segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

um segundo dos teus olhos


um segundo dos teus olhos

e o tempo acaba de começar,

uma sombra de luz abre a janela deste quarto donde te escrevo entre livros que se podem cheirar na janela que se abriu e um vento minúsculo feito de pequenos fios invisíveis pequenos lagos irrompe num beijo de gotículas com sabor a mar

e a primeira vez que olhaste para mim pensei: o tempo acaba de começar e não disse: o tempo acaba de começar e percebi assim que a poesia, como tudo, nos falha nas horas em que nos é mais necessária e levanto agora a persiana e a sombra da lua que aprendeu a ser luz caminha até ao teu corpo feito de pequenas letras que eu vou formando neste papel que um dia poderá cheirar como cheiram os livros e um vento muito pequenino quase minúsculo irrompe num beijo de gotículas com sabor ao mar da tua boca e eu vou aprendendo assim o significado íntimo das cores a inclinação da respiração da terra a vertical existência do céu nas flores

e espero que me ouças quando daqui sussurro     continua a ser uma experiência de pele a estremecer  pupilas muito brilhantes arrepios de juventude o aparecer dos teus ombros  e os ossos de onde emerge o teu pescoço a aparecer também  e as tuas costelas prova esplendorosa de que adão não existiu com o ar a tornar-se mais puro e mais quente e mais ar a descer pela tua garganta

e hoje estavas especialmente bonita e eu sei que estás sempre mas hoje estavas especialmente bonita e amanhã especialmente bonita também e sei que que a primeira coisa que fazes quando tens um livro nas mãos é cheirar as páginas, por isso não estás ou estarás     serás sempre bonita     a cheirar as páginas embora não saibas a razão e eu não te pergunto que não tenho que saber tudo não quero saber tudo que o mistério é a música mais íntima das coisas e quanto mais velhos quanto mais usados amarelos melhor o cheiro e também por isso o meu presente para ti são palavras que cheiram a livros escritos há muito tempo para ti

e apenas um segundo dos teus olhos

e eu sei que o medo se faz sempre presente e não desaparece  e é claro que a primavera ajuda e o mar de verão anil ajuda e o outono de alegria e desespero das folhas coloridas que se deixam cair no vento ajuda, mesmo quando não encontramos as palavras que nos escolhem e nos deixam as veias muito abertas para conseguirmos sentir e sentimos

e o medo sempre presente até eu te segurar a mão e eu sei que não há receitas infalíveis não há caminhos totalmente seguros ou um só caminho sequer     e o medo eu sei     mas às vezes basta deixar o sonho começar

e não te digo para abrires a gaveta da tua secretária mas hei-de querer sempre desejar-te um dia radioso tão lindo como o teu olhar, por isso o verso tatuado na flor gerbera ou orquídea-blue que só podes ver se fechares os olhos com muita força

e um segundo dos teus olhos     mesmo o mais breve

que quando me olhas não acontecem apenas pequenas explosões cavalos no meu peito tremores de terra finíssimos, acontecem abalos sísmicos de dimensão épica seguidos de tsunamis vibrantes de veludo índigo e madrugadas e crepúsculos como me aconteceu segunda-feira quando disseste: ´dá-me um tiro`: como me aconteceu quando te agarrei e puxei o teu corpo contra o meu e agora se quiseres podes dizer adeus definitivamente e sabes bem que não era bem um tiro que me apetecia dar-te nesse segundo eterno dos teus olhos em que visitei locais secretos refúgios de pequenas felicidades e cidades surpreendentes de sol e agosto para ti todos os dias

que tu naquele vestido que parece que cresceu nasceu surgiu de geração espontânea ao redor das curvas do teu corpo que são como as deste rio de outono casa de sonhos que nos faz amar o silêncio

e gosto de entrar na noite alta a escrever para ti

nenhum som produzem estas horas por isso gosto de entrar na noite alta a escrever para ti ficar aqui parado na transcendência de olhar para ti tranquilamente  e lentissimamente desfolhar-te pétala por pétala até poder dizer

o segredo dos teus olhos és tu

e podia não ter escrito mais nada

e o segredo do teu sorriso és tu e podia não ter escrito mais nada ou só o teu nome e ficava tudo dito os arquipélagos dos sonhos  as constelações da memória o saint michel que existe para lá dos postais iluminados e da lucidez fria das fotografias a baía a minha letra fio do meu sangue a deixar sussurros na areia

o teu nome apenas

o segredo

tu

6 comentários:

  1. Mais um texto muito bom ;) estes textos já mereciam estar publicados e ser publicamente reconhecidos ;)

    bjo*

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  2. ‎'pequenas explosões cavalos no meu peito tremores de terra finíssimos, acontecem abalos sísmicos de dimensão épica seguidos de tsunamis vibrantes de veludo índigo e madrugadas e crepúsculos' que nos acontecerão quando pudermos cheirar as páginas dos teus futuros (breves) livros. és o maior!

    (off-topic - não estaria na altura de protegeres de alguma forma os teus direitos como autor. mesmo nos blogues é possível. anda por aí muito urubu e estas preciosidades são tuas. e como diz a Maria, isso tem de ser publicamente reconhecido.)

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  3. tu...é só pessoas lindas neste blog, credo!

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  4. Olá Carlos :)
    Muito obrigado pela sua visita no meu blog =)
    Gostei muito aqui do seu cantinho, parabéns =D
    E achei a sua ideia em relação a um post de como deixar os homens mais bonitos muito interessante, um desafio que vou aceitar com certeza, lol :)
    Beijinho e muitas felicidades, vou passando por aqui ♥

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  5. Olá Ana Fiiipa,
    se alguém tem que agradecer sou eu!
    eu vou passando por lá...pra ver se consigo ficar mais bonito!;)))
    bjinhos

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