quinta-feira, 2 de maio de 2013

qui faulta você mi faiz


Querido não-sei-quê,

Ligou-me hoje uma amiga a dizer que não sabe ao certo se alguma vez foi feliz.
Recebi aquela notícia com a consternação que não pode faltar a quem quase partilha essa dúvida alguns dias por semana, e que sabe do que se está a sofrer aqui.

Tenho desde sempre esta ideia de ti: és uma rocha impenetrável quando sofres.
Nada disto é bom.
Eu sei. E gostaria de te poder contar tudo o que falámos, na língua dos fortes, mas o que é que tudo pode ser? Não sei se pode ser, aliás. Não me peças o que não pode ser ainda.
A poesia é na minha vida a única maneira de apagar o escuro onde me encontras cada vez mais, e de haver luz, onde já não me desvendas nem eu sou, não interessa quantas vezes me chamasses sol.

O silêncio não te faz bem, ao mesmo tempo que não somos felizes, certo?
Ou somos e ainda não sabemos? Que isto de se ser feliz é como um escritor que escreve e não é lido, como um músico que compõem e não é ouvido, como quem ama e não é amado mas tu continuas a amar porque sim, a escrever, porque sim, é esse o teu sentido. É isso que tens de fazer e pode ser que já sejas mas ainda o ignores (ainda que duvide sempre mais que alguma felicidade possa vir do conhecimento, parece que é assim).

Criar felicidade é tão simples! Criar infelicidade também, só não sei se pesa mais.
Nunca fiar. Voltemos à dúvida.
Lembra-nos que temos a alma agarrada a tanto, por vezes, muito pouco, mas que esse pouco anima a caminhada, Ensina-nos que melhor seja levar uma vida tocada de ouvido, ao ritmo do que somos e desejamos ser, do que guiar-nos por uma pauta, em segurança. Não se pode dizer tudo o que se pensa, seria dizer demais, seria arrastar para os nossos cárceres os que amamos, mas também ganhar os seus braços longos,
que nos salvariam.
Não sei o que escrevo mas escrevo.

E depois Silêncio.
Sinto a falta de muitas coisas
Muitas coisas.
Sei como comunicamos silenciosamente.

Pediram-me que escrevesse esta carta mas não sei sobre o que quero escrever. Já tudo foi dito alguma vez. Para mim
As músicas já disseram tudo o que havia para dizer e mais do que isso por estes dias não sou da música, sou do silêncio. E quando é sobre o silêncio, é sobre nós e coisas que não podem ser ditas e coisas malditas.
Já sei que sou a rocha intransponível, dizes-me sempre isso,
terminamos sempre as conversas assim e eu sei que sou mas tive um tempo em que não fui.
Do lado de cá do terrível silêncio, as tempestades continuam.
Malditas as coisas que se dizem com silêncio e eu
Nestes dias
Não sou do amor, nem das cartas, nem da música, nem de Paris. Sou do silêncio. Por estes dias, sou silêncio.
Sobretudo o amor, não admite silêncio (e as cartas escritas a branco)
E quando amar é silêncio…
Tu que querias amor que fosse toalha que enxuga o suor dos dias, que fosse mão que alivia o peso,
E só depois fosse palavra. amor também é palavra.
e como palavra que é, fosse canção para viveres mais canções para sermos mais…

tu.
and you ask yourself: where is your mind?

Foda-se tudo o que está errado nas nossas vidas sobretudo se o que está errado nas nossas vidas somos nós próprios, para começar.
Não tenho a certeza se já fui mais feliz e não sei quando vou ser ou quando deixei de ser
Mas a vida é isto: a todo o tempo podemos transformar-nos em casas desarrumadas
compartimentos cheios de tralha
avessos por desvirar.

Está tudo desarrumado na minha vida, e não sei se a desarrumação tem conserto.

Para isso precisava da pontualidade de certos sorrisos…
Preciso desses sorrisos com o futuro lá dentro.
E das pessoas que vêm com eles
De todas as coisas perdidas, nada me custa mais do que perder os sorrisos.

qual é o teu próximo destino? Querem sempre que tenhamos um próximo destino.
não quero próximos destinos!
a vida necessita de pausas mas eu não quero outros destinos
Precisa-se é de leis que nos obriguem a ser felizes: ministérios da felicidade!
Mas já não quero próximos destinos.
Já não quero, nem assim tanto como um dia quis, obrigada mas já não quero.

há mais chuva na minha vida do que aquela que eu desejaria
há mais frio do que aquele que eu pensaria sentir
mais chuva
do que aquela que o meu avesso deveria ter.
Sol. E chuva, outra vez.
entre o bom e o mau estará sempre a saudade os fins que não são finais.
Sempre a saudade…
Coisas por acontecer e
A Felicidade.
se voltar
é porque é feita de amor.

Maria Supertramp

4 comentários:

  1. maravilhoso!! vocês deveriam juntar-se pois escrevem maravilhosamente bem :)

    bjo*

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  2. Sublime!
    "Do lado de cá do terrível silêncio, as tempestades continuam.
    Malditas as coisas que se dizem com silêncio..."

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  3. Todos temos as nossas muralhas de silêncio... :)))

    PS - A Senhora Rita, agora animada pelas brisas mornas da Sicília, devia cumprir a promessa de uma vez por todas!

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  4. @Maria:Já nos juntámos e já houve (acho que ainda há) projectos para mais cartas a duas mãos...gosto mto desta nossa Maria.

    @José:;)

    @Angie: A Senhora Dona Rita Laranja está a precisar de uma chamada de atenção a la siciliana!;)))

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