quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Prelúdio para um beijo


Vem nas enciclopédias que no princípio era o sonho.

Daqui donde te escrevo já não se ouve a luz com que me acordavam os teus olhos.

Daqui donde te escrevo, não se ouve a luz, nem o entardecer onde esqueci em que degrau parei quando te soube outro. Só sei que o teu amor foi sempre esse sol inclemente e a tua mão a estrada.

E se te dizia querer o amor inteiro, o que guardei nas palavras, e há palavras que envelhecem dentro de nós sem nunca conhecerem o início dos lábios. Ainda o quero. Dos teus lábios. Envelhecem tarde. Dos teus lábios. E os lábios envelhecem.

E as manhãs de Junho azul quando as manhãs acordavam com copos sujos, de que se encarregou a noite.

Sempre que chegavas era o amor que eu queria que batesse à porta. E tu não nasceste. E é difícil ter linhas invisíveis para caminhar se sabias que eu sempre caminhava.

Hoje sei que não é bom expormo-nos à crueldade do sol que aquece devagar. Fahrenheit a noite estala: tu foste chuva eu era lava, agora, sem brisa, a boca é cinza, as ruas são cinzas. E verde, coruscante, verde, Sintra, no inverno e no verão.

Por vezes o destino não é pior do que o imaginámos e o teu beijo ainda é o nada que é tudo, mapa duma alegria onde me guiavas por instinto. Que a tristeza nota-se sempre mais de lado quando te vejo. Mas já não te vejo e,

Ainda guardo búzios donde bebemos, ainda guardo oceanos, ainda guardo forças para te dizer o que calei: ainda te aguardo. Não há viagem que me possa fazer feliz se a minha alma só era feliz porque era a tua, porque foi ali e ainda te guardo. E já não viajo…

Ouves? Daqui donde te escrevo já não se vê a luz! Já não te ouço. No escuro as minhas mãos só te vêem assim. E as mãos sabem! O tempo cumpre as promessas que faz e já não se espera que os dias possam ser corrigidos pela música. E as mãos sabem!

Vejo que unindo todos os tremores os pontos fariam algum sentido, mas depois fugia.

Quero que vás, agora. Só não vás tão longe que te surja a noite sobre o nome que te beijou.

Perdoa as noites em que ainda és sol mas o coração já arrefece, dormente.

Dos lábios, houve um beijo que só conheceu princípio, e no princípio era o sonho.

Vem nas enciclopédias que no fim já não há sonho, sabes?
Adeus saudade. 

Aqui me despeço de ti.

Já só te escrevo com as palavras dos livros que eram e que li contigo. Já não és mais dos teus lábios. Dos teus lábios!
Adeus palavra. Dos lábios, perdoa o beijo.

E se hoje começam as coisas que me estavam destinadas para sempre, não posso prometer mais nada.



Maria Supertramp

4 comentários:

  1. Ao ler este texto confirmou-se o que eu já desconfiava: o dom da palavra esta onde mora o sentimento.. Um texto verdadeiramente belo :)

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  2. é verdade...mais do que o escrever...sentir tudo com a pele toda.

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  3. Não está nenhuma super trampa nem nada parecido este texto! Bô! Sentir tudo de todas as maneiras! ;)

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