segunda-feira, 27 de maio de 2013

Caderno de Capa Preta


Estou cansado de escrever nas teclas duras do computador. Frias e indiferentes aos meus dedos, aos meus suores, aos meus pensamentos. Como se meu fosse alguma coisa, até eu. Tenho saudades das linhas de papel do meu caderno de capa preta. E daqueles amigos. Aquele cheiro perfeito arrastado pela tinta da caneta, rasto tão inspirador. E daquele eco do tempo. Tenho lembranças daqueles significados. Do inquérito, outro “book” que não era “face”, de capa preta ou não, mas abria como um espelho de face em face como um raio, e servia para sondar os segredos, as aventuras amorosas, as nuvens e as músicas. Tudo era um pedaço real. Até os pedaços de ausência ou os pedaços das flores de papel. Ainda dançava agarradinho, a apertar a presença, hoje sonhos. O estrépito do virar de folha contrastava com o silêncio que me perpetuava enquanto aquecia parte da mão pelos afagos, carícias quase eróticas no molhar de dedos, até de amor que mergulhava no papel como mata-borrão, era mais um motivo para continuar a escrever a história, a minha história cantada dum varandim com vista para a lua, ou abafada por um cobertor forrado de lençol. Riscar uma palavra não era ofendê-la. Mas ofende a palavra riscada, a alguns. As palavras adoram marcar o papel, e as pessoas, a algumas. E as pessoas adoram fazer parte do papel, onde o espaço cresce e os intervalos rangem, com riscos ou sem riscos, tanto quanto as folhas se tocam e afastam com a sensibilidade das asas das borboletas. Que batem e voam. Sinto-te a voar. O prazer, às vezes a aterrar! E as duas linhas que mais pareciam cancelas das letras, eram arenas de mar onde rebentavam os ventos desorientados, uns que eu próprio soprava, com a ajuda de alguém, hoje sei que não era ninguém debaixo daquele alçapão. Hoje sei o que é roubar uma hora, ou oferecer um dia. Como hoje não sou, perdido nos pontos, que mais parecem uma tempestade de areia com espinhos cravados na saudade. Assim encosto o meu rosto no íntimo deste caderno como se fosse o último sinal de algodão, ou as grades arrefecidas da minha cadeia, ou o fechar daquela porta que chiava. Cruzo as pernas, com o silêncio dos livros sem pensar na estrada, ou sequer se tem fim, como esta luz do relógio de sol que nunca apaga e me mostra a sombra do avesso pendurada numa pauta de amor. Ao contrário de mim ainda tenho um caderno a sonhar, talvez pelo que escrevi, enquanto teclo agora cansado de acordar nas teclas duras do computador. Pedras que nem se tocam. Ouço a música das letras encostadas no meu caderno de capa preta, a despirem-se com sensualidade e a diluírem-se com a intimidade revelada pelas gotas de água dos beijos, beijos de chama que ainda hoje me sequestram com a força das vezes com que errei na hora de me levantar.
Talvez um dia te mande encadernar com a minha pele…

Jorge Carvalho

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