com o silêncio a tornar-se transparente.

E no final nem o teu nome terá existido

E sempre fui eu que te perguntei… e quando o amor acabar? E o amor acaba, embora tu digas que não

O amor não é uma estação que se demora nos olhos até os tornar cegos a tudo e os meus já não têm mais Verão para ti,

Já não é a tua a pele que mora debaixo das minhas unhas, nem teus os beijos que me sufocam e são as minhas brasas e os meus 365 dias

Deixo-te esta carta como deixo tudo o resto, como me deixo um pouco aqui, não por ti, por mim, quero nascer outra e não quero nascer de ti.

8 comentários:

  1. Parabéns, por escreveres tão bem!! Acho que dava uma excelente letra para uma música. Adorei*

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  2. Obrigado, muito obrigado!Gostei que tenhas adorado...

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  3. ...Amei...o escrever correctamente e expor sentimentos...sim, de facto posso elogiar..mas mais do que isso..amei o sentimento. O conseguir transpor o sentimento...é dificil, muito dificil consegui-lo!

    um abraço

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  4. Olá, Xinha!Só posso agradecer palavras tão bonitas...Bem-Vinda!

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  5. Muito bom este texto! amanhã irei partilhar :)

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  6. Que dizer que já não te tenha dito... :)
    Lindo!

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